Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

A história recente do cenário político nacional é transpassada por uma série sem precedentes de grampos. Informações obtidas em conversas e telefonemas privados estão interferindo de maneira determinante no contexto democrático e desencadeando reflexos políticos e sociais significativos. Os grampos profanos estão maculando a tradicional e sagrada retórica política que percorre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nessa esteira, os jornalistas estão enfrentando dificuldades ao abordar e propagar informações imersas em relações obscuras e condutas ilícitas. Para além das delações de criminosos que concentram boa parte da atenção da cobertura jornalística atual, as gravações bombásticas impõem desafios éticos conexos ao tratamento das informações por meio de inúmeros questionamentos: o que há de jornalístico no conteúdo? O que é de interesse público? As ações jornalísticas devem avalizar conteúdos obtidos nestas situações? O que deve ser publicado? De forma geral, meios jornalísticos tradicionais e alternativos estão explorando esse tipo de fonte de informação de maneira indiscriminada.

Diante das incertezas, a reflexão sobre as possíveis consequências da divulgação acaba invariavelmente em segundo plano. Assim que se dá acesso ao material e devido, particularmente, às possibilidades facilitadas de disponibilização por meio de ferramentas digitais, os conteúdos são disseminados. Hipoteticamente, podemos afirmar que diante de um quadro amplo e fragmentado de canais de comunicação o conteúdo será colocado à disposição dos usuários de alguma forma, entretanto, será que esse fator justifica a publicação? Todas as perguntas elaboradas até aqui são complexas e difíceis de responder, não almejamos lançar respostas definitivas sobre elas. Cabe destacar, entretanto, alguns aspectos importantes de episódios recentes que envolvem a política nacional.

Um dos casos que mais chama atenção é o do grampo de um telefonema que ocorreu durante a operação Lava-Jato entre, a então presidente, Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao se reportar ao caso, Rogério Christofoletti chama a atenção para a autonomia dos veículos de comunicação em relação à decisão da divulgação de conteúdos de interceptações, etapas de processos judiciais, investigações policiais e de como elas são feitas. “Interceptações telefônicas são recursos bastante usados em investigações. A Constituição Federal garante liberdades individuais, inclusive os sigilos telefônico, postal, fiscal e bancário, que podem ser quebrados por ordens judiciais. É o que temos assistido. Um juiz determina que pessoas tenham seus telefones monitorados e suas conversas gravadas. Mas o caso do diálogo entre Dilma Rousseff e Lula é polêmico não apenas pelo teor, mas pela forma como foi obtido e divulgado”.  Na ocasião, o juiz Sérgio Moro retirou o sigilo de interceptações telefônicas do ex-presidente Lula no mesmo dia em que elas ocorreram (16/03/2016).

A edição do áudio foi amplamente disseminada ao público e a repercussão dessas informações desencadeou uma série de outras consequências que compuseram o quadro que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Na época, por meio de uma nota, a Secretaria de Imprensa da Presidência declarou: “Assim, em que pese o teor republicano da conversa, repudia com veemência sua divulgação que afronta direitos e garantias da Presidência da República. Todas as medidas judiciais e administrativas cabíveis serão adotadas para a reparação da flagrante violação da lei e da Constituição da República cometida pelo juiz autor do vazamento”. Na oportunidade, Moro fez justificativas questionáveis quanto à intenção e o interesse público das informações.

Artimanhas e grampos em série

Em 2015, o ex-senador Delcídio do Amaral, na época líder do governo no Senado Federal, foi grampeado durante uma conversa com Bernardo, filho do ex-diretor da Petrobras e delator da Lava-Jato, Nestor Cerveró. Na oportunidade, Delcídio fez declarações que posteriormente formataram a denúncia de obstrução de justiça que levou a sua cassação e depois a sua prisão. Fatores que chamam a atenção e se tornaram recorrentes desde então são as constantes citações que envolvem o Supremo Tribunal Federal (STF), como na transcrição abaixo:

Delcídio: Agora, agora, Edson (advogado de Nestor Cerveró) e Bernardo, é eu acho que nós temos que centrar fogo no STF agora, eu conversei com o Teori, conversei com o Toffoli, pedi pro Toffoli conversar com o Gilmar, o Michel conversou com o Gilmar também, porque o Michel tá muito preocupado com o Zelada, e eu vou conversar com o Gilmar também.

Edson: Tá.

Delcídio: Por que, o Gilmar ele oscila muito, uma hora ele tá bem, outra hora ele tá ruim e eu sou um dos poucos caras.

Edson: Quem seria a melhor pessoa pra falar com ele, Renan, ou Sarney…

Delcídio: Quem?

Edson: Falar com o Gilmar

Delcídio: Com o Gilmar, não eu acho que o Renan conversaria bem com ele.

Edson: Eu também acho, o Renan, é preocupante a situação do Renan.

Depois da prisão, Maurício Silva Leite, então advogado de Delcídio, divulgou uma nota onde questionava a legitimidade das declarações advindas de um delator: “A defesa do Senador Delcídio do Amaral manifesta inconformismo em relação à decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal e a convicção de que o entendimento inicial será revisto. Questiona-se o fato de que as imputações tenham partido de um delator já condenado, que há muito tempo vem tentando obter favores legais com o oferecimento de informações”. Ironicamente, em um curto espaço de tempo, o ex-senador ocupava exatamente o papel de delator ao fechar um acordo de delação premiada.

Na sequência dos episódios, cabe destacar a gravação de áudio da conversa entre o então ministro da Educação Aloizio Mercadante e o assessor do ex-senador Delcídio do Amaral, José Eduardo Marzagão. No áudio, o ministro também se reporta ao STF:

Mercadante: Vai abrir a porteira. Então, vocês precisam repensar o encaminhamento. Talvez o Senado fazer uma moção, a mesa do Senado, ao Teori, entendeu? Um pedido: olha, nós demos autorização considerando o flagrante, considerando as condições etc, mas não há necessidade pá, pá, pá – pá, pá, pá. E tentar construir com o Supremo uma saída. Não pode aceitar isso. Eu acho que se a gente não for pelo jurídico, pelo político, pelo bom senso e deixar tudo pra ele que tá acuado, fodido, a família desestruturada, vai sair só bateção de cabeça. Porque eu posso tentar ajudar nisso aí no Senado. Vou tentar conversar com o Renan e ponderar a ele de construir uma, entendeu, uma moção.

Mercadante: O cara, pô, fodido, acuado, arrebentado, sangrando… eu vou fazer o seguinte: eu vou conversar com alguns advogados que eu confio. Acho que vou chamar o Bruno Dantas pra conversar, que foi advogado-geral da União muito tempo… do Senado, ou algum consultor do Senado que pense juridicamente se o Senado tem alguma providência pra interferir. Inclusive alegar o seguinte: nós queremos que ele se defenda, de um processo aqui pi, pi, pi…

JEM: Sim. Normal.

Mercadante: E crie qualquer porra de um argumento contanto que ele não fique lá preso, acuado desse jeito.

JEM: Que fique em casa com tornozeleira, que fique num quartel do Exército, o caralho que seja, mas lá é…

(…)

Mercadante: Eu vou tentar um parecer jurídico que tente encontrar uma brecha pra que o Senado se pronuncie junto ao Supremo com o pedido de relaxamento da prisão, porque ela não se justifica mais. Acho que esse é o caminho que eu vejo. Vou estudar e te dou o retorno de hoje pra amanhã.

JEM: Isso, porque o problema é que o dia D é terça-feira.

Mercadante: Tá.

JEM: Porque se passar terça-feira e não sair, só no ano que vem.

Mercadante: Não, não, mas o presidente vai ficar no exercício… também precisa conversar com o Lewandowski. Eu posso falar com ele pra ver se a gente encontra uma saída. Mas eu vou falar com o ministro no Supremo também.

JEM: Complicado.

Naquele momento (15/03/2016), em coletiva de imprensa Mercadante enfatizou que sua conversa com Marzagão, teve caráter estritamente pessoal e não foi feita com o conhecimento da presidente Dilma Rousseff.

Quem fiscaliza os “sacerdotes supremos”? 

Os fatos que envolvem os grampos e os seus entornos são, no mínimo, enigmáticos. O nome de ministros da Suprema Corte e da própria instituição é pronunciado em inúmeras ocasiões por diferentes atores, muitos deles criminosos, em momentos diversos. Será que os ministros e o STF estão sendo invocados em vão? Desconheço investigações mais aprofundadas a esse respeito, mas acredito que em algumas situações existem elementos concretos para que elas aconteçam. A trilogia de grampos de Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e delator da Lava-Jato, em conversa com o senador Romero Jucá, o senador Renan Calheiros e com o ex-presidente José Sarney, assim como o duo de Joesley Batista em conversas com o presidente Michel Temer e com o senador afastado Aécio Neves são um exemplo concreto disso. Vejamos, por exemplo, um trecho da conversa entre Machado e Jucá em 2016:

Machado: Outra coisa. A frouxidão de vocês em prender o Delcídio foi um negócio inacreditável.

Jucá: Sim, pô, não adianta soltar o Delcidio, aí o PT dá uma manobra, tira o cara, diz que o cara é culpado, como é que você segura uma porra dentro do plenário?

Machado: Mas o cara não foi preso em flagrante, tem que respeitar a lei. Respeito à lei, a lei diz clara…

Jucá: Pô, pois então. Ali não teve jeito não. A hora que o PT veio, entendeu, puxou o tapete dele, o Rui, a imprensa toda, os caras não seguraram, não.

Machado – Eu sei disso, foi uma cagada.

Jucá: Foi uma cagada geral.

Machado: Foi uma cagada geral. Foi uma cagada o Supremo fazer o que fez com o negócio de prender em segunda instância, isso é absurdo total que não que não dá interpretar, e ninguém fez nada. Ninguém fez ADIN, ninguém se questionou. Isso aí é para precipitar as delações. Romero, esquentou as delações, não escapa pedra sobre pedra. Eu estou com todos os certificados do TCU, agora me deram, não devo nada, zero. E isso adianta alguma coisa? Então estou preocupado.

Jucá: Não, tem que cuidar mesmo.

(…)

Machado – E ele (Rodrigo Janot) não tem nada. Se ele tivesse alguma coisa, ele ia me manter aqui em cima, para poder me forçar aqui em cima, porque ele não vai dar esse troféu pro Moro. Como ele não tem nada, ele quer ver se o Moro arranca…

Jucá: para subir de novo.

Machado: para poder subir de novo. É esse o esquema. Agora, como fazer? Porque arranjar uma imunidade não tem como, não tem como. A gente tem que ter a saída porque é um perigo. E essa porra… A solução institucional demora ainda algum tempo, não acha?

Jucá: Tem que demorar três ou quatro meses no máximo. O país não aguenta mais do que isso, não.

Machado: Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel.

Jucá: (concordando) Só o Renan que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

Machado: É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

Jucá: Com o Supremo, com tudo.

Machado: Com tudo, aí parava tudo.

Jucá: É. Delimitava onde está, pronto.

Após o grampo, Jucá se manifestou criticando a gravação da conversa, afirmando-se vítima do delator Sérgio Machado e destacando: “Desde que fui vítima da gravação do senhor Sérgio Machado, pedi afastamento do Ministério do Planejamento no mesmo dia e solicitei cópia da mesma à PGR para que pudesse me defender”. Cabe enaltecer que esse grampo foi profético, pois pouco tempo depois Michel Temer assumiu a presidência após a instrumentalização do impeachment de Dilma Rousseff pelo Congresso Nacional e pelo STF. Em linha com esses elementos, vale observar também esse trecho do grampo da conversa de Machado com Renan Calheiros:

Machado: É o seguinte, o PSDB, eu tenho a informação, se convenceu de que eles é o próximo da vez.

Renan: (concordando) Não, o Aécio disse isso lá. Que eu sou a esperança única que eles têm de alguém para fazer o…

Machado: (Interrompendo) O Cunha, o Cunha. O Supremo. Fazer um pacto de Caxias, vamos passar uma borracha no Brasil e vamos daqui para a frente. Ninguém mexeu com isso. E esses caras do…

Renan: Antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo (inaudível) fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação e estabelece isso.

Machado: Acaba com esse negócio da segunda instância, que está apavorando todo mundo.

Renan: A lei diz que não pode prender depois da segunda instância, e ele aí dá uma decisão, interpreta isso e acaba isso.

Machado: Acaba isso.

Renan: E, em segundo lugar, negocia a transição com eles (ministros do STF).

Machado: Com eles, eles têm que estar juntos. E eles não negociam com ela.

Renan: Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: ‘Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável’.

Machado: Eu nunca vi um Supremo tão merda, e o novo Supremo, com essa mulher, vai ser pior ainda.

Na época, por meio de nota, o senador Renan Calheiros assegurou que as conversas com Sérgio Machado não tinham relação com a Lava Jato e afirmou que é hábito receber pessoas que o procuram: “Os diálogos não revelam, não indicam, nem sugerem qualquer menção ou tentativa de interferir na Lava Jato ou soluções anômalas. E não seria o caso porque nada vai interferir nas investigações”. A trilogia de grampos produzidos por Machado conta ainda com duas conversas entre ele e o ex-presidente José Sarney.

Machado: Eu soube que o senhor teve uma conversa com o Michel.

Sarney: Eu tive. Ele está consciente disso. Pelo menos não é ele que…

Machado: Temos que fazer um governo, presidente, de união nacional.

Sarney: Sim, tudo isso está na cabeça dele, tudo isso ele já sabe, tudo isso ele já sabe. Agora, nós temos é que fazer o nosso negócio e ver como é que está o teu advogado, até onde eles falando com ele em delação premiada. 

Segunda conversa

Machado: O Senado deixar o Delcídio preso por um artista.

Sarney: Uma cilada.

Machado: Cilada.

Sarney: Que botaram eles. Uma coisa que o Senado se desmoralizou. E agora o Teori acabou de desmoralizar o Senado porque mostrou que tem mais coragem que o Senado, manda soltar.

Machado: Presidente, ficou muito mal. A classe política está acabada. É um salve-se quem puder. Nessa coisa de navio que todo mundo quer fugir, morre todo mundo.

Através de uma nota, Sarney declarou que iria processar o ex-presidente da Transpetro e o chamou de “monstro moral” e “pessoa abjeta”. “A total falta de caráter de quem, como meu amigo por mais de vinte anos, frequentando com assiduidade minha casa, almoçando e jantando comigo, e visitando-me sempre, teve a vilania de gravar nossas conversas, até mesmo em hospital, revela o monstro moral que ele é. Vou processa-lo por denunciação caluniosa, de que sou vítima, pois não existe qualquer envolvimento meu nos fatos investigados pela operação Lava-Jato ou em qualquer outro ilícito. Não descarto a construção de uma armadilha. A conduta do Senhor Sérgio Machado mostra sua total falta de credibilidade. Repudio pessoa tão abjeta, que, insisto, vou processar”. Novamente a falta de credibilidade de quem fez as gravações é posta em questão, mesmo que esse indivíduo seja um “amigo” de longa data. 

Relações “institucionais” nefastas

A primeira ação de todos os políticos envolvidos nos grampos é desqualificar o denunciante sem dar maiores esclarecimentos sobre as suas próprias declarações. Essa é a estratégia que está sendo utilizada pelas “vítimas” das gravações mais recentes: Michel Temer e Aécio Neves. Os grampos realizados por Joesley Batista, dirigente do grupo JBS, estremeceram o cenário político nacional e mais uma vez ratificaram o lado indigesto das relações “institucionais” entre políticos, empresários e integrantes do judiciário. As revelações provocam repugnância e uma indagação: o que está aparente e que está obscuro nos bastidores dessas negociações “institucionais” delituosas? Temer, por exemplo, está querendo desdizer o que disse como pode ser averiguado nos diálogos.

Joesley: Mas eu vinha falando com o Geddel, andei falando algumas vezes com o Padilha também, mas agora que o Padilha adoeceu, ficou adoentado, enfim, aí eu fiquei meio… falei “deixa eu ir lá pra dar uma… “. Queria primeiro dizer o seguinte: “tamo” junto aí, o que o senhor precisar de mim, viu, me fala.

Temer: Está bom, mas tem que esperar passar essa…

Joesley: E vim te ouvir um pouco, como é que o senhor está nessa situação toda aí do Eduardo?

Temer: O Eduardo tentou me fustigar.

Joesley: Eu não sei, como é que está a situação?

Temer: A defesa, o Moro indeferiu 21 perguntas dele que não tem nada a ver com a defesa dele. Era pra amedrontar: “Eu não fiz nada, eu não sei o quê”, e no Supremo Tribunal Federal, olha só, que fatalidade. E ele está aí, rapaz, mas.

Joesley: É, eu queria falar assim, muito aqui na… dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo o que tinha de alguma pendência daqui pra ali zerou, tal, doutor. Já liquidou tudo e ele foi firme em cima, ele já estava lá e veio, cobrou, tal, tal e tal. Pronto, acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né, que o Geddel sempre tava…

Temer: Lúcio.

Joesley: Isso, que o Geddel é que andava sempre ali, mas o Geddel também com esse negócio eu perdi o contato, porque ele virou investigado e eu também não posso encontrar ele.

Temer: É complicado.

Joesley: Isso. O negócio dos vazamentos. O telefone lá do Eduardo com o com Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós e não sei o quê, e eu tô lá me defendendo. Como é que eu… o que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com o Eduardo.

Temer: Tem que manter isso, viu? […]

Joesley: Todo mês, também, e tô segurando as pontas, tô indo. Nesses processos eu tô meio enrolado aqui, né, no processo assim…

Temer: Você está sendo investigado.

Josley: Isso, é, investigado, eu não tenho ainda denúncia. Aqui eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada, do outro lado o juiz substituto, que é um cara que fica.

Temer: Está segurando os dois?

Joesley:

Temer: Ótimo, ótimo. 

Em seu primeiro pronunciamento após a divulgação das gravações, Temer ignorou solenemente todas as evidências que o comprometiam e tentou explicar o inexplicável de forma eloquente. “Não renunciarei. Repito, não renunciarei! Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida, para os esclarecimentos ao povo brasileiro”. No seu segundo pronunciamento Temer decidiu deslegitimar o delator e questionar os aspectos técnicos da gravação. “Essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos. Incluída no inquérito sem a devida e adequada averiguação, levou muitas pessoas a um engano induzido”. A falta de argumentos de defesa levou o senador afastado Aécio Neves a adotar um discurso semelhante. Aécio fez declarações altamente comprometedoras durante a conversa grampeada por Joesley Batista. 

Aécio: Esses vazamentos, essa porra toda, é uma ilegalidade.

Joesley: Não vai parar com essa merda?

Aécio: Cara, nós tamos vendo (…) Primeiro temos dois caras frágeis pra caralho nessa história é o Eunício [Oliveira, presidente do Senado] e o Rodrigo [Maia, presidente da Câmara], o Rodrigo especialmente também, tinha que dar uma apertada nele que nós tamos vendo o texto (…) na terça-feira.

Joesley: Texto do quê?

Aécio: Não… São duas coisas, primeiro cortar o pra trás (…) de quem doa e de quem recebeu.

Joesley: E de quem recebeu.

Aécio: Tudo. Acabar com tudo esses crimes de falsidade ideológica, papapá, que é que na, na, na mão [dupla], texto pronto nãnã. O Eunício afirmando que tá com colhão pra votar, nós tamo (sic). Porque o negócio agora não dá para ser mais na surdina, tem que ser o seguinte: todo mundo assinar, o PSDB vai assinar, o PT vai assinar, o PMDB vai assinar, tá montada. A ideia é votar na… Porque o Rodrigo devolveu aquela tal das Dez Medidas, a gente vai votar naquelas dez… Naquela merda das Dez Medidas toda essa porra. O que eu tô sentindo? Trabalhando nisso igual um louco.

Joesley: Lógico.

Aécio: O Rodrigo enquanto não chega nele essa merda direto, né?

Joesley: Todo mundo fica com essa. Não…

Aécio: E, meio de lado, não, meio de leve, meio de raspão, né, não vou morrer. O cara, cê tinha que mandar um, um, cê tem ajudado esses caras pra caralho, tinha que mandar um recado pro Rodrigo, alguém seu, tem que votar essa merda de qualquer maneira, assustar um pouco, eu tô assustando ele, entendeu? Se falar coisa sua aí… forte. Não que isso? Resolvido isso tem que entrar no abuso de autoridade… O que esse Congresso tem que fazer. Agora tá uma zona por quê? O Eunício não é o Renan.

Joesley: Já andaram batendo no Eunício aí, né? Já andaram batendo nas coisas do Eunício, negócio da empresa dele, não sei o quê.

Aécio: Ontem até… Eu voltei com o Michel ontem, só eu e o Michel, pra saber também se o cara vai bancar, entendeu? Diz que banca, porque tem que sancionar essa merda, imagina bota cara. 

Aécio se “justificou” por meio de nota. “O senador Aécio lamenta profundamente versões que têm sido divulgadas sobre o caso e, com serenidade e firmeza, vai demonstrar a correção de suas ações e de seus familiares, e a farsa de que foi vítima, montada pelo delator de forma premeditada e criminosa, induzindo as conversas para alcançar seus objetivos de obter os benefícios da delação”. O “abuso de autoridade” citado por Aécio na conversa com o dirigente da JBS surpreendentemente foi tema de um telefonema gravado pela Polícia Federal, entre ele e o ministro do STF, Gilmar Mendes.

Aécio: Oi, Gilmar. Alô.

Gilmar: Oi, tudo bem?

Aécio: Você sabe um telefone que você poderia dar que me ajudaria na condução lá. Não sei como é sua relação com ele, mas ponderando… Enfim, ao final dizendo que me acompanhe lá, que era importante… Era o Flexa, viu? (Senador Flexa Ribeiro).

Gilmar: O Flexa, tá bom, eu falo com ele.

Aécio: Porque ele é o outro titular da comissão, somos três, sabe?… Né…

Gilmar: Tá bom, tá bom. Eu vou falar com ele. Eu falei… Eu falei com o Anastasia e falei com o Tasso… Tasso não é da comissão, mas o Anastasia… O Anastasia disse “Ah, tô tentando.

Aécio: Dá uma palavrinha com o Flexa… A importância disso e no final dá sinal para ele porque ele não é muito assim… De entender a profundidade da coisa… Fala ó… Acompanha a posição do Aécio porque eu acho que é mais serena. Porque o que a gente pode fazer no limite? Apresenta um destaque para dar uma satisfação para a bancada e vota o texto… Que vota antes, entendeu?

Gilmar: Unhum.

Aécio: Destaque é destaque é destaque… Depois não vai ter voto, entendeu?

Gilmar: Unhum. Unhum.

Aécio: Pelo menos vota o texto e dá uma…

Gilmar: Unhum.

Aécio: Uma satisfação para a ban… Para não parecer que a bancada foi toda ela contrariada, entendeu?

Gilmar: Unhum.

Aécio: Se pudesse ligar para o Flexa aí e fala…

Gilmar: Eu falo pra com ele… E falo com ele… Eu ligo pra ele… Eu ligo pra ele agora.

Aécio: …[incompreensível]… importante

Gilmar: Ligo pra ele agora.

Aécio: Um abraço.

Esse telefonema foi realizado antes da votação da lei do abuso de autoridade, que foi aprovada no Senado por 54 votos a 19. Claramente, um ministro da Corte Suprema brasileira fez lobby para aprovação de uma regulação altamente polêmica e questionável. Sem dúvida existem elementos para uma investigação. É no mínimo estranho que um ministro do STF acredite ser natural a sua atuação como lobista no interior do sistema legislativo. Por meio de nota Gilmar afirmou que, desde 2009, sempre defendeu o projeto de lei de abuso de autoridade. “Os encontros e conversas mantidas pelo ministro Gilmar Mendes são públicos e institucionais”. Esse não foi o caso, pois Gilmar Mendes se envolveu pessoalmente na questão. Isso não é institucional e sim pessoal, é desrespeitoso e causa estranhamento. No dia 26/04/2017, Gilmar Mendes suspendeu o depoimento de Aécio Neves à Polícia Federal. É impossível não relacionar as condutas do Ministro do STF, pois o depoimento está sendo requisitado desde maio de 2016. Mais estranho ainda é a pífia cobertura que se deu sobre esse escândalo, a abordagem jornalística por parte dos mainstream foi apática.

Diante de todos esses fatos deprimentes, constata-se que o discurso político está altamente contaminado por um verdadeiro império da hipocrisia. Os envolvidos são ardilosos na construção das justificativas e buscam mascarar condutas ilícitas e ações desprezíveis. Entre o sagrado discurso político e os profanos grampos revela-se uma realidade que nos impõe um caminho difícil de percorrer. A democracia está derretendo e, de modo geral, o jornalismo não está pavimentando caminhos alternativos para modificação desta realidade perversa.

Advertisements