Leonel Camasão
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Capo di tutti capi é uma expressão italiana para referir-se ao “chefe dos chefes” nas organizações criminosas conhecidas como máfias. Coincidentemente, as revistas IstoÉ e CartaCapital deste final de semana utilizaram a expressão para caracterizar dois dos principais personagens da política brasileira contemporânea: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o atual (e ilegítimo) mandatário, Michel Temer. As discrepantes perspectivas entre os dois semanários reflete, de certa maneira, a polarização política vivida no país nos últimos tempos.

A revista da Editora Três elege Lula como o “chefe dos chefes” da corrupção no Brasil (veja imagem acima). Na capa, faz referência a um dos maiores filmes da história do cinema e da cultura pop do século XX, O Poderoso Chefão, que dá nome à cartola utilizada na capa. Lula é transformado em um Dom Corleone tupiniquim, e no lugar da rosa no paletó de Marlon Brando, uma estrela do PT.

A manchete não poderia ser mais panfletária: A hora da condenação de Lula, grafada com a mesma fonte e estilo gráfico que o nome do filme de Francis Ford Copola. O texto de apoio e a respectiva matéria apelam ao futurismo e à adivinhação, uma vez que não se apresentam fontes que o sustentem o texto. Diz: 

Em sua sentença, o juiz Sérgio Moro pedirá até 22 anos de prisão para o capo petista. Lula volta ao centro dos holofotes dos crimes de corrupção, enquanto dispara ameaças em tom mafioso: “mexeram com a pessoa errada”.

 Na matéria propriamente dita, a IstoÉ “revela” que o único obstáculo a condenação de Lula é a definição da pena de Antonio Palocci, o “intermediário da propina”. Sem direito a réplica, defesa ou contraditório, para a IstoÉ Lula já está condenado a 22 anos de cadeia, é “incapaz de se reinventar”, e ainda, “insiste no surrado discurso da vitimização”. A uma frase descontextualizada, atribuem um “tom de ameaça, tal qual um capo mafioso”. Segundo os videntes da Istoé, não apenas Lula será condenado por Moro, como terá a sentença mantida pela segunda instância.

Na conclusão de seu pífio argumento, o autor do texto Germano Oliveira revela-se: [A condenação] será o seu apogeu, sem a qual a Lava Jato não terá feito qualquer sentido”. Ou seja, para a IstoÉ, a  Lava-Jato só faz sentido se condenar Lula. Os demais resultados da operação – com suas vitórias e seus excessos – são irrelevantes. Segundo o Ministério Público Federal, já foram promovidos 64 acusações criminais contra 281 pessoas, sendo que em 31 casos, já houve alguma sentença, pelos crimes de corrupção, crimes contra o sistema financeiro internacional, tráfico transnacional de drogas, organização criminosa, lavagem de ativos, entre outros. Em seus acordos de colaboração, o MPF negocia até o momento a recuperação de R$ 10,3 bilhões de reais. Mas nada disso “terá sentido” se Lula não for condenado. Ato falho do repórter ou do editor, talvez? Afinal de contas, o que é mais importante? Recuperar os recursos desviados, expor publicamente políticos e empresários envolvidos em corrupção, condená-los?

A revista se permite a uma reeleitura do contraditório PowerPoint do procurador Deltan Delagnol em que várias setas apontam para Lula indicando-o como “o chefe da quadrilha”, mesmo que não hajam evidências suficientes para comprová-lo. O infográfico é tão absurdo que até mesmo figuras não citadas no caso do tríplex do Guarujá são colocadas como parte do esquema.

Eike, Joesley, Wesley, Dilma: nenhum deles possui relação com o caso do Tríplex, mas entraram em “reedição” de powerpoint.

Nada disso parece estar surtindo o efeito desejado pela mídia tradicional. De um lado, Lula vem obtendo uma crescente nas pesquisas eleitorais. Em maio, aparecia com 31% das intenções de voto e esta tendência poderá ser verificada nesta semana, com nova pesquisa do Datafolha. O Instituto divulgou neste final de semana outra pesquisa, em que o PT aparece como o partido preferido dos eleitores brasileiros, com 18% da preferência. Apenas outros seis partidos foram lembrados: PSDB e PMDB (5% cada), PV, PSOL e PDT (1% cada). Dos entrevistados, 59% afirmaram não ter preferência por partidos. “O fim de Lula”, já anunciado pela própria IstoÉ em capa de abril deste ano, continua como uma delirante e esquizofrênica narrativa de boa parte da imprensa nacional.

A CartaCapital, por sua vez, apela para o mesmo estereótipo de “máfia italiana”, porém, de maneira ligeiramente mais sutil. Diferente da IstoÉ, que abusa de montagens fotográficas para produzir um sentido (Lula como o poderoso chefão, Lula como chefe do Esquema), a CartaCapital usa fotos oficiais para construir sua narrativa, indo desde Temer com expressão de dor ao sair de um avião até a senadora Gleisi Hofmman comemorando a derrota da Reforma Trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

No título, a CartaCapital faz trocadilho com o filme de Alan J. Pakula “Todos os homens do presidente” e crava a manchete “Todos os homens do capo”. Utiliza ainda uma foto de Temer em uma churrascaria, cercado pelos seus ministros e principais interlocutores que são investigados na Lava-Jato. Diz o texto de apoio Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha, Henrique Eduardo Alves, Eduardo Cunha, Rodrigo Rocha Loures, unidos no assalto ao poder na última década”.

O texto do jornalista André Barrocal não traz grandes novidades, e faz mais um apanhado de notícias antigas, depoimentos e declarações para construir a narrativa de máfia. Temer e aliados são descritos como “trupe”, “famiglia” e como uma “quadrilha junina”, que após o sucesso nas urnas em 2006, teria montado um plano de assalto ao Estado brasileiro e, posteriormente, ao próprio poder central, a partir do golpe de 2016. Assim como na matéria da Istoé, as principais fontes que deveriam sustentar a reportagem são anônimas ou são documentais, como trechos de delações e depoimentos. No caso em questão, quem corrobora a tese de Temer como o “chefe dos chefes” é um sub-procurador-geral da república não identificado.

A um país e uma imprensa em que grandes terremotos se tornaram frequentes, a semana “morna” dos escândalos políticos produziu edições igualmente requentadas, que buscaram apenas reforçar seus pontos de vista de largada. Há pouco ou nenhum espaço para o contraditório e o contraponto, enumeram-se os exageros de linguagem para detratar os “inimigos” e sobra mal gosto. Em que pese a CartaCapital apresentar um conteúdo um pouco menos panfletário e raivoso que a Istoé, ambas buscam construir um mafioso favorito para seu público, reforçando a polarização e a simplificação dos acontecimentos. Neste sentido, mais desinformam do que esclarecem, deixando nu sob o sol a precariedade do jornalismo brasileiro atual.

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