Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS 

O campo acadêmico da comunicação na Argentina tem vivido um momento único. Uma geração de pesquisadores está não apenas refletindo sobre as condições de organização e funcionamento da mídia, da indústria e do jornalismo, como também tem permitido um oportuno diálogo com interlocutores internacionais. Nomes como os de Sylvio Waisbord, Pablo Boczkowoski, Eugenia Mitchelstein, Martín Becerra e Lila Luchessi são cada vez mais citados em trabalhos referenciais sobre a América Latina. Contemporânea, Adriana Amado preocupa-se com as possíveis pontes entre os saberes produzidos nas universidades, os avanços e tensões do mercado profissional e as demandas da sociedade. Na entrevista a seguir, a professora das universidades de Buenos Aires (UBA) e La Matanza (UNLAM) e presidente do Centro para La Información Ciudadana trata de política, ética e os desafios para o exercício jornalístico nos países latinoamericanos. 

A Argentina tem um cenário político bastante polarizado, e isso não é de hoje. Em que medida a imprensa argentina contribui para isso? O que pensa sobre isso?

Na Argentina, a imprensa está muito relacionada ao desenrolar dos movimentos políticos e a consequência disso é que se converte em sua caixa de ressonância. Justamente por isso, ao falar do poder e não dos problemas dos cidadãos, a imprensa se distancia cada vez mais da cidadania, cada vez menos dependente da imprensa, e essa perde leitores. No outro extremo, a política se baseia muito na imprensa, e nela se realimenta. Há um exagero da polarização, e isso resulta na política tomando decisões a partir de um cenário que ela mesma criou na imprensa, e que não necessariamente tem a ver com o que há de mais importante na sociedade. 

Como a senhora avalia a prática do jornalismo em seu país? Quais são as principais dificuldades para que ele se exerça com honestidade e eficiência?

No jornalismo argentino, valorizamos muito o modelo de intervenção, isto é, o jornalismo que toma posição, relacionado com a tradição do jornalismo político. Portanto, a cobertura está muito mais orientada pela opinião do que pela reportagem dos fatos, e o parâmetro de honestidade se baseia mais na declaração de posição política do que na transparência diante do leitor dos processos pelos quais a informação foi produzida. Os resultados são notícias com poucas fontes, com mais declarações que constatações, e com o predomínio de fontes do poder em detrimento de fontes de especialistas ou cidadãos. Com isso, temos uma imprensa altamente politizada, mais ocupada com os bastidores da política do que com temas sociais, vinculados às preocupações cidadãs. 

Quais são os principais problemas éticos para a prática do jornalismo argentino?

Na pesquisa Worlds of Journalism, os jornalistas argentinos disseram, com ampla maioria, que a ética era muito importante no seu trabalho. Entretanto, não há códigos de ética em vigor na mídia nem existem instituições éticas ativas. Assim, o principal problema da ética no jornalismo argentino é que ela não existe, e não parece haver urgência para determinar marcos profissionais que orientem essas práticas. 

O que a categoria profissional e as empresas do setor estão fazendo para melhorar o jornalismo por aí?

A oferta da capacitação está muito concentrada nos meios digitais, e abundam os cursos e congressos nesse segmento. Cursos de especialização e mestrados também estão se consolidando, e isso reflete a alta formação que têm os jornalistas argentinos: mais de 80% têm curso superior, de acordo com a pesquisa Worlds of Journalism. [veja aqui o relatório sobre a Argentina, assinado pela pesquisadora] 

Esta pesquisa, aliás, oferece um bom comparativo das realidades jornalísticas em diversos países. Como o jornalismo latino-americano aparece no cenário global?

A constatação mais surpreendente foi a proximidade dos perfis e problemas com países que nunca havíamos pensado em estar tão parecidos profissionalmente, como na África e no leste europeu. Com os colegas pesquisadores desses países estão vendo que muitas das questões do jornalismo dos nossos contextos latinoamericanos se explicam porque somos países que saíram no final do século passado de regimes autoritários, e isso se reflete em certas práticas do jornalismo e na sua baixa confiança nas instituições democráticas. 

A senhora dirige a Infociudadana, uma iniciativa para melhorar a qualidade da comunicação pública na Argentina. Pode explicar melhor este projeto e os resultados que vem colhendo?

Somos un grupo de professores que acredita ser necessário sair da sala de aula para compartilhar um pouco de conhecimento com a sociedade e, com isso, também colher novos problemas. Publicamos pesquisas que fazemos nas universidades mas com uma linguagem de divulgação, e oferecemos cursos em todo o país com jornalistas e comunicadores com quem aprendemos muito. Creio que é necessário ter esses espaços onde a academia interaja com a sociedade para evitar que a pesquisa fique presa em sua bolha.

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