Dairan Paul
Mestrando no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Quando se fala em “ética jornalística”, normalmente visualizamos a imagem de um código que sinaliza para o cumprimento de regras específicas. É precisamente esta “lista de deveres” que molda uma ética própria do jornalista e o diferencia de outros cidadãos. Não no sentido de que ele é o guardião da moral e dos bons costumes e, portanto, “mais” ético do que uma advogada, um padeiro ou um morador de rua. Trata-se, simplesmente, de constatar que ao profissional jornalista é exigido e esperado o comprometimento com determinados valores morais para o exercício do jornalismo – busca pela verdade e respeito às fontes, por exemplo, são dois dos princípios mais comuns.

A deontologia – ou seja, a cristalização de regras que competem a um grupo profissional – é, portanto, o que legitima a prática jornalística. Esta tradição filosófica tem sua origem nos estudos de Jeremy Bentham, quando possuía um significado totalmente distinto do atual, e no conceito de imperativo categórico, de Immanuel Kant, mais próximo dos códigos jornalísticos que conhecemos hoje. A ideia básica é a obediência a uma lei moral: o dever kantiano de respeito ao imperativo categórico sedimenta a criação de documentos normativos e deontológicos que culminam em “éticas profissionais” dos mais diversos grupos. Ou seja, cabe ao jornalista obedecer, ou pelo menos estar orientado ao dever-ser codificado nos documentos da categoria.

É claro que esta não é uma obediência cega e as “regras” dos códigos jornalísticos são menos enrijecidas do que propõe o imperativo categórico de Kant. Medir consequências e observar a máxima utilidade de certa decisão para o maior número de pessoas são variáveis que flexibilizam o dever-ser dos códigos – a privacidade de um indivíduo, por exemplo, por vezes é solapada em nome do interesse público para que o jornalista obtenha certa informação. Mas a ideia, aqui, é notar que a formulação destes documentos normalmente está orientada para aquilo que é o correto a ser feito em determinadas situações. É um caráter eminentemente prático, que auxilia o jornalista a lidar com dilemas cotidianos.

Se a moral kantiana está calcada no dever-ser, a ética aristotélica é teleológica: ela busca uma finalidade-última para as ações (um telos, na palavra grega original). Para Aristóteles, a questão não se refere tanto a quais deveres precisam ser cumpridos, mas a qual boa vida nós aspiramos enquanto seres humanos. Estas duas tradições de pensamento, a deontológica e a teleológica, não são necessariamente opostas, mas complementares. No caso do jornalismo, uma perspectiva mais próxima da aristotélica encontra seus fundamentos em correntes éticas como a virtude, o cuidado, o confucionismo e o ubuntu. Elas justificam como eticamente aceitáveis as práticas jornalísticas que contribuem para o bem coletivo de uma comunidade. São tradições que normalmente fogem da perspectiva ocidental, marcada pela defesa de direitos individuais e do papel do jornalista como cão-de-guarda que vigia os demais poderes.

Mas qual seria a vantagem de adotarmos uma perspectiva teleológica e comunitária para a ética jornalística, centrada no bem-estar de uma comunidade? Ela não estaria distante dos deveres do profissional e mais próxima de uma “moral geral”?

Na verdade, é possível conjugarmos as perspectivas teleológicas e deontológicas, afirmando as normas e regras da última com uma finalidade comunitária da primeira. Há, inclusive, códigos deontológicos que possuem clara aspiração teleológica. É o caso do documento adotado em 1922 pela associação de editores do estado de Oregon, nos Estados Unidos. O The Oregon Code of Ethics for Journalism inicia com uma passagem de Ética a Nicômaco, obra de Aristóteles, e enfatiza as virtudes que o jornalista deve cultivar, como sinceridade e justiça. Na mesma linha, o código jornalístico do Japão, de 1946, traz orientações que incluem valores como orgulho, decência e tolerância.

É possível argumentar que estes princípios, de cunho mais amplo, não teriam uma utilidade prática à primeira vista, por soarem generalizantes e pouco aplicáveis. Enfatizar a realização de um projeto coletivo de sociedade, e não necessariamente os direitos e deveres dos indivíduos, também pode parecer estranho às sociedades liberais modernas. Quem traz essa ressalva é o filósofo Alasdair MacIntyre, que retoma nos anos 1980 as discussões sobre uma ética aristotélica das virtudes e defende a sua importância na contemporaneidade.

Mas a ética teleológica também pode moldar as práticas jornalísticas, ainda que não necessariamente pelas vias do dever-ser. Esta percepção parece mais clara a partir de um estudo de caso dos pesquisadores Herman Wasserman e Arnold De Beer, que analisaram a cobertura sobre HIV e AIDS na África do Sul a partir das perspectivas utilitaristas e comunitárias. Nesta pesquisa, a abordagem ética é a do ubuntuísmo, uma corrente africana baseada na perspectiva coletiva do bem comum.

A abertura da ética jornalística

A filosofia do ubuntu tem origem na máxima da língua Zulu umuntu ngumuntu ngabantu, cujo significado pode ser traduzido para algo como “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. O pesquisador Pieter Fourie classifica o ubuntuísmo como um “modo de ser”, um “código de ética” profundamente enraizado na cultura africana. A ideia básica é que o indivíduo se define como alguém em referência à sua comunidade. Ou seja, trata-se de uma ética que enfatiza a participação e o compartilhamento de uma vida em comum, mas que não nega os aspectos individuais do sujeito. A criação de uma espécie de consciência coletiva e comunitária também está ligada a questões raciais, o que perpassa circunstâncias históricas do próprio continente africano.

“Eu sou porque nós somos”, uma das máximas da filosofia ubunduísta. Créditos: Art Journaling.

Um exemplo prático da ética ubuntu aplicada ao jornalismo pode ser observada na análise de Wasserman e De Beer a partir da morte de Parks Mankahlana, porta-voz do então presidente da África do Sul Thabo Mbeki, em 2000. Ambos foram responsáveis por diversas declarações negativas sobre a disseminação da AIDS no país, ainda que a região tivesse o maior número de pessoas convivendo com o vírus do HIV no continente africano. Mbeki e Mankahlana frequentemente negligenciaram a questão, citando que acidentes em estradas causavam mais mortes, por exemplo.

Quando Mankahlana faleceu em outubro de 2000, sua esposa alegou tratar-se de um infarto causado por uma anemia aguda. No entanto, os veículos, à época, especularam que a morte fora resultado do vírus HIV, o que teria sido confirmado, posteriormente, por uma fonte interna ao canal e.tv. A revelação foi feita a despeito dos familiares de Mankahlana, que evitaram comentar maiores detalhes do caso e pediram respeito e privacidade.

Wasserman e De Beer desenham diversos cenários possíveis para responder ao dilema sobre revelar ou não a causa da morte de Mankahlana. Os argumentos favoráveis partem da perspectiva liberal que defende o papel de vigilância do jornalismo. Nesse sentido, mencionar que o porta-voz faleceu pelo vírus HIV poderia ser considerado como um modo de desafiar o governo em relação ao seu comportamento negligente sobre a AIDS. Por outro lado, os pesquisadores questionam até que ponto revelar a causa da morte não poderia contribuir para a perpetuação de estereótipos racistas de que apenas negros são vítimas da doença, independente de sua classe social. Wasserman e De Beer prosseguem trazendo novos argumentos – o fato de que Mankahlana era uma figura pública; a perspectiva do ubuntuísmo, para quem Mankahlana, como membro de uma comunidade, deveria ter sua privacidade respeitada; um meio-termo de negociações com as fontes, argumentando que revelar a causa seria interesse da própria comunidade, etc.

Contudo, o ponto central da análise, a partir de uma perspectiva comunitária da ética, infere que essa decisão não deveria ser tomada apenas internamente, dentro das redações – os jornalistas deveriam consultar diretamente as fontes afetadas pela revelação e os membros da comunidade, seja ela a negra ou a formada por pessoas que portam o vírus HIV. Essa perspectiva não é tomada no sentido de subordinar o jornalismo às suas fontes, mas de abrir novos espaços para o diálogo entre uma ética que é costumeiramente fechada a discussões restritas aos profissionais, o que exclui o seu próprio público.

O ubuntu é uma ética análoga a outras como a ética feminista do cuidado e a ética das virtudes. São correntes que preconizam uma orientação teleológica, de uma finalidade a ser alcançada pelo jornalismo não pelas vias do que é correto a ser feito em determinadas situações, mas do que melhor contribui para uma vida boa, em conjunto. É a partir dessa perspectiva que Nick Couldry entende que a ética das virtudes pode “abrir” a ética jornalística para um maior diálogo entre profissionais e não-jornalistas. O pesquisador diz que a mídia, o que inclui o jornalismo, é uma preocupação de todos nós. A partir dessa constatação, questiona como devemos agir eticamente em relação a ela – seja como profissionais, consumidores ou não-profissionais que praticam algo próximo do jornalismo.

Diferente de um sistema fechado como a deontologia, estas éticas estão mais próximas de uma “ética pessoal”, pois não estão restritas aos grupos profissionais. No caso do jornalismo, é necessário ressaltar que elas são bem-vindas à medida que não excluem as normas próprias da profissão. Elas podem, por exemplo, lembrar que o jornalista também é um agente moral cujas decisões éticas impactam a vida de outras pessoas. Linda Steiner e Chad Okrush consideram que éticas comunitárias podem moldar a prática profissional ao reforçar que o jornalismo tem um compromisso ético com grupos socialmente vulneráveis, por exemplo. Não se trata de tornar a profissão uma mera defesa de causas de um lado ou outro, mas de atentar para desequilíbrios políticos, econômicos e sociais. É tornar o próprio profissional um ativista – mas um ativista em nome da ética, como diz o pesquisador Stephen Ward.

Longe de pairarem apenas em discussões abstratas, as éticas que não estão necessariamente codificadas também apresentam contribuições para a prática jornalística. A mais proeminente, como pudemos ver, é a abertura ao diálogo, o que pode ser um caminho interessante para reforçar os laços com o leitor em tempos de crise de credibilidade. É a partir dessa troca que dilemas morais da profissão podem ser debatidos levando em consideração um número maior de perspectivas diferentes. E é também por meio do diálogo que jornalistas e não-jornalistas podem relembrar para que serve, afinal de contas, o próprio jornalismo.

Referências

COULDRY, Nick. Media ethics: towards a framework for media producers and media consumers. In: WARD, S.; WASSERMAN, H. Media ethics beyond borders: a global perspective. New York/London: Routledge, 2010.

FOURIE, Pieter. Moral philosophy as the foundation of normative media theory: questioning african Ubuntuism as a framework. In: WARD, S.; WASSERMAN, H. Media ethics beyond borders: a global perspective. New York/London: Routledge, 2010.

MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude: um estudo em teoria moral. Bauru: Edusc, 2001.

STEINER, Linda; OKRUSCH, Chad. Care as a virtue for journalists. Journal of Mass Media Ethics, v. 21, n. 2&3, pp. 102-122, 2006.

WARD, Stephen. Radical media ethics: a global approach. Chichester: Wiley-Blackwell, 2015.

WASSERMAN, Herman; DE BEER, Arnold. Covering HIV/AIDS: towards a heuristic comparison between communitarian and utilitarian ethics. Communicatio: South African Journal for Communication Theory and Research, v. 30, n. 2, 2004.

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