Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Existe uma relação direta entre qualidade jornalística e ética profissional. O professor Carlos Maciá-Barber é um dos pesquisadores europeus que mais defendem essa equação. Principal nome dos estudos sobre ética e deontologia da Universidad Carlos III (Madri), Maciá-Barber é autor de diversos artigos científicos no campo do jornalismo e escreveu uma investigação pioneira na Espanha sobre os ombudsman de imprensa. O trabalho, inclusive, foi apontado como a melhor tese de doutorado em ciências humanas e da comunicação no biênio 2000-2002. Na entrevista a seguir, o pesquisador aborda temas como a crítica de mídia, o ensino de jornalismo e a ética como fundamento da profissão.

Professor, uma das suas pesquisas é sobre ética e excelência jornalística. Qual a relação entre esses dois conceitos?

Não se pode alcançar a excelência informativa quando existem falhas éticas na organização jornalística ou no exercício pessoal do jornalismo. Se os direitos humanos não são respeitados (seja do capital humano da empresa ou dos demais cidadãos), nem tampouco os princípios fundamentais do jornalismo, é impossível que o produto final tenha qualidade. A excelência pressupõe um exercício ético do fazer jornalístico: sem ética não há jornalismo, e sequer existe comunicação, propaganda, publicidade… Na Espanha, por exemplo, um problema se tornou mais agudo com a crise e não faltam vozes que se perguntam: um meio de comunicação pode ser de referência, de suposta qualidade, se ele explora seus empregados?

O senhor acha que as expectativas do público são maiores que as condições éticas dos próprios jornalistas. Quer dizer: os jornalistas conseguem ser tão éticos quanto esperam os leitores?

Existe uma certa esquizofrenia no público: de um lado, critica com virulência a classe jornalística, a quem quase despreza (Na Espanha, é a segunda profissão menos valorizada, atrás apenas da de juiz); por outro lado, o público devota uma fé inquebrantável nas informações dos jornalistas (Na Espanha, ninguém duvida de sua crucial contribuição para a transição democrática do país).

Então, o público exige comportamentos ou realizações alheias à natureza do jornalismo: espera-se que o repórter conte tudo o que aconteceu de um dia para o outro, de maneira absoluta e sem erro. E isso é impossível. Do jornalista se deve exigir honestidade, responsabilidade e profissionalismo, isto é, diligência. Às vezes, responder os porquês de uma certa realidade pode demorar semanas, meses, anos, décadas.

Os cidadãos, muitas vezes, ignoram as limitações do jornalismo. Daí a necessidade de formar uma cidadania para o consumo de mídia desde a infância, nas escolas e de modo obrigatório. Mas nenhum governo gosta que o povo conheça, saiba ou se informe.

A crítica que se faz à mídia fica bem concentrada na qualidade do noticiário. Que espaço há para uma crítica da ética jornalística?

De início, essa necessidade de análise crítica é inquestionável. Sem autocrítica, não se avança. Mas receio que existam duas forças muito poderosas que a impedem atualmente. A primeira: confundir a deontologia – a prática honesta do jornalismo – com uma moralidade inoportuna, superficial ou falsa. A segunda: o descolamento mútuo entre a categoria e a academia. Ambas vivem de costas uma para a outra e se olham de soslaio, com desconfiança. Ainda que não faltem profissionais e pesquisadores que se unam para melhorar o jornalismo real, são iniciativas a que os meios de comunicação prestam pouca atenção. Empresários e executivos se limitam a cumprir a lei, no melhor dos casos, ou a implantar ações de responsabilidade social corporativa que melhoram suas imagens e não seus trabalhos.

Para Ignacio Ramonet, as redes sociais podem ser o Quinto Poder, aquele que vigia a mídia. O que o senhor pensa dessa ideia?

A imprensa tem sido sempre observada e vigiada pelos demais poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e pela sociedade. Os próprios meios se avaliam, mesmo que seja para medir suas competências. O que as redes sociais proporcionam é um exponencial número de olhos e que comunicam imediatamente o que observam. Hoje, tudo se controla e nada escapa. Os acertos ou erros são descobertos em segundos, alardeados em minutos e revelados em horas. O problema é: os observadores possuem formação e critério para acertar em seu juízo? Por isso a alfabetização midiática é um imperativo moral de toda democracia, ainda que se leve em conta o escasso ou inexistente interesse dos poderes políticos, econômicos e ideológicos.

O ombudsman é uma figura importante para a crítica do jornalismo. Entretanto, percebemos que poucos são os meios dispostos a contratar alguém que aponte seus erros. Por que isso acontece?

A baixa ocorrência da figura do ombudsman de imprensa em escala mundial obedece a múltiplos fatores simultâneos. Primeiro: a renúncia do ser humano – e o jornalista também o é! – a reconhecer seus erros. Esquece que, no caminho da perfeição, o erro sempre aparece. O transcendente é descobrir o erro, reconhecê-lo, retificá-lo e lutar para não repeti-lo. Só assim podemos progredir de verdade. Um segundo aspecto tem relação com a organização e a direção da empresa jornalística. Com muita frequência os proprietários, editores e executivos se esquecem que sua principal função é servir aos cidadãos, afinal administram seu direito fundamental à informação. Eles não são donos da informação e seu intento não deve ser exclusivamente ganhar dinheiro. Não são poucas as vezes em que argumentam que a instituição do ombudsman é um custo que não podem assumir, ou que esse gasto deve eliminar a figura. Não se dão conta de que este é o melhor investimento – e o mais barato – para calibrar a qualidade do produto que elaboram diariamente.

Um terceiro aspecto que explica a pouca ocorrência dos ombudsman está ligado a uma concepção errada da figura: existe um empenho superior em designar para a função profissionais do próprio veículo de comunicação. Isso limita a sua autonomia e liberdade. O ombudsman, como se defendia nas suas origens, tem que ser um personagem sem passado nem futuro na redação. Entretanto, na maioria dos documentos que regulam a função se exige, precisamente, o contrário: uma grande experiência na própria empresa.

Há ainda um fator vinculado à cultura jornalística predominante em cada país. Os modos e maneiras de exercer a profissão estão ligados a aspectos históricos, culturais, democráticos, profissionais, sociais e ideológicos de cada lugar – como já mostraram Hallin e Mancini [no estudo “Comparing Media Systems: Three Models of Media and Politics”, de 2004]. Esse peso determina a percepção, sobretudo, que cada sociedade tem dos jornalistas e o grau de exigência e controle dos cidadãos sobre o seu trabalho.

A Universidad Carlos III de Madrid, a sua instituição, atualizou recentemente o currículo do curso de jornalismo e uma das novidades é a disciplina de Boas Práticas. Que objetivos ela tem e como pode ajudar na formação de novos profissionais?

O principal objetivo é formar e conscientizar os alunos de que toda mensagem jornalística tem consequências para o bem ou para o mal. Mostrar que o jornalista que exerce corretamente sua profissão enfrenta diariamente dilemas em torno das investigações que desenvolve, em torno dos enfoques, das fontes, da linguagem ou das imagens que emprega… A disciplina objetiva mostrar que diariamente os jornalistas recebem pressões ou ameaças de políticos, forças policiais, empresas, instituições, cidadãos, incluindo ainda as ingerências de seus próprios companheiros, chefes ou dos proprietários dos meios. A disciplina pretende mostrar que, com frequência, o jornalista pode sentir-se incomodado ou com medo, e que – no final – apesar da grande ajuda de códigos e normas deontológicas, a decisão última deve ser tomada individualmente, assumindo as consequências de sua ação. Finalmente, a disciplina objetiva a conscientizar os estudantes de que a melhor ajuda nesse processo virá de seus princípios profissionais e dos critérios éticos que dispuser como ferramenta. Mais importante ainda: não existe um algoritmo ético que solucione a fatura. Cada caso pode ser diferente e todos devem ser abordados com o imediatismo inato da nossa profissão.

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