Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Para quem acompanha a crítica de mídia ou mesmo as pesquisas sobre comunicação e jornalismo, não é novidade nenhuma lembrar que imparcialidade, neutralidade e objetividade têm se firmado como mitos na prática jornalística. No geral, são valores acionados pelos veículos ao se apresentarem ao público, mas facilmente contestáveis ao estudarmos suas notícias nas mais variadas formas.

No recém-lançado projeto editorial da Folha de S. Paulo, por exemplo, um dos princípios indica que o jornal irá “manter atitude apartidária, desatrelada de governos, oposições, doutrinas, conglomerados econômicos e grupos de pressão”, o que sugere uma busca por um espaço neutro, afastado de quaisquer interesses.

Já os princípios editoriais do grupo Globo reconhecem a impossibilidade de atingirem por completo o valor que chamam de isenção, mas lembram que ela deve ser uma meta em suas notícias. “Sem isenção, a informação fica enviesada, viciada, perde qualidade. Diante, porém, da pergunta eterna – é possível ter 100% de isenção? – a resposta é um simples não. Assim como a verdade é inexaurível, é impossível que alguém possa se despir totalmente do seu subjetivismo. Isso não quer dizer, contudo, que seja impossível atingir um grau bastante elevado de isenção”.

Mas como é possível atingir essa isenção ou essa atitude apartidária em momentos de crise política e de intensa polarização? É possível manter a crítica a todos os grupos políticos no mesmo tom? Sendo esses veículos grandes empresas de comunicação, não devemos inferir que sua aproximação com os interesses do mercado e dos seus grupos de apoio são inevitáveis?

Para tentar compreender melhor essas questões, investigamos 54 capas dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo nos últimos 18 meses – que compreendem períodos imediatamente anteriores ao impeachment de Dilma Rousseff e a transição de um governo interino para o governo Michel Temer. Dessas, selecionamos 36, reunidas em 11 tópicos que indicam o posicionamento dos jornais para além do que eles dizem explicitamente.

  1. Apoios políticos e acordos

Duas chamadas de O Estado de S. Paulo, uma no auge da crise da delação contra o presidente Michel Temer e outra no auge do processo de impeachment contra Dilma Rousseff sugerem uma mudança de enquadramento quanto ao que se considera fisiologismo partidário.

No primeiro caso, dois partidos da base “dão fôlego” a um governo em crise, mas não se questiona a troco de que ou se há algum interesse para além do jogo político ou da credibilidade de Temer. Já na manchete relacionada à ex-presidente, fica claro que os partidos estariam vendendo seu apoio – enquanto Dilma Rousseff, investigada, estaria disposta a comprá-los. Não há dúvidas ou suposições. Há certezas que parecem não existir quando o assunto são as alianças políticas do atual presidente.

 

  1. Declarações presidenciais

Os estudantes de jornalismo ouvem dos professores, já em fases iniciais, que títulos só devem enfatizar citações se estas forem muito relevantes para uma determinada notícia. Não é o que aparece na manchete de O Estado de S. Paulo do último dia 21 de maio, com amplo espaço para a defesa do presidente Michel Temer, que se coloca na posição de vítima e determina quem são os vilões.

Um presidente reúne todos os critérios de relevância para ser citado nas manchetes, assim como suas declarações. Mas não era o que costumava acontecer com a ex-presidente Dilma Rousseff. Mesmo quando foi ao Senado se defender no processo de impeachment, jornais reagiram timidamente às fortes declarações e denúncias trazidas por ela. Na capa da Folha de S. Paulo, por exemplo, sua afirmação de inocência soa tímida e sem peso algum, bem como a opção de usar a palavra golpe entre aspas – o que também pode sugerir um devaneio, não uma estratégia de defesa.

  1. Negativas e silenciamentos

Ainda sobre declarações e espaços à defesa e ao contraditório, O Estado de S. Paulo cumpriu, no dia 18 de maio, as regras de deixar os suspeitos falarem. Ao mesmo tempo em que traz a acusação do delator, traz a negativa do presidente. O título de três linhas permite que a mensagem chegue completa ao leitor.

Pouco mais de um ano antes, entretanto, Folha de S. Paulo fez outra escolha na sua manchete: escolheu dar voz somente à acusação, deixando apenas a última frase da linha de apoio para o “outro lado”. Um título alternativo poderia ser “Presidente nega ter recebido propina em financiamento”, mas não era essa a informação que o jornal queria priorizar. E as suas prioridades dizem muito sobre os posicionamentos políticos dos jornais.

  1. Vazamentos e conclusões

Um Michel Temer diante do símbolo patriótico do seu governo ilustra a capa da Folha de S. Paulo do dia 19 de maio. Ele nega as acusações feitas pelo delator Joesley Batista e o jornal o endossa, afirmando que o áudio do delator era inconclusivo – para o jornal, diga-se, não para a procuradoria.

Mais de um ano antes, a mesma Folha de S.Paulo deu tratamento completamente diferenciado a um vazamento de uma conversa de Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula, a quem havia indicado como ministro. Mesmo o diálogo sendo bastante curto e parecendo igualmente inconclusivo, o uso do verbo “indica” mostra que o jornal tem certeza quanto ao seu julgamento e sentença. O contraditório também só aparece na linha de apoio. Todos os recursos editoriais – como a cartola “Governo sitiado”, a transcrição do diálogo e a foto com o semblante de pânico da então presidente dão ainda mais sentido à condenação sugerida pelo periódico.

No mesmo episódio, O Globo foi mais econômico com as palavras, mas não poupou recursos editoriais, caixa altas e negritos para indicar suas certezas acerca da má-conduta da então presidente.

  1. Recessão e crise

Em fevereiro de 2016, Folha de S.Paulo trazia uma dura ameaça na sua principal manchete: estávamos caminhando para a pior recessão da nossa história. Sem mais dados ou explicações, a linha de apoio trazia uma mensagem ainda mais enigmática. Sem citações e com um adjetivo bastante forte para uma manchete (“pior”), a mensagem assusta – mas o texto informa que os analistas não estão aptos a fazerem projeções, o que contradiz o próprio título.

Milagrosamente a situação parece ter melhorado já em agosto, pois O Estado de S.  Paulo indica um certo otimismo ao culpar os alimentos por não possibilitarem a redução nos índices de inflação. Um mês antes, o mesmo jornal anunciou o bom humor dos investidores com o país. O efeito Temer também era propagado pelo O Globo já em abril, quando asseguraram que a indicação de Henrique Meirelles como Ministro da Fazenda “animaria” o mercado. Nunca mais ninguém falou em recessão.

  1. Investigações e respostas

Dois presidentes investigados não podem mesmo ficar longe das manchetes. Por isso, a Folha de S. Paulo  de 21 de maio de 2017 traz um close de Michel Temer, o qualifica como acuado, mas imediatamente trata de registrar sua defesa: ele ataca o delator e pede o fim das investigações.

Um ano antes, a então presidente Dilma Rousseff pegava fogo na capa de O Estado de S.Paulo e não tinha o mesmo espaço para se defender, ainda que o procurador houvesse apenas solicitado investigações – mensagem sem clareza alguma registrada na capa. Na linha de apoio, o jornal isenta o então vice Michel Temer, que meses depois voltaria às capas suspeito de pagar propina para manter o silêncio de um ex-aliado preso.

  1. Indícios e verdades

Qual a diferença entre um indício e uma verdade? Do ponto de vista jornalístico, o modo de contá-los. Nós podemos chamar alguém de suspeito, de acusado ou de inocente. A escolha das palavras, especialmente nos títulos, revela muito sobre o enquadramento das notícias.

A Folha de S. Paulo de 20 de maio foi bastante cautelosa ao enunciar que o procurador geral da república vê indícios de má conduta do presidente Temer. Uma alternativa mais direta seria “Temer pode ter cometido três crimes”, que mantém o ato como hipótese, não como certeza.

Essa certeza, entretanto, era bastante comum nas manchetes envolvendo a ex-presidente Dilma Rousseff, como indicava O Estado de S.Paulo em março do ano passado. A acusação de um delator soa como verdade, ainda que não hajam indícios ou que estes não sejam explicitados. O agravamento da crise política também surge aqui como uma verdade, não como uma interpretação do periódico.

  1. Farinhas do mesmo saco

Pelo menos dois jornais, O Estado de S.Paulo e O Globo, fizeram escolhas editoriais bem parecidas nas suas capas de 20 de maio de 2017. Ambos optaram pelo discurso de que todos os partidos são responsáveis pela corrupção no Brasil. Com acesso à delação completa, ficou difícil escolher quem iria estrelar a manchete.

O Globo, porém, decide acusar Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, ainda que as suspeitas contra o principal agente público do Brasil pareçam mais graves e palpáveis. “Temer vai responder por três crimes”, mas não há clareza sobre quais são e tampouco o jornal se preocupa em colocá-lo como suspeito. Porém, é taxativo ao afirmar que Lula e Dilma receberam no exterior – assim mesmo, sem dúvidas e sem indicativos de provas.

Já o Estado de S.Paulo parece mais cauteloso: deixa claro que foi o delator quem acusou os ex-presidentes – e é igualmente ameno com os “indícios” – nunca verdades – que lançam suspeitas sobre Temer.

O uso de recursos bastante semelhante mostra que os jornais não quiseram perder a chance de usar novas denúncias contra Lula e Dilma nas suas manchetes, mesmo que eles tenham sido personagens secundários numa delação que envolveu um presidente em diálogo muito suspeito com um grande empresário brasileiro.

  1. Protestos e repercussões

A capa de O Estado de S.Paulo de 14 de março de 2016, é bastante simbólica nesse conjunto analisado. Com uma foto “rasgada”(no jargão jornalístico) de um ponto a outro, mostra milhares de pessoas reunidas em protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff. Além disso, não tem manchete: apenas sinaliza a data, registrando ser este um marco na história. O jornal pretende ser quase um poster para aqueles que pediram a deposição de Dilma.

Três dias depois, O Globo também registra uma “multidão” nas ruas, sem sinalizar quantos e onde, protestando contra a indicação de Lula como ministro. Os protestos são tratados como exemplos democráticos de luta contra um governo até então eleito há menos de dois anos por mais de 54 milhões de votos.

Mas quando os protestos envolvem o presidente que não foi eleito, as capas mudam o tom. Fotos e chamadas sugerem a violência dos manifestantes anti-Temer nas capas de Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo  e O Globo. Não se diz quantos dos milhares que foram às ruas estavam agindo de modo a justificar a convocação de tropas de exército por Michel Temer.

A capa de 29 de maio de O Globo também trata de forma modesta uma grande manifestação pelas Diretas Já ocorrida no dia anterior em Copacabana. Como não houve episódio de violência, o jornal escolheu tratar a manifestação como um show de Caetano Veloso e Milton Nascimento para um público entre 15 e 100 mil pessoas. Além disso, falam que se pediu a renúncia de Temer, mas não a convocação das eleições diretas.

  1. Perdas e ganhos

É inegável que as capas dos jornais montam e desmontam cenários de crises. Vejamos os exemplos do governo Dilma: em abril, Folha de S.Paulo dizia que os crimes de pedalada fiscal dispararam em seu mandato. Pouco antes, estampava uma manchete revelando que 68% das pessoas esperavam seu impeachment. Dias antes, registrou que os atos anti-Dilma eram os maiores da história. Já O Globo, comemorou, em letras garrafais, a proximidade do fim do seu mandato. Antes, registrou que nem o PT confiava na continuidade do governo.

Com relação ao governo Temer, no entanto, o cálculo das perdas quanto à interrupção do seu mandato parecem ser maiores do que com relação aos ganhos. Em 26 de maio, por exemplo, Folha de S. Paulo  se preocupa em trazer a declaração de Temer de que o país não vai parar. Um dia depois, O Estado de S. Paulo parece pedir que os ânimos voltem ao normal, afinal, a crise política traz riscos econômicos. As estratégias discursivas são muito diferentes daquelas utilizadas um ano antes: a busca por um apaziguamento, e não por um grande incêndio, transformou os jornais em agentes moderados e em mediadores equilibrados.

  1. O bem e o mal

A imagem de uma Dilma escondida atrás de ombros masculinos em um longínquo fevereiro de 2016 contrasta com as fotos de um Michel Temer imponente e sóbrio poucos meses depois. A narrativa de que ele era uma possível solução para o país foi escrita a muitas mãos, mas as capas de 12 e 13 de maio de 2016, de O Estado de S.  Paulo, mostram como o jornal enxerga o presidente. A crença é tamanha, que mesmo quando este é envolvido em um episódio de delação com fartos indícios de má conduta, o jornal usa suas manchetes para defendê-lo, como ocorreu no dia 29 de maio, com a posse do terceiro ministro da Justiça do seu governo de pouco mais de um ano.

 Conspiração ou indícios?

É muito comum que jornalistas em atuação nas grandes ou pequenas redações do país sintam-se incomodados com qualquer movimento que ponha em xeque seus ideais de objetividade e isenção. Por isso, esse exercício de análise das capas não tem o interesse de tratar o assunto como fariam as teorias conspiratórias também amplamente difundidas por aí: é claro que não há jornalistas malvados planejando manchetes para destruir a democracia ou o mundo.

Porém, o exercício de olhar para as capas nos traz dados interessantes para compreender a imprensa. As capas são os espelhos dos jornais, são aquilo que vende o produto e aquilo que conta a história. Negligenciar seus efeitos é ingênuo, assim como negar que elas dizem muito sobre linhas editoriais e posicionamentos políticos e ideológicos de grandes grupos empresariais. Tratemo-as, então, como as capas gostam de tratar aqueles que julgam inocentes: como indícios categóricos de que os periódicos não estão nos contando tudo que deveriam, nem sobre a crise, nem sobre eles próprios.

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