Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo aposentada da UFF, colaboradora do ObjETHOS

Quem está treinado na crítica de mídia já se cansou da monotonia: é sempre a mesma velha história, a parcialidade é tão óbvia e descarada que nem dá muita vontade de comentar. Mas certos momentos são particularmente reveladores. Este, proporcionado pelas capas de Veja e IstoÉ, é um deles, e não por acaso ganhou imediato destaque nas redes sociais.

Sabemos como a mídia hegemônica se empenhou na construção da imagem do juiz salvador da pátria, a ponto de torná-lo ídolo dos que foram às ruas para derrubar o governo e chegaram a montar acampamentos com seu nome em praças de grandes capitais. Sabemos como essa mídia transformou a operação que esse juiz conduz numa cruzada moralista, portanto inatacável, e ignorou abusos flagrantes, que chegaram ao cúmulo na divulgação da escuta ilegal entre Lula e Dilma, o ato final para a sorte do impeachment: o respeito à lei não importava, diante do objetivo maior a ser alcançado. Por isso, aliás, não deixam de ser curiosos os tardios senões manifestados nos editorias de 4 de maio do Estadão e da Folha, um assinalando o “discurso messiânico” dos principais responsáveis pela operação, outra, mais modestamente, falando em “eventuais excessos”.

Sabemos também que essa mídia vive do espetáculo, e por isso o alimenta. Coerentemente, transforma disputas eleitorais em corridas de cavalos: tudo deve ser apresentado como um jogo, jogado para uma plateia que precisa se manter ignorante para continuar apostando. Faria parte da mesma lógica, portanto, representar a audiência de Lula em Curitiba, no próximo dia 10, como um embate entre dois contendores. Um “ajuste de contas” entre dois “pesos pesados”, supostamente equivalentes. Salvo por um pequeno detalhe: um deles é o próprio juiz.

“Se o juiz assume o ‘combate ao crime’, quem vai julgar?”, indagou Marcelo Semer – um juiz conhecedor de seu papel – ao reproduzir a capa da IstoÉ em seu Facebook. O editor Haroldo Ceravolo completou: “a capa da Veja vai ainda mais longe: tem a mesma lógica, mas a associação é com a luta livre mexicana, ou ‘vale tudo’. Ou seja, o juiz não é apenas parte, ele, em tese, não precisa se submeter a nenhuma ‘regra’, ‘vale tudo’, literalmente”.

O detalhe das cores utilizadas para caracterizar o juiz-lutador – azul e amarelo no calção ou na pintura do rosto, as cores tucanas – apenas completam o quadro. O juiz “representa” o futuro da operação saneadora que promete um novo país. O réu, a sua própria candidatura para retornar ao Planalto. Como nos filmes de faroeste, seria um duelo entre mocinho e bandido, de previsível resultado, para o delírio da massa. O problema é que o “bandido”, nesse caso – o “grande capo da propinocracia”, no dizer dos procuradores das convicções sem provas –, e apesar do maciço bombardeio midiático, só faz crescer nas pesquisas. Estaria a massa torcendo pelo bandido?

A reação aos outdoors pretensamente intimidatórios espalhados pela capital paranaense – com uma tentativa de ironia que teve efeito contrário, pois falar em “grades abertas” significa liberdade, e não um convite à prisão – sugere essa torcida, que vinha se organizando há algumas semanas para comparecer à cidade no dia da audiência, adiada em uma semana sob a alegação de falta de segurança. Mas, aparentemente, o espetáculo no ringue da vara federal de Curitiba será de uma torcida só: no dia 6, na página que sua mulher mantém no Facebook, o próprio juiz, num vídeo doméstico, pediu que seus apoiadores não se manifestassem na ocasião, porque não quer “que ninguém se machuque”.

Que um juiz venha a público fazer tal exortação é algo que apenas corrobora o caráter dessa investigação.

Outdoor nas ruas de Curitiba, que posteriormente foi modificado com palavras de apoio a Lula.

A decência na lona

Num de seus artigos sobre a Operação Lava Jato, Eugênio Aragão, o breve ministro da Justiça na reta final do mandato de Dilma, demonstrou os vícios decorrentes da construção de “castelos teóricos”, modelos que estabelecem “hipóteses a serem confirmadas, independentemente de suas inconsistências ou contradições verificáveis ao longo da investigação”. Nesses modelos, “as provas que vão chegando ao processo são empurradas, piladas, socadas para dentro das categorias pré-concebidas, para que se adaptem ao todo previamente desenhado”. Daí o show de bolinhas azuis do famoso power point.

Piores ainda, segundo ele, são os castelos teóricos construídos em “forças tarefas”, criadas com tanto estardalhaço que ficam sob permanente pressão para apresentar resultados. Pois “ninguém cria força tarefa para arquivar um inquérito”.

Uma força tarefa como a da Lava Jato, diz Aragão, seria mesmo inconstitucional, porque nela polícia, procuradores e juiz são parceiros de uma mesma empreitada, em nome da necessidade do rigor no combate à corrupção: “se os três atores públicos se mancomunam, ao invés de se controlarem sucessivamente, o jurisdicionado fica sem ter a quem recorrer contra eventuais abusos articulados”, o que viola o princípio do amplo acesso à justiça e inviabiliza a garantia do devido processo legal.

Mas quem quer saber disso? Como escreveu uma notável colunista de política a propósito da soltura de José Dirceu, “a sociedade não quer saber de tecnicidades, mas de punição exemplar para condenados por corrupção”.

“Tecnicidades”, pois: que importa se o juiz é também parte? Se está no ringue como um dos contendores? Se tem – pelo menos, na sua imaginação –, como ele próprio disse não faz muito tempo, “o apoio da grande maioria, ou talvez da totalidade, da população”?

Sabemos que a mídia revela muito mais sobre si própria do que sobre o que noticia: revela, ainda que sutilmente, de que lado está. Mas talvez seja possível dizer que nunca antes na história deste país entrou em campo de guarda tão baixa e escancarou além do que deveria. Porque não apenas expôs o seu lado, já muito evidente, mas finalmente assumiu – “desenhou”, como se diz – que o “seu” juiz de estimação está desse mesmo lado.

Nos tempos dos power points de bolinhas, das acusações que se baseiam em bilhetes de pedágio, cartões de embarque, rascunhos de emails que se evaporam e provas supostamente destruídas que por isso mesmo não existem mas apesar disso ganham status de manchete – ainda segundo a mesma notável colunista, denúncias que podem não ser verdadeiras, mas têm “ares de veracidade” –, já não existe mais qualquer resquício de pudor. Não há nem sequer a preocupação de cuidar das aparências.

Por isso é ociosa a pergunta da IstoÉ ao desenhar um rito judicial como uma luta de boxe. Quem foi a nocaute, além da precária democracia que não chegou a completar três décadas, foi o que restava de decência, em empresas que, a rigor, nunca zelaram muito por ela.

Referência:

ARAGÃO, Eugênio José Guilherme de. O risco dos castelos teóricos do Ministério Público em investigações complexas, in ZANIN MARTINS, Cristiano, ZANIN MARTINS, Vera Teixeira e VALIM, Rafael (coord.). O caso Lula. A luta pela afirmação dos direitos fundamentais no Brasil. São Paulo: Contracorrente, 2017, p. 51-60.

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