Lúcio Lambranho
Jornalista, editor do Farol Reportagem
Especial para o objETHOS

É possível apurar um assunto com profundidade até conseguir revelar por meio de uma apuração jornalística fatos novos e relevantes para o interesse público sem depender de informação oficial? É possível e necessário em Santa Catarina. Mesmo diante de uma ainda opaca transparência em vários níveis de informação nos governos locais é viável analisar, classificar e encontrar padrões interessantes que sustentem uma pauta, uma pista sobre o precário funcionamento de um Poder ou seus desvios e atos ilegais.

Mas é preciso para conseguir uma cobertura efetiva usar meios tecnológicos ou ter uma equipe treinada para traduzir tantos dados e documentos publicados todos os dias por órgãos públicos. Um grupo pequeno de repórteres poderia ajustar o foco com uma apuração prévia e exaustiva sobre um problema, incluindo uma pesquisa abrangente sobre a memória do caso ou assunto, e auxiliar decisivamente na busca precisa da informação nas bases de dados abertas.

Um exemplo desta possibilidade é esta reportagem que participei sobre a reforma trabalhista, e que foi produzida por um grupo criado no Brio Hunter, agora Brio Lab (mais detalhes da apuração aqui).

Essa prática não existe com regularidade nas redações tradicionais, nos veículos locais e na imprensa catarinense. Não se fala em outra coisa no mercado de cursos e formação profissional: jornalismo de dados. Mas na prática, quando matérias aqui citam dados e estatísticas, são quase sempre informações liberadas pelas assessorias de comunicação ou levantamentos oficiais estaduais e nacionais.

Bom exemplo local, mas ainda raro

Ou são fruto do esforço pessoal de repórteres tentando apurar como se deveria. Ampliando as possibilidades existentes por novos modelos de armazenagem ou raspagem de dados de site oficiais. Tentando driblar as dificuldades impostas pelos Poderes na programação de suas páginas e limitações nos seus bancos de dados. Mas é possível fazer reportagens usando essas ferramentas. Ajudar a resolver problemas locais e a realidade diante da precisão do material apurado e do volume novo de informações reveladoras.

Para dizer mais uma vez que é possível, mesmo no cenário local, cito esta reportagem do colega Hyury Potter, do Diário Catarinense. O uso da tecnologia é algo raro no Estado. Vejam a prova no link abaixo. É uma ação igualmente rara de fiscalização dos poderes e incluiu uma apuração própria sem estar vinculada a qualquer investigação oficial. Importante também citar como foi realizada, pois abre caminho para outros repórteres.

Tempo é determinante

E se a informação, dado ou documento não for aberta? Milhares de documentos de investigações oficiais estão protegidos pela inércia e má vontade da Justiça estadual e Federal, que restringem, em plena era digital da transparência como meio de controle social, o acesso completo aos seus processos. Mesmo em ações contra o patrimônio público e tendo como alvos e réus políticos, funcionários públicos concursados ou nomeados por essa mesma influência política. Estes dados podem ser o ponto de partida para uma investigação própria de qualquer veículo.

Para ter acesso a documentos de processos judiciais e em outros órgãos oficiais é preciso de tempo para cultivar fontes que acreditam na seriedade do repórter e conseguir obter material exclusivo. Mas isso também é possível mesmo com pouco recursos e fora das redações tradicionais.

Mas se essas três práticas são possíveis mesmo com pouca estrutura, dinheiro ou fora de uma grande redação (base para apurações que resolveram dar nome de jornalismo investigativo), precisamos saber como atrair mais público e interesse suficientes para manter sites de Jornalismo independente em Santa Catarina.

E também juntar as forças disponíveis no mercado local, universidades, talentos fora das redações ou dentro delas submetidos a baixos salários e avançar num espaço não comercial ou corporativo de informação estadual, regional e local.

Formação de público

O melhor seria fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas enquanto não é possível unir tantas forças e sem conseguir financiamentos que não tenham a pretensão e intenção de restringir o esforço editorial, o Farol Reportagem, desde junho de 2016, vem tentando caminhar na direção de pautas investigativas próprias, objetivo que o site vai continuar perseguindo.

Se vai ter força para seguir em frente, montar sua equipe e ser sustentável ainda não é possível precisar, assim como o espaço que o mercado tem ou terá para iniciativas semelhantes. O Farol começou sem que essa certeza existisse e não deve acabar mesmo que seus recursos continuem sendo limitados. Podem acreditar, mesmo assim é possível.

Além da necessidade justamente pela falta de um canal semelhante de informação, alguns indicativos do site podem ajudar a pensar sobre a questão: o Farol teve em um ano mais de 76 mil visitantes únicos e 100 mil visualizações. No Facebook, algumas reportagens atingiram mais 30 mil pessoas e formadores de opinião na região.

São números modestos, mas que podem inspirar, principalmente considerando que o Farol ainda não tem periodicidade definida. Os leitores e especialmente o público local estão acostumados e condicionados com outro ritmo informativo. Determinado apenas pelo o que aconteceu e não pelo que o foi descoberto, apurado e checado ou tem como base um documento inconteste.

O site publica reportagens somente quando estão “maduras” e apuradas com o máximo de rigor e precisão jornalística. O que poderia ser um problema, por falta de estrutura e equipe, se traduz no seu diferencial: reportagens exclusivas, relevantes para a comunidade e de grande interesse público.

Muito leitores acabam lendo as reportagens até mesmo muito tempo depois de publicadas, pois contém informações novas e que não ficam velhas rápido como as notícias. É preciso, portanto, pensar na formação de público, dentro das possibilidades de cada veículo, mas encontrando uma nova maneira de deixar as pessoas bem informadas. Esse é um desafio enorme e talvez anterior a tentar determinar um modelo de negócio ou formas de financiamento de canais como o Farol.

Reportagens do site já foram citadas pelos veículos regionais. O Farol produziu material nunca antes realizado com alunos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) durante as eleições de 2016 (aqui, aqui, aqui e aqui). Provas da relevância do conteúdo publicado. Mais do que números e métricas, 25 reportagens foram produzidas em doze meses (incluindo suas suítes e novas reportagens sobre o mesmo tema), mais um sinal de que é possível fazer Jornalismo em Santa Catarina. Jornalismo. Sem rótulos, investigativo ou não, mas com essência e Reportagem!

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