Axel Christian Horn
Cientista político e comentarista para jornais e revistas na Alemanha e Rússia
Especial para o ObjETHOS

Praticamente toda a mídia dos países de língua alemã (Alemanha, Áustria e Suíça) noticiou o vazamento das gravações da conversa de Joesley Batista, co-proprietário da gigante frigorífica JBS, com o atual presidente Michel Temer. O acontecimento alcançou até mesmo as páginas de jornais locais como o austríaco Tiroler Tageszeitung ou o alemão Stuttgarter Nachrichten.

O caso chegou às manchetes das agências de notícias no dia 18 de maio. Os títulos foram dramáticos. “Os barões da carne anunciam o apocalipse de Temer”, segundo o renomado diário suíço Neue Zürcher Zeitung. O periódico alemão Lübecker Nachrichten optou por “Brasil afunda no caos”.

Muitos veículos de comunicação destacam, com base na cobertura das agências de notícias, a paralisação política do país (Der Spiegel) e o previsível impasse gerado pela esperada queda do presidente. Eles focam sobretudo nas consequências econômicas como a queda de valor do real e da Bolsa de São Paulo. Segundo a Deutsche Welle, tais consequências são dramáticas sobretudo porque a recessão profunda parecia ter sido superada.

Ameaça para o mercado

No jornal conservador alemão Die Welt, declarações de fontes do JP Morgan, do Bank of America, do Merril Lynch e do Citygroup confirmam a ameaça para o mercado neste cenário. Estas fontes denominam Temer como a garantia de que as coisas no Brasil continuem funcionando tão bem como nos últimos tempos. Com o escândalo, as reformas atendendo às demandas do mercado estariam em perigo.

O jornal liberal austríaco Der Standard noticia que sobretudo representantes da economia reconhecem Temer por promover reformas importantes. O diário cita a economista-chefe do ARXInvestments, que afirma que os primeiros sinais da recessão vão ser seguidos por tempos de insegurança imprevisíveis.

Políticos completamente corruptos

Já as TVs públicas alemãs ARD e ZDF colocam a dimensão política em primeiro plano e descrevem o acontecimento como um terremoto que leva à tona uma classe política completamente corrupta. Além de Temer, dois terços dos deputados federais estão sendo investigados por corrupção. O Neue Zürcher Zeitung lembra que o ex-candidato a presidente Aécio Neves também está sendo acusado de corrupção.

De maneira sarcástica, praticamente todos os veículos lembram que o atual presidente, acusado de propina, deve a sua desgraça justamente àquele a quem ele também deve o seu cargo: o ex-deputado Eduardo Cunha, que participou de maneira decisiva no afastamento da antecessora de Temer, a ex-presidente Dilma Rousseff. Após o impeachment, Cunha “tropeçou” (e caiu) sobre uma conta suíça na casa dos milhões e depois disso se sentiu abandonado por Temer.

Impeachment e conspiração

Neste contexto, o impeachment passa a ser visto como duvidoso: “Supostas manobras no balanço” (no diário austríaco conservador Die Presse) ou “Embelezamento no orçamento” (Der Spiegel) teriam sido, por fim, desculpas para parar investigações contra corrupção envolvendo políticos do PMDB (Der Standard).

Com o contra-ataque de Temer acusando Batista de negociar criminalmente informações de bastidores, a imprensa de língua alemã começa a focar nos bastidores do acontecimento. O diário Frankfurter Allgemeine Zeitung questiona a credibilidade do áudio. A conclusão é de que a gravação não é confiável, mas que este fato sozinho não é suficiente para afastar as acusações. Segundo a gravação, Temer toma conhecimento que Batista tem informantes na Justiça que o informam sobre as investigações contra a JBS. Se um presidente tolera algo como isso, trata-se de um claro impedimento do trabalho da Justiça, ressaltam os autores do comentário.

Além disso, há informações de que uma pessoa de confiança de Temer recebeu uma mala de dinheiro com 146 mil euros de um diretor da JBS. O Neue Züricher Zeitung concorda: Não é só uma gravação que coloca Temer em dificuldades. Só o fato de um presidente receber um empresário acusado de corrupção tarde da noite na sua residência, sem que isso seja registrado oficialmente, já levanta uma série de questionamentos e com isso a suspeita de uma conspiração.

O diário alemão Rheinische Post, por sua vez, se dedica a descrever a ascensão fabulosa de Joesley Batista e seu irmão Wesley, que fez em tempo recorde da JBS uma das maiores produtoras de carne do mundo, com um faturamento de 46,5 bilhões de euros por ano. A garantia do sucesso, segundo o jornal, estaria em corromper políticos. Por conta desses precedentes, muitos jornais não vêem em Batista uma testemunha confiável.

O papel da Rede Globo

O Wiener Zeitung, por sua vez, se concentra no envolvimento da Rede Globo, que propaga que Temer não está em condições morais ou políticas para conduzir o país e deveria deixar o cargo. Temer deve o seu cargo à Rede Globo. Esta teria acelerado o impeachment questionável da sua antecessora Dilma Rousseff, eleita democraticamente, com a sua cobertura manipuladora. O preço do apoio teria sido a implementação de uma agenda política de reformas econômicas. Sem o poder midiático e o apoio da empresa, Temer não teria nenhuma chance de continuar. Tudo isso faz com que a virada da Globo contra Temer pese ainda mais.

O semanário alemão Die Zeit também salienta a proximidade de Temer e de suas reformas com o empresariado. Ele cortou direitos trabalhistas e de minorias, flexibilizou medidas de proteção ao meio ambiente e enfraqueceu a Fundação Nacional do Índio, o que agradou aos grandes latifundiários. A corrupção óbvia dentro do governo, da qual já havia evidências anteriormente e pelas quais vários ministros tiveram que deixar o cargo, foi deliberadamente aceita.

O semanário também tenta analisar os aspectos estruturais responsáveis pela situação atual no país. A principal causa da corrupção estaria em vícios estruturais da democracia brasileira. Pertencem a estes a fragmentação do campo partidário. Atualmente, há representantes de 27 partidos na Câmara dos Deputados. Para governar é preciso construir uma coalizão com os vários grupos, o que só seria possível por meio de dinheiro.

O financiamento insuficiente dos partidos também é visto como um problema. Do ponto de vista dos comentaristas do Die Zeit, os caminhos legais de financiamento partidário são muito limitados, obrigando até mesmo políticos pessoalmente íntegros a buscar formas alternativas de financiamento.

Olhando para o futuro

Os meios de comunicação na Alemanha, na Áustria e na Suíça consideram tanto um impeachment de Temer como uma eleição indireta pouco prováveis. Der Spiegel duvida que o Congresso, um ano depois do polêmico impeachment de Rousseff, entre em um segundo processo de afastamento. A confirmação disto seria a declaração de Temer:  “se quiserem, me derrubem”.

Já a eleição indireta depois de uma renúncia, segundo o austríaco Der Standard, seria recebida por muitos brasileiros como uma provocação, já que mais da metade dos deputados está sendo investigada por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça.

Todos os veículos consideram em uníssono que uma nova eleição direta seria a melhor saída. Os jornalistas consideram também que o único caminho para isso seria a anulação das últimas eleições por disposições constitucionais. Por isso, segundo o austríaco Die Presse, a decisão-chave será tomada no dia 6 de junho, quando o Tribunal Eleitoral deve decidir se as eleições de 2014 serão consideradas inválidas por causa de financiamento ilegal de campanha.

Se uma solução não for encontrada para a crise que começa a se perpetuar, a previsão é de que a radicalização nas ruas e na política aumente. Isto pode levar ao pior dos cenários, a volta dos militares. Já se sabe muito bem até que ponto a interpretação do direito e da ordem pública pode ser estendida na América Latina. Esta advertência é unânime.

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