Carlos Henrique Costa
Graduando em Jornalismo na UFSC e bolsista do objETHOS 2015-2017
Direto de Mendoza, Argentina

Quase duas semanas após a delação da JBS que encurralou o governo Michel Temer, a imprensa internacional continua acompanhando os desdobramentos da crise política brasileira. Na Argentina, a cobertura é pouco aprofundada no momento atual. Os principais jornais do país, que destacaram a gravação de Joesley Batista envolvendo o presidente logo que a notícia veio à tona, agora se limitam a replicar a sequência do caso sem maiores contextualizações sobre os fatos.

Na noite da quarta-feira (17/05) em que o escândalo veio a público, o diário centrista Clarín já dava o episódio na manchete de seu site. A notícia explicava quem são os personagens políticos e empresariais envolvidos no áudio que comprometeu Temer (PMDB/SP). O concorrente conservador La Nación também destacou o ocorrido. Com uma matéria mais completa, trouxe boas explicações sobre a conjuntura política e o arranjo do sistema judiciário no Brasil, além do envolvimento do senador afastado Aécio Neves (PSDB/MG), importante aliado político do governo.

Nos dias seguintes, os dois periódicos se dedicaram a explicar com mais detalhes o desenrolar do episódio à medida que as informações chegavam do Brasil. A quinta-feira marcou mais protestos contra Temer, o pronunciamento de negação de renúncia do presidente, e a liberação do áudio por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). A gravação foi amplamente explorada pelos jornais, que destacaram nas suas páginas e sites o conteúdo da conversa entre o chefe do executivo federal e o empresário Joesley Batista.

No calor dos fatos, tanto o Clarín quanto o La Nación procuraram abordar os diferentes aspectos do escândalo. Entre quinta e sexta-feira (18 e 19/05), ambos publicaram conteúdo mais detalhado sobre o caso e veicularam as declarações de defesa do mandatário. Também visibilizaram os pedidos de “Fora, Temer”, mencionaram a reação dos partidos no Brasil – inclusive os pedidos de impeachment – e explicaram o inquérito aberto contra o presidente pelo ministro Edson Fachin no STF.

Entretanto, o La Nación saiu na frente no quesito informação: trouxe desde o princípio um panorama mais completo dos sistemas político e judiciário brasileiros, destacou a participação de Aécio Neves logo no primeiro momento e destrinchou o impacto da crise na economia. O Clarín publicava as notícias com mais rapidez, mas suas matérias careciam das informações trazidas pelo concorrente. Em dois pontos, ambos falharam: faltou abordar os cenários diante do risco de queda enfrentado por Temer e pouco se questionaram os moldes do acordo de delação feito entre os irmãos Batista e a justiça brasileira.

Final de semana

Foi somente no sábado (20/05), quando o presidente questionou a legitimidade da gravação de Joesley, que os dois maiores diários argentinos adotaram uma abordagem mais crítica em relação aos empresários da JBS, ainda que na esteira da retórica do mandatário – nesse sentido, ponto para o Clarín, que dedicou uma matéria à suspeita compra de dólares feita pelos Batista. Também foi após o pronunciamento de Temer que os jornais citaram a possibilidade de edição do arquivo apresentado pelos delatores.

A partir daquele fim de semana, a mídia da Argentina se dedicou mais a avaliar o que se passava no Brasil. Apesar disso, os comentários em colunas de jornais e canais de TV não saiam da superficialidade. Ficavam nos rasos questionamentos acerca da impopularidade de Temer e defendiam as investigações. Outra preocupação, a maior delas, aliás, foi o impacto da crise brasileira na economia argentina. Em todos esses aspectos, o La Nación foi mais produtivo, divulgando em seu site maior quantidade de análises, principalmente com enfoque econômico, como é tradição no jornal. Também foi melhor, mais uma vez, ao noticiar dias antes o afastamento de Aécio Neves.

Na semana seguinte, a dedicação dos diários à cobertura dos desdobramentos do escândalo diminuiu, bem como o número de artigos sobre o caso. Clarín e La Nación mal falaram da desistência de suspensão do inquérito contra Temer por parte de sua defesa, nem da perícia do áudio contratada pelo chefe do executivo federal. O pedido de impeachment feito pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi noticiado.

Algumas matérias vinham de agências de notícias, como a que o Clarín publicou informando a prisão de um assessor do presidente. O La Nación deu a informação mais tarde, mas com apuração e texto próprios. A questão das eleições diretas ou indiretas e o aspecto constitucional da discussão, bem como as sucessões no caso da saída de Temer, pouco foram abordados.

A notícia da convocação do exército pelo mandatário para “proteção” contra os manifestantes em Brasília na quarta-feira (25/05) novamente marcou a diferença na cobertura dos periódicos. As matérias do La Nación trouxeram mais informações sobre o chamamento às forças armadas – ainda que tenha questionado pouco a decisão do presidente – e foram menos reacionárias ao descrever o comportamento dos protestantes. No dia seguinte, quando Temer revogou o exagerado decreto que convocou as tropas, o diário também foi mais informativo. Por outro lado, o Clarín marcou um ponto ao abordar as críticas à primeira medida palaciana e trazer posicionamentos contrários e favoráveis ao despacho inicial.

E o futuro?

Entre sexta-feira e sábado passados (26 e 27/05), o Clarín se dedicou mais a especular a sucessão presidencial no caso da queda de Temer. Nomes foram citados na matéria que se dedica a, tardiamente, apontar cenários. O La Nación preferiu voltar às análises econômicas com foco na reação do mercado interno aos impactos da crise brasileira. Nenhum dos jornais abordou significativamente o julgamento da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assunto que dominou os noticiários do Brasil. Também não foram mencionados os pedidos da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF) por um depoimento do presidente sobre a conversa com Joesley Batista.

Nos últimos dias, a polêmica troca do ministro da Justiça foi veiculada por apenas um dos diários. Só o La Nación noticiou a chegada de Torquato Jardim à pasta. Ainda assim, a matéria se limitou a relatar os fatos e trazer o currículo do novo ministro, sem mencionar as críticas recentemente feitas por ele à Operação Lava Jato e à maneira com a qual o STF lida com as prisões preventivas e as delações.

A diminuição das notícias sobre a crise brasileira nos dois maiores jornais argentinos e a falta de profundidade das matérias denotam o arrefecimento pelo qual a pauta passa na imprensa do país. Após a repercussão da delação e a agitação geral ocasionada pelo escândalo, Clarín e La Nación diminuíram gradativamente a qualidade e a quantidade da cobertura do caso. Até o julgamento da chapa Dilma/Temer no TSE, que deve começar em uma semana, a volta dos episódios do alto escalão da política brasileira às principais páginas da mídia argentina deve ficar condicionada aos efeitos sentidos pela economia hermana.

Advertisements