Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Ainda é cedo para dizer que papel a História vai reservar ao Movimento Brasil Livre (MBL) nos acontecimentos políticos no Brasil desde 2014, data de sua criação. Mas é impossível negar que eles agem de forma ativa no jogo político e se comunicam com uma audiência engajada: são mais de 2 milhões de seguidores só no Facebook. No episódio que abalou o país e que pode derrubar Michel Temer, o MBL chamou atenção pela mudança brusca de posicionamento: primeiro pediu a renúncia do presidente, chegando a convocar um panelaço durante seu primeiro pronunciamento, e depois voltou atrás, atacando a mídia e chamando a denúncia de “fake news”. Tudo isso utilizando técnicas e recursos próprios ao jornalismo, numa atuação muito semelhante a de um veículo de comunicação.

A denúncia de Lauro Jardim foi publicada no jornal O Globo às 19h30 do dia 17. Às 19h56 Kim Kataguiri, principal liderança do MBL, inicia um vídeo ao vivo pelo Facebook, de dentro de um carro. Visivelmente confuso e atordoado, ele tenta transmitir a informação, mas admite que não pode confirmar nada. O vídeo teve 352.000 visualizações e mais de 7.000 compartilhamentos (nos quatro primeiros dias). Em seguida, dois outros vídeos ao vivo foram feitos: um às 21h24 e outro às 21h31, já numa espécie de estúdio (com cenário de fundo escrito “MBL news”). Neles, os líderes pedem a renúncia de Michel Temer (vejam post na imagem acima) e condenam a atitude de Aécio Neves, no melhor estilo “que todos sejam punidos”.

A partir daí, a página do movimento começa a publicar uma série de conteúdos cuja origem é, principalmente, desses blogs: O Antagonista (O Antagonista apurou que são fortes os rumores de que Michel Temer pode renunciar), O Reacionário (Assim como Maria Antonieta, Temer esperou ficar de frente para a guilhotina para falar grosso), Folha Política (Temer vai renunciar ainda hoje, afirma jornalista), JornaLivre (Caia quem tiver que cair, diz Janaina Paschoal) e Ceticismo Político (Ninguém irá bradar “Temer, guerreiro do povo brasileiro”).

Duas curiosidades sobre esses blogs: alguns deles constam da lista dos mais compartilhados no Facebook, de acordo com esse ranking; e acabam replicando informações da mídia de referência (inclusive as incorretas, como a de Noblat). Ao mesmo tempo, utilizam termos jornalísticos como “furo” para reivindicar exclusividade de informações.

No dia 18, a página do MBL ainda queria a renúncia de Temer e dava Aécio como carta fora do baralho. Chegou a convocar um panelaço durante seu pronunciamento (veja imagem abaixo) e a fazer uma enquete, recurso de comunicação para gerar engajamento e retorno da audiência. Pelas respostas obtidas, os seguidores estavam de acordo com o MBL: dos 16.000 que responderam, 15.000 foram a favor da renúncia (até o dia 21/5).

Em nenhum momento o MBL admite que manteve ligações com o governo Temer, como quando seus representantes foram chamados para “pensar como tornar reformas mais palatáveis”. Pelo contrário, fazem piada com a tentativa de Temer de mostrar normalidade.

A partir da divulgação dos áudios, o MBL lança sua artilharia contra o PT, destacando em inúmeras postagens a parte da delação que envolve Lula e Dilma. Editam vídeos com legendas que enfatizam o suposto pagamento de propina. Além disso, desconfiam das gravações, que não seriam claras. O posicionamento começa a mudar.

Ao mesmo tempo em que se apoiam no jornalismo de referência e compartilham um vídeo da comentarista Vera Magalhães afirmando que os áudios seriam inconclusivos -, o MBL inicia duras críticas à imprensa: chama Lauro Jardim de sensacionalista, classifica a denúncia como um “tropeço da imprensa”, até finalmente dizer que se trata de uma fake news (imagem abaixo).

A notícia da Folha de S.Paulo de que áudios haviam sido editados movimenta a página com um post “urgente”, recurso típico do jornalismo. O MBL também afirma ter apurado informações (outro termo técnico do jornalismo) de que Temer faria novo pronunciamento nas próximas horas.

A mudança de tom com relação a Temer vem acompanhada de uma posição contrária a eleições diretas. O MBL diz claramente que as “Diretas Já” são um golpe, inclusive divulgando um editorial (mais um recurso jornalístico) sobre o assunto. Nesse momento, eles rasgam até mesmo a cartilha liberal que dizem seguir, pois ela defende a democracia representativa.

Por fim, no sábado, dia 20, divulgam uma nota oficial em que admitem ter pedido a renúncia de Temer, mas que agora estão “em compasso de espera”, já que a agenda da saída do presidente acabaria favorecendo Lula e o PT. Pedem uma “coalizão dos brasileiros de bem” e acabam cometendo um ato falho: dizem que não querem “cair no conto das eleições diretas, que de nada servem além de proteger Lula de sua iminente prisão”. Como se uma nova eleição significasse, automaticamente, a vitória de Lula.

Como tentamos mostrar, a análise do período político que começa na reeleição de Dilma, passa pelo seu impeachment, pelo golpe, e culmina com o episódio atual, precisa incluir o ativismo do MBL nas redes sociais e fora dela. O investimento pesado que fazem em ações de comunicação, muitas vezes utilizando técnicas do jornalismo, pode explicar a escalada reacionária (para usar o nome de um dos blogs mais compartilhados por eles) que vivemos nos dias atuais.

Advertisements