Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Passavam-se das sete e meia da noite no Brasil quando uma Renata Vasconcellos confusa e aturdida surgiu na tela após a tão conhecida vinheta do Plantão da Rede Globo. O semblante aflito da apresentadora não era nenhuma encenação, embora possa ser estudado como um recurso performático do ponto de vista semiótico: a notícia realmente parecia ser grave por envolver o presidente Michel Temer numa tentativa de calar o ex-deputado e aliado político Eduardo Cunha pagando-lhe propina.

Todo mundo sabe o que veio depois disso. As redes sociais foram tomadas por tags e memes. Lideranças políticas começaram a se articular para pedir o impeachment de Temer. O presidente bem que tentou se defender, mas não deve ter tido uma noite tranquila. Tudo por causa de uma gravação? Sim! Mas também por causa de um plantão – e a hipótese que vou defender aqui é que foram esses singelos minutos de Renata diante da câmera que construíram e deram dimensão o fato.

O que é um plantão? 

No jargão jornalístico (como em outras áreas), chamamos de plantão a jornada de trabalho do profissional que se dá fora do horário comercial. Trabalhar aos sábados e domingos, por exemplo, é cumprir plantão. O mesmo se dá com feriados. Mas, para a grande maioria das pessoas, plantão é um momento de intervenção na programação jornalística que só se justifica quando estamos diante de uma grande notícia.

Mas o que é uma grande notícia?

Nos manuais de jornalismo, a grandeza de uma notícia está diretamente relacionada ao conceito de relevância. Quanto mais pessoas atingidas, quanto mais figuras proeminentes envolvidas, quanto mais mortos e feridos, quanto mais comoção, maior será o seu potencial de ser tratada como assunto de urgência. A morte de uma princesa cuja vida foi devassada. O princípio de uma guerra. A morte de um criminoso procurado no mundo. A eleição de um papa. Todos esses fatos já interromperam a programação da Rede Globo. E, com isso, alertaram o telespectador de que ele estava diante de um grande acontecimento.

No caso do noticiário político, isso se torna mais complexo. Isso porque a política representa por si só o conceito de relevância. Os políticos são, simbolicamente, figuras proeminentes. Resta, então, o critério da comoção, o potencial de uma notícia de abalar a República. A eleição de uma presidente. A renúncia de um ministro importante. O acolhimento do pedido de abertura de um processo de impeachment. A morte de um ministro do STF. Todos esses fatos já interromperam a programação da Globo. E, com isso, alertaram o telespectador de que ele estava diante de um grande acontecimento. 

Quem define um plantão?

Decidir o que vai interromper a programação de uma emissora, gerando expectativa e certa tensão nos telespectadores, não é uma tarefa para iniciantes. Muito pelo contrário: por se tratar da maior emissora do país, podemos facilmente supor que essas decisões passam pelas suas altas cúpulas de jornalismo.

O recurso do plantão é utilizado pela Rede Globo com uma vinheta especial conhecida do seu telespectador, que reforça a expectativa por algo que certamente irá chocá-lo ou preocupá-lo. Essa narrativa começa a ser construída quando a música chama o telespectador a sentar-se diante da TV e a se manter atento ao que o apresentador irá falar. No momento em que o telespectador ouve a notícia, ele sabe que está diante de uma grande história – muito menos por convicção pessoal e muito mais por reconhecer no plantão um momento de ruptura do cotidiano.

Veículos online tem sofrido críticas por abusarem desse recurso em seus posts nas redes sociais. Notícias corriqueiras são elevadas a urgentes com vinhetas especiais, chamando atenção do leitor para algo que ele muitas vezes considera pouco relevante – atitude que, de certo modo, revela uma emancipação da audiência, que admite ser ela própria capaz de definir o que toma como urgente num cenário de abundância de informação.

A definição de urgente, portanto, é algo que parte dos profissionais da emissora, a partir de seus valores e dos valores da empresa, considerando-se questões pertinentes aos processos de produção jornalística: temos informação suficiente? O fato foi checado? Não corremos o risco de errar? Temos tempo e equipe para atualizar as informações no próximo noticiário? No caso do plantão que abalou a República, ontem, soma-se o ingrediente de que a notícia vinha de um furo de um colunista da própria empresa, vinculado ao Jornal O Globo.

Plantão e posicionamento editorial 

Mais do que revelar algo importante à audiência, o plantão revela também um posicionamento editorial e político. Podemos tratá-lo, mesmo que subliminarmente, como um discurso de auto-referência da Rede Globo sobre as pautas que ela considera importantes e relevantes ao país. E, aqui, evidentemente não estamos tratando de mortes de figuras proeminentes, de grandes guerras ou quedas de avião, que são notícias no mundo todo. Estamos falando de fatos públicos que podem ser alçados à categoria de “urgentes” com o simples alarme de uma vinheta.

Há quase um ano, uma escuta que comprometia o então presidente interino Michel Temer foi divulgada. Na ocasião, o então ministro Romero Jucá falava em pacto para frear a Lava Jato, o que poderia ser considerado, no mínimo, obstrução judicial. Temer era citado nos diálogos. O vazamento dos áudios não rendeu um plantão da Globo, embora houvesse um critério de relevância reconhecido de imediato por qualquer jornalista. A queda do ministro, entretanto, interrompeu a programação.

Por que a Globo não usou o plantão como recurso editorial há um ano e usou agora? Mais do que um exercício especulativo, é preciso compreender o posicionamento da emissora no contexto político. Líder de audiência, a Globo vem sendo criticada pelos enquadramentos que confere ao jogo político. Recentemente, pesquisadores do ObjETHOS apontaram isso nas reflexões sobre o depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro. Para além disso, a empresa tem se mostrado participe desse mesmo jogo, abastecendo uma rede de informações composta por vazamentos e por dobradinhas com outros veículos na divulgação de fatos e de denúncias pouco abastecidas de provas. Um jogador nunca entra em campo para perder. E ao disparar sua artilharia contra um presidente que está investindo pesado em propaganda na própria emissora, ela pode estar dizendo a que veio.

Quem defende o bom jornalismo poderia estar comemorando que a maior emissora do país tenha finalmente aberto os olhos para a denúncia ao PMDB de Temer e ao PSDB de Aécio Neves. Críticos de mídia sempre acusaram a Globo de ser seletiva e direcionar suas notícias para uma perseguição ao Partido dos Trabalhadores e suas lideranças. O plantão é  uma mensagem categórica de que a maior emissora de televisão do país acha um fato público de extrema relevância um presidente ser gravado em diálogos escusos com seus aliados. Mas um plantão, para as teorias do jornalismo, também é mais do que isso.

O plantão e a construção de um acontecimento 

Uma linha de pesquisa bastante forte nos estudos de jornalismo se preocupa em entender como um acontecimento é construído. Para não entrar em profundas conexões teóricas, vou discutir aqui como, do ponto de vista prático, o plantão construiu um momento que abalou a república. Isso vai exigir um tanto de especulação – como imaginar, por exemplo,a repercussão da notícia caso não houvesse a interferência do plantão.

Sem a interferência do plantão da Rede Globo, num horário em que a audiência é recorde devido a boa fase das telenovelas das seis e das sete horas, muitos telespectadores só seriam informados sobre a denúncia pelo Jornal Nacional ou pelos veículos digitais. Outra possibilidade seria esperar a cobertura do Jornal O Globo, onde o furo foi originalmente publicado pelo colunista Lauro Jardim. Existem muitas pautas urgentes ocultadas ou menosprezadas diariamente pelos jornais. Não seria o primeiro caso.

Considerando a primeira hipótese, muito provavelmente a audiência do JN entenderia este como mais um caso de denúncia contra agentes políticos – algo normal na república. E ainda que houvesse ênfase na participação do Presidente em um caso a ser apurado, a falta de informações mais precisas possivelmente daria a notícia um ar quase que de normalidade, ainda que ela estivesse na escalada ou ocupasse relativo espaço na edição. O fato existiria, mas o grande acontecimento talvez fosse relegado a posições mais singelas no noticiário.

Saindo da especulação e voltando a realidade: a interferência do plantão na programação, pouco tempo antes do JN ir ao ar, deu à notícia um real sentido de urgência. Mais do que isso: convocou os telespectadores a esperarem ansiosos por mais informações, levou as redes sociais a profusão de memes, denúncias e hashtags, e gerou repercussão imediata em todos os veículos de comunicação do país. O plantão, mais do que dar a notícia, construiu um acontecimento. Abalou a República. E as consequências foram imediatas: manifestações, pedido de impeachment e uma grande e justificável comoção nacional.

Ao decidir interromper a programação para divulgar a denúncia contra Michel Temer, a Rede Globo deu ao fato uma dimensão que ele não teria caso divulgado em situações normais de temperatura e pressão. Mas ela não nos fez nenhum favor por isso. Ainda não sabemos – e aqui é bom ter cautela – porque a emissora mudou radicalmente de enquadramento uma semana depois de ter destinado tanto esforço na cobertura do depoimento de Lula a Moro. E não é preciso mais do que um momento de imersão histórica para dizer que isso não é teoria conspiratória de quem não acredita nas boas intenções da emissora.

As organizações Globo participaram ativamente da construção do acontecimento que depôs João Goulart em 1964. A emissora foi protagonista em inúmeros episódios que consolidaram o poder militar e sua manutenção por longos 21 anos. Tentou silenciar as manifestações por Eleições Diretas. Elegeu um presidente da República. Isso para ficar no passado mais remoto, pois quem lembra do presente pode listar outros episódios emblemáticos (o buscador do objETHOS pode nos ajudar nessa tarefa). Um plantao, portanto, pode ter dado a largada a um novo momento político para o Brasil. Para quem isso vai ser conveniente, só o tempo dirá.

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