Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Desde que as delações premiadas do grupo JBS despontaram na mídia, Michel Temer veio duas vezes a público para tentar minimizar os fatos ou ocultar a verdade. Na primeira, garantiu: “Não renunciarei. Repito: não renunciarei”.

No segundo pronunciamento oficial, um homem visivelmente cansado sustenta em sua defesa que uma perícia realizada pela Folha de S. Paulo constatou que houve edição no áudio da conversa dele com o empresário Joesley Batista, dono da JBS. Argumentando que a gravação clandestina foi “manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos” e “sem a devida averiguação”, alega que isso teria levado “muitas pessoas ao engano induzido” e que teria trazido “grave crise ao Brasil”.

A retórica de Temer e de sua defesa foi interpretada de forma diversa por pelo menos duas emissoras de TV. O Jornal da Band de sábado (20/05/2017) dedicou ao assunto quase a edição inteira, selecionando fontes e angulagens que procuravam apagar o incêndio. Uma das estratégias foi anunciar que a “defesa de Temer questiona áudio da JBS”. Reitera a informação de que um perito contratado pelo jornal Folha de S. Paulo apontou cerca de 50 pontos em que há indícios de cortes ou adulterações. Sobre o trecho criminoso em que Joesley menciona pagamento ao ex-deputado Eduardo Cunha, a reportagem até admite que não sofrera alteração, mas se apressa em dizer que “a gravação mostra que o presidente não deu anuência aos pagamentos do empresário ao ex-deputado preso”.

Já o Jornal Nacional empenhou-se em, se não atear fogo, pelo menos não deixá-lo minguar, trazendo na edição também de sábado (20/05/2017) versões de vários especialistas, como o do Estado de S. Paulo que detectou 14 cortes, muito aquém dos 50 encontrados pela Folha. Recorrendo a dois outros peritos, a reportagem diz que ambos “chegaram a conclusão que toda a gravação está intacta”.

Muitas são as especulações sobre esta discrepância entre a “água na fervura” do Jornal da Band e a “lenha na fogueira” do Jornal Nacional. A Globo, por exemplo, até então alinhada às ações e posturas políticas de Temer, tem nos últimos dias procurado destituí-lo em sucessivas edições. Alguns críticos sugerem que a Organização já teria um sucessor para Temer. Outros apostam na dependência das verbas publicitárias que a JBS investe no Grupo, o que teria sido decisivo para esta atitude anti-Temer a favor dos empresários.

De qualquer forma, os telejornais, ao se debruçarem exaustivamente sobre a legitimidade ou não da gravação da JBS, esquecem-se de questionar o essencial no discurso de Temer.

Joesley: um homem lamuriento

Se Temer considerava Joesley Batista um interlocutor mentiroso, alguém que, segundo seu pronunciamento, “prejudicou o Brasil, enganou os brasileiros”, é de se perguntar por que razão então aceitou recebê-lo no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência, à noite, às escondidas, sem nenhum registro na agenda. Segundo Temer, “o autor do grampo relata suas dificuldades. Simplesmente as ouvi”.

Poderíamos pensar que Temer atua como um psicanalista que encoraja o paciente a falar de suas crises, mostra-se afável, não o interrompe e sugere uma segunda sessão. Mas até estes profissionais tem uma escala de agendamento em horários factíveis, atendendo no mais das vezes em consultórios impessoais.

Poderíamos pensar que Temer age como um sacerdote que costuma ouvir confissões dos incautos pecadores de seu rebanho em noites de vigília. Mas até os padres recolhem-se cedo e não praticam a confissão em horários tão descabidos. Além do mais, costumam recomendar ao culpado uma penitência, algo que não ouvimos na fala sacerdotal de Temer. Muito pelo contrário. No lugar da contrição, estímulo a continuar, com frases do tipo “tem que manter isso, viu?”.

Tais atitudes benevolentes são justificadas por Temer no pronunciamento do último sábado quando julga que “não há crise, meus amigos, em ouvir reclamações e me livrar do interlocutor, indicando outra pessoa para ouvir suas lamúrias”.

Costuma-se dizer que lamúria é uma fala duradoura e persistente para a obtenção daquilo que se pede. Do latim lemuria, refere-se às festas que os romanos faziam em honra dos Lêmures, espíritos desencarnados, geralmente conhecidos como “espíritos da noite” que vagavam nos cemitérios e que não obtinham o descanso póstumo. Tais rituais serviam apenas para prolongar a permanência daquelas almas no mundo dos vivos.

Temer, ao ouvir as “lamúrias” de Joesley (este “espírito da noite”), tenta em vão manter-se vivo. Mas até quando?

Entre a “água na fervura” e a “lenha na fogueira”, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) decidiu na noite de sábado, por 25 votos a 1, apresentar à Câmara pedido de impeachment de Temer. Os motivos: crime de responsabilidade, corrupção passiva e obstrução à Justiça. Como se vê, sai o discurso vazio do lamuriante para entrar em cena atos que confirmam a retórica criminosa entre um dos mais ricos empresários do Brasil e um presidente da República com ganas de se perpetuar. Mas que já começa a cair, tal qual o fantasma da Roma Antiga que perambula pelo cemitério enquanto se lamenta.

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