Vanessa Pedro
Professora de jornalismo da Unisul, colaboradora do ObjETHOS

Provocada pela cobertura que acompanhei durante o dia 10 de maio e convidada a refletir pela análise do professor Rogério Christofoletti do dia 11, continuo a análise das expectativas criadas em torno do depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, da cobertura do evento e da mudança de tom da imprensa no sentido de reduzir para “muito barulho por (quase) nada” o que chegou a ser chamado de “ajuste de contas”, referindo-se ao grande embate entre Lula e Moro.

Discursos de imparcialidade, confronto de imagens, espaços de cobertura, capacidade de análise, mudança de discurso e de tom das matérias precisam ser observados e esmiuçados para conseguirmos chegar perto de qual era a expectativa da ida do ex-presidente a um depoimento como réu da operação Lava-Jato, diante do juiz que a conduz e que tornou-se herói de parte da população brasileira e da grande imprensa, até o dia do depoimento e a mobilização popular dos milhares que se deslocaram a Curitiba para acompanhar Lula e demonstrar politicamente que aquele depoimento não seria um simples circo midiático. A expectativa foi frustrada pela mobilização popular e dos movimentos sociais e pela performance do ex-presidente.

A primeira imagem que indica essa frustração e que explica, apesar da cobertura do dia inteiro do depoimento, que a expectativa, da imprensa e da acusação, não se confirmaria é a de Lula chegando a pé para depor, no meio da multidão, com uma gravata com as cores do Brasil e empunhando a bandeira nacional.  A imagem de petista, de fio a pavio, ele já tem como marca da figura, entalhada no corpo e na história de vida. O que Lula resolveu marcar no dia 10 é que tratava-se do depoimento de um ex-presidente (o que ele e seus advogados também lembraram ao juiz e ao Ministério Público durante o depoimento), que produziu o maior ciclo de crescimento e distribuição de renda que o país já viveu neste século e que estava sendo agora conduzido e guardado pelo povo. A presença daquela multidão, associada à figura e à postura de Lula, frustraram em parte as expectativas da imprensa e da acusação de que levar o ex-presidente como réu à “República de Curitiba”, com a preparação para uma batalha imagética entre ele e o juiz que tem uma imagem positiva como defensor da moralidade e herói anti-corrupção, seria uma possibilidade de intimidá-lo e reduzi-lo como força política.

As imagens das mobilizações

A multidão pró-Lula não deixou. A postura de Lula, a imagem que ele produziu de si em Curitiba, os elementos visuais e o lugar onde se colocou também não deram à imprensa o que ela esperava ver. Outro fator que também não foi “combinado com o adversário” é que faltou mobilização de quem era anti-Lula ou a favor da Lava-Jato, como se só fosse possível uma coisa com a outra. Foram criados pelas forças de segurança até lugares específicos de concentração de cada grupo, com uma distância segura de 3km entre eles, e uma distância entre cada um e a Justiça Federal. Claro que o grupo “anti-Lula” foi posicionado a 1km do local do depoimento e o grupo “pró-Lula” foi instalado a 4km de onde Moro interrogava Lula. E isso a Globonews mostrou num mapa das ruas de Curitiba, chamando atenção para a distância segura entre os grupos mas não observando que o grupo “anti-Lula” estaria mais perto do prédio do depoimento. Eles só não contavam que o grupo “anti-Lula” teria a presença de 10 pessoas enquanto os “pró-Lula” reuniriam de 5 mil, segundo a PM, a 50 mil, segundo o Partido dos Trabalhadores. Se 5 mil ou 50 mil, o fato é ser incomparável à dezena.

A mobilização popular foi fundamental para a mudança de postura e expectativa da imprensa, pelo volume e pelo tom da multidão mobilizada na praça da cidade e que acompanhou Lula ao depoimento, que resultou em outra imagem que não a de réu que esperavam. A multidão, com histórias e origens diversas, também evidenciou a importância da política, afinal e não apenas dos atos jurídicos que tem reduzido demasiadamente a política, seus méritos e funções, e que também já foi usada politicamente. Ainda assim, com essa diferença de uma dezena para milhares, fui checar a conta, como faz a matemática na operação de dividir. Na hora de reportar sobre as forças políticas mobilizadas e com uma oportunidade rara de fazer uma análise sociológica e política desse evento, que era judicial mas também político e social pela mobilização que provocou, a Globonews reporta como se houvesse dois grupos idênticos, em tamanho e força social, organizados em Curitiba.

Travestido de imparcialidade, o noticiário da tarde da emissora mostrou o mapa que já mencionei, sem imagens das mobilizações, até porque trairia o discurso construído pela cobertura, falando de onde já está determinada para acontecer a concentração de cada um, sem mencionar em nenhum momento o abismo de comparecimento que distanciava os dois movimentos, muito mais do que os 4km previstos pela PM. O telespectador tinha a impressão de estar diante de movimentos “pró” e “anti-Lula” com a mesma dimensão, força, deslocamento, diversidade. Imagens gerais não foram mostradas para não mudar a tese “dos grupos” nem entrevistas foram realizadas durante a apresentação do mapa para se mostrar, com histórias, quem eram essas pessoas, de onde vinham, o que defendiam ou criticavam.

A cobertura

A minimização do “embate” entre Lula e Moro se dá na medida em que já estava determinado que o ex-presidente jamais poderia sair vencedor no balanço de imagens do dia 10 de maio. Como ao longo dos dias foi se configurando que a presença “pró-Lula” seria impactante, a cobertura ganhou outro tom, mesmo mantendo a expectativa e a mobilização para acompanhar o dia do depoimento ao vivo de Curitiba. Não tinha como não estarem mais lá e Lula ainda era o réu. As entradas ao vivo dos maiores canais, e mais especificamente a Globonews, privilegiavam os espaços com pouca mobilização popular, próximos ao local do depoimento, com presença de carros oficiais, da PM, de soldados, de sirenes e de um ou outro presente que pudessem gritar e ser “vazado” pelo microfone do repórter um “Lula ladrão” ou algo assim. O clima de réu, com visibilidade do aparato judicial e policial predominaram e, quando os dois movimentos era mostrados, em geral se recorria à imparcialidade, onde eram mostrados os locais oficiais de cada um. No mapa.

Até os comentaristas perderam a mão e o entusiasmo nesse dia. Gerson Camarotti e Cristiana Lobo, chamados ao vivo de Brasília, para analisar a presença da ex-presidenta Dilma acompanhando Lula em sua ida a Curitiba, tiveram conversas com nenhuma conexão com o contexto atual, com o que significava a mobilização que estava junto com ela e além de Dilma. Atribuíram a presença dela a uma reaproximação da ex-presidenta ao PT para que ela concorra a um cargo eletivo proporcional em 2018. Os colunistas de modo geral que, no resultado dos excessos da tradição da objetividade no jornalismo, terminaram por ganhar espaço e status além do que merecem pela sua qualidade, neste dia perderam ainda mais em ter coisas interessantes a dizer. Chegavam a se perder no discurso e a fazer silêncios por falta de análises. Porque a análise mais entusiasmada só seria feita em cenário oposto como nas grandes mobilizações anti-Lula, anti-PT, como no impeachment, com coberturas e análises intermitentes mostrando a massa verde e amarela que se deslocava, com descrições de repórteres que falavam de balões brancos a subir aos céus até a presença de famílias, idosos e crianças numa manifestação cívica e ordeira.

É difícil para imprensa de hoje, moldada em padrões de noticiabilidade mais ligados a declarações do que a histórias, mais vinculada a fontes oficiais do que às pessoas comuns, mais ligada hoje ao rito judicial do que à política, sem entrar em acordos ou discutir má fé, realizar a cobertura do dia 10 de maio. Não são capazes de analisar a partir de uma vitória da política, tanto na presença das milhares de pessoas quanto no tom do depoimento do ex-presidente Lula. O ex-presidente preferia que sua fala tivesse sido transmitida ao vivo ou que as imagens mostrassem juiz e réu em diálogo, não usou a prerrogativa de ficar calado, analisou a imprensa, falou dos seus governos, de como funcionam as nomeações, os governos de coalizão, negou as acusações, pediu provas, fez política, mostrou emoção e não foi inquirido de nenhuma forma que já não tivesse sido, sem nenhum coelho da cartola nem prova sobre a mesa.

Como resultado de um dia onde a política foi exercida, no bom sentido da palavra, o circo não foi armado como se previa, esvaziar o depoimento como algo corriqueiro era menos ruim do que estar preparado para passar a imagem de réu e terminar passando como herói nacional cercado de povo. Nos dias que se seguem ao depoimento, ou o ato foi reduzido a sem importância, novas histórias sobre Lula e a Lava-Jato já surgiram para se sobrepor e reforçar a imagem de réu ou, das mais de quatro horas de depoimento onde o ex-presidente falou um bocado, comentaristas como Josias de Souza preferiram editar trechos em que Lula responde “não sei” do que pensar sobre todo o restante que foi dito por ele no depoimento e experimentado pela multidão em Curitiba naquele dia. Tem dúvida disso? Pense em toda a cobertura se tivesse havido manifestação popular anti-Lula. Como ela teria sido feita pela grande imprensa?

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