Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

As notícias falsas não são uma invenção recente, mas não é por causa disso que se deva descuidar delas. Seu impacto maior se dá na credibilidade do jornalismo, adverte o professor Joaquim Fidalgo, da Universidade do Minho, em Braga (Portugal). Na entrevista a seguir, o especialista em ética jornalística, identidade profissional e auto-regulação aponta como jornalistas e veículos de comunicação podem evitar para não difundirem mentiras disfarçadas de informação. Fidalgo sabe o que diz. Com passagens por grandes jornais portugueses, como “Jornal de Notícias” e “Expresso”, também foi ombudsman do “Público”, função cada vez mais rara por aí.

Um temor recente e crescente é o das fake news. De que forma, esse fenômeno (não recente) afeta eticamente o jornalismo?

O problema maior das “fake news” é o dano que causam a um dos alicerces mais relevantes do jornalismo: a sua credibilidade. E perder credibilidade significa deixar de ter a confiança do público. E sem confiança não há jornalismo que interesse ou que perdure. Em minha opinião, a grande questão não é a existência de notícias falsas: sempre houve gente interessada em manipular a opinião pública, para isso recorrendo à mentira ou à invenção de “notícias”. A grande questão é esses “inventores” ou mentirosos conseguirem que os meios de comunicação social difundam tais falsidades como se de verdadeiras notícias se tratasse… Jornalistas que recebem informações e se limitam a publicá-las, sem qualquer cuidado de confirmação, de aprofundamento, de cruzamento de fontes, de contextualização, desrespeitam as suas mais elementares regras profissionais – e, com isso, falham nos seus mais básicos deveres éticos. Não passam de “pés de microfone”, como costumamos dizer em Portugal. No fundo, negam a própria essência do jornalismo e a sua exigência enquanto “disciplina de verificação”, como referem Kovach e Rosenstiel no seu célebre livro “Os Elementos do Jornalismo”.

O que as redações e os profissionais podem fazer para combater e evitar as notícias falsas e a pós-verdade?

Os tempos de hoje, com a enorme velocidade provocada pela internet e com a tremenda concorrência causada pela multiplicação de atores no campo da mídia (incluindo aqui as redes sociais), não favorecem nada o que sempre devia fazer-se: confirmar primeiro e publicar depois. As notícias são agora difundidas a cada minuto e há sempre o receio de se ficar um minuto atrás do competidor do lado… Assim, com muita frequência publica-se primeiro e só depois se vai (quando se vai…) confirmar. O que os profissionais podem fazer é o óbvio “back to basics”: verificar a veracidade das informações, confirmar os factos junto de pelo menos duas fontes independentes entre si, avançar apenas quando há uma razoável certeza. Nada disto é novo, mas tem caído em desuso. Ora isto é tanto mais necessário quanto, hoje em dia, as fontes de informação estão muito profissionalizadas, muito sofisticadas, e, portanto, fazem chegar aos media, com grande capacidade de sedução, boa parte das notícias. O processo está invertido: é cada vez menos o jornalista que vai à procura da notícia, é cada vez mais a notícia que vai ter com o jornalista. E, sabendo como as redacções têm pouca gente e a pressão do tempo é fortíssima, muitas fontes aproveitam-se dessa fragilidade para lançarem notícias falsas, ou totalmente parciais; há uma grande probabilidade de que elas sejam publicadas tal e qual foram fornecidas ao jornalista…

Claro que, para além do esforço individual de cada profissional (que se espera e que se exige), também as redações, enquanto espaços de trabalho colectivo e de responsabilidade partilhada, deveriam manter mecanismos mínimos de controlo e de acompanhamento (conselhos de redação, ombudsman, editores encarregados de “fact checking”, etc.) que permitissem descobrir rapidamente (e corrigir) os erros ou as manipulações deliberadas.

Há quem diga que o jornalismo se acovardou ultimamente. Que ele não fiscaliza os poderes e que não enfrenta as corporações. O que pensa disso?

O jornalismo é uma atividade de homens, não de anjos. E desenvolve-se cá na terra, não no céu… Ou seja: muito humanamente, o jornalismo sofre também com as dificuldades que hoje em dia atravessam grande parte das empresas de comunicação social, muitas delas batalhando simplesmente pela… sobrevivência. É natural que esta situação fragilize os meios de comunicação. Um jornal que não consegue receitas superiores aos custos está sempre numa posição difícil para garantir a sua independência – seja face ao Estado, seja face aos anunciantes. Um jornal que acumula prejuízos acaba frequentemente por ser tentado a aceitar “negócios” que de outro modo não aceitaria. E esse é um caminho que acaba sempre por dar mau resultado. Acresce que muitos órgãos de comunicação fazem parte de conglomerados empresariais que, aqui e ali, condicionam de facto a liberdade de movimentos do jornalismo. Se não “obrigam” a que se faça este ou aquele trabalho, pelo menos ‘sugerem’ que se mantenha silêncio sobre esta ou aquela polémica…

Claro que não é só por este motivo que a mídia por vezes se acovarda e cede às pressões do exterior (pressões políticas, económicas, desportivas, culturais…). Há também, nos tempos que correm, uma grande tentação de estar sempre de boas relações com o poder, de não incomodar, de não agitar, para conseguir no futuro algum tipo de benefícios. O jornalismo radicalmente independente, incómodo se for preciso, frontal e incisivo face a todos os poderes, não está muito “na moda”. E é pena, pois com isso vai perdendo o valor específico que o distingue de outras actividades da comunicação mais institucionais, mais de marketing e de promoção, do que propriamente de investigação e de denúncia.

Professor Joaquim Fidalgo, em workshop sobre ‘A Saúde na mídia’, em novembro de 2012.

Que avaliação você faz da deontologia hoje no jornalismo português?

Há, infelizmente, uma certa passividade (mesmo no seio dos jornalistas) quanto a derrapagens éticas e deontológicas que vemos por vezes nos meios – nuns mais do que noutros, naturalmente. Em conversas de café, em tertúlias informais, os profissionais são capazes de ser muito críticos; mas em público, quando seria necessário apontar as falhas e criticar quem deve ser criticado, tudo fica mais complicado. Há, na prática, uma certa “cumplicidade corporativa” que não ajuda a que se distinga sem medo, aos olhos do público, o que é bom e o que é mau jornalismo.

Para além disso, os jornalistas portugueses sempre ficaram aquém do que eles próprios prometeram em termos de auto-regulação. Insistem que auto-regulação é a melhor forma de regular o comportamento da mídia, mas em termos práticos isso não tem tido seguimento. E aparecem iniciativas estatais que visam, supostamente, preencher esse vazio. É assim que surge, por exemplo, uma Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, com poderes de sanção disciplinar em casos de conduta imprópria do foro deontológico, que só existe porque os jornalistas, autonomamente, não foram capazes de se auto-regular de modo eficaz. Uma instância auto-reguladora (Conselho Deontológico) funciona no âmbito do Sindicato dos Jornalistas, mas uma grande parte dos jornalistas portugueses não está sindicalizada e, portanto, dificilmente se reconhece naquele organismo. Na sequência do último Congresso dos Jornalistas portugueses, realizado em janeiro de 2017, estão atualmente a decorrer reuniões entre profissionais interessados por estes assuntos, para ver se se encontra modo de melhorar a situação, porventura com a criação de um novo organismo, dependente exclusivamente dos jornalistas, e congregando todos eles, independentemente de fazerem ou não parte do sindicato.

Em que medida, ombudsmans podem contribuir para uma difusão maior da ética e da qualidade jornalística? E como podem servir ao público?

Pessoalmente, dou muito valor à figura do ombudsman (que eu próprio desempenhei durante dois anos, no jornal diário Público), quer pela vigilância que permite estimular “para dentro” do órgão de comunicação, quer pela pedagogia que permite exercer “para fora” dele, para os públicos. Embora não tenha, por princípio, poderes concretos de intervenção nas redações (até porque só actua a posteriori, ou seja, nunca antes de certa matéria ser publicada), o ombudsman – que em Portugal se chama provedor (do leitor, do ouvinte ou do telespectador) – tem esse enorme poder de influência que é criticar um meio de comunicação nas suas próprias páginas. E não só criticar. É também ajudar a que se compreenda melhor como funcionam os mecanismos do jornalismo, o que está por detrás de certas decisões, que condicionalismos existem, etc., tudo isso contribuindo para qualificar a capacidade crítica dos leitores. Além disso, o facto de um órgão de comunicação pagar a uma pessoa para estar permanentemente à disposição dos leitores, em dedicação exclusiva, com tempo para os ouvir e com eles conversar, é sinal de que esse órgão de comunicação leva a sério a exigência de prestação de contas (accountability) que se espera de meios atentos à sua responsabilidade social. É levar à prática, de modo muito concreto, aquilo que muitas vezes se promete mas não passa de retórica ou de um rol de boas intenções.

Infelizmente, o número de ombudsman tem diminuído em Portugal (e um pouco por todo o mundo), sobretudo por causa da crise econômica que tem levado as publicações a diminuírem o número de jornalistas – e que, por arrastamento, leva também a que se prescinda do provedor, pois é mais uma pessoa a receber um salário…

Pode falar um pouco mais de suas mais recentes pesquisas em termos de deontologia?

Atualmente, tenho procurado estudar as questões que se prendem com as fronteiras do jornalismo face a outras actividades semelhantes e que, por vezes, se confundem com o próprio jornalismo. Estas fronteiras eram, antigamente, muito claras e definidas, mas hoje em dia têm-se tornado cada vez mais fluídas e porosas, com o que isso significa de eventual confusão entre actividades e diminuição da transparência que se espera de toda a comunicação no espaço público. E a verdade é que, em meu entender, a transparência é a primeira condição para uma postura verdadeiramente ética…

Especificamente, ando a investigar fenômenos de “hibridização” do jornalismo, ou seja, actividades que “parecem” jornalismo, que usam os gêneros e as técnicas do jornalismo, que se apresentam ao público como se fossem jornalismo, mas que de fato são publicidade, ou propaganda, ou marketing, ou promoção comercial. Em simultâneo, estou a recolher e a analisar os pontos de vista de profissionais que trabalharam em jornalismo mas que, depois, se mudaram para outras atividades de comunicação: assessoria, relações públicas, promoção e marketing, etc. Trata-se de tentar perceber que grau de incompatibilidade existe (ou não) entre essas funções e até que ponto se garante que os públicos sabem sempre que tipo de mensagens lhes chegam: mensagens de cariz jornalístico, selecionadas e trabalhadas segundo critérios de interesse público, ou mensagens de cariz promocional, selecionadas e trabalhadas segundo critérios de interesse comercial, ou seja, desenvolvidas apenas porque alguém pagou para isso. Mais uma vez, é a preocupação com a transparência (e a consequente credibilidade) que me parece fundamental.

Advertisements