Carlos Castilho
Pós-doutorando no POSJOR/UFSC e pesquisador associado do objETHOS

Mais um desafio somou-se ao já complicado futuro do jornalismo na era digital. Depois das dificuldades de aceitação da multimídia e das incertezas sobre a sustentabilidade futura de projetos jornalísticos, ganha corpo agora a questão das notícias falsas e da crise de credibilidade nas notícias publicadas na internet.

O fenômeno das fake news e o controvertido conceito de pós verdade atingem o DNA do jornalismo enquanto os dois outros desafios são essencialmente questões de ajuste a uma realidade criada pelas novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs).

Isto ajuda a entender porque tantos projetos surgiram recentemente com a proposta de neutralizar ou, pelo menos, reduzir os efeitos da propagação viral das notícias falsas e meias verdades. A maioria das universidades norte-americanas e boa parte das europeias criaram projetos para impedir a proliferação do vírus da desconfiança no noticiário da imprensa.

O Facebook, Google e a enciclopédia virtual Wikipedia, talvez os três maiores “entroncamentos” de fluxos informativos na internet, anunciaram iniciativas para evitar que a base do seu negócio seja afetada pelo descrédito. Aqui no Brasil temos três grandes propostas de checagem de informações já em operação: O projeto Truco, da Agência Pública, o Lupa, do grupo de revista Piauí, e a versão brasileira do Trust Project, da Universidade de Santa Clara, dos Estados Unidos.

O fenômeno das fake news é uma consequência direta da super abundância de notícias gerada pela vertiginosa multiplicação de canais de informação criados pelas TICs. Muitos jornalistas, inicialmente, ficaram maravilhados com o milagre da multiplicação de notícias, que alterou drasticamente as rotinas e normas sobre os quais se apoia o exercício da profissão. Mas agora as mudanças começam a afetar os princípios e valores da atividade jornalística, o que é muito mais complexo e implica debates nem sempre serenos.

Falsificações e desinformação

Há duas questões em jogo no fenômeno do fact-checking: o da falsificação de notícias e a desinformação, ou seja, uso premeditado de omissões, descontextualizações ou das chamadas meias verdades. A falsificação é um delito criminal enquanto a desinformação é uma prática essencialmente política. Mas para o jornalismo e para sistemas como o Facebook, Google e Wikipedia, as consequências são idênticas: o descrédito.

É possível punir judicialmente a falsificação, mas o mesmo já não acontece com a desinformação porque ela envolve fatores subjetivos como no caso da famosa metáfora do copo meio cheio ou meio vazio. Dependendo do acervo cultural e da mente de um indivíduo ele pode avaliar uma mesma situação de várias maneiras diferentes.

A falsificação pode ser denunciada por processos policiais e jornalísticos como as reportagens investigativas. Já a identificação de um processo de desinformação é muito mais complexa por conta da chamada avalancha informativa na internet.

Na medida em que as TICs deram aos cidadãos a capacidade de publicar dados, fatos e opiniões na internet, surgiu a possibilidade de uma mesma situação ter centenas de percepções diferentes fruto da diversidade de visões pessoais. Estamos começando a vivenciar uma era de complexidade informativa, inédita em nossa cultura jornalística. Ela está nos obrigando a revisar princípios e valores relacionados à confiança e credibilidade.

Para o cidadão comum, isto gera perplexidades, mas para o jornalista é um desafio enorme porque ameaça o próprio DNA da profissão. Um desafio que se torna ainda mais complexo quando ele ocorre no contexto de uma crise como a desencadeada pela operação Lava Jato, onde a desinformação passou a ser uma estratégia praticada por quase todos os agentes do processo.

O fenômeno das fake news envolve a revisão dos valores jornalísticos sobre conceitos como verdade, já que a existência de paradigmas dicotômicos tipo certo ou errado, justo ou injusto, estão sendo questionados pelas teorias da complexidade. A busca de novos paradigmas não será fácil e nem rápida, o que coloca, principalmente as empresas jornalísticas diante da ameaça de perda da confiança dos consumidores de notícias.

A politização do fact-checking

É o que já está ocorrendo com muitos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, desorientados e saturados pela guerra da desinformação que começa a ganhar dimensões planetárias, depois que as fake news foram transformadas na principal estratégia de comunicação do governo Trump, nos Estados Unidos. A perplexidade e incertezas do público ameaçam tornar mais crítica a situação de conglomerados jornalísticos cuja sobrevivência foi posta em cheque pela migração de anunciantes e audiências em direção ao mundo virtual.

Até mesmo a identificação de notícias falsas e da desinformação está sendo vitimada pela diversidade de percepções diante de um mesmo fato, dado ou processo. Na Alemanha e em alguns países nórdicos, grupos de extrema direita passaram a classificar de fake news as notícias que os desagradam ou contrariam suas propostas políticas. Procedimento similar foi adotado pelo presidente Donald Trump em relação à grande imprensa norte-americana.

Resultado, o próprio conceito de fake news passou a ser politicamente desvirtuado, aumentando ainda mais a confusão do público e a dificuldade dos jornalistas em desenvolver uma abordagem profissional de um problema que tende a se transformar no maior desafio da imprensa dos tempos modernos.

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