Carlos Marciano
Doutorando em Jornalismo no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

A programação seguia normalmente até a icônica música do plantão que abalou a república ecoar. Quem será que morreu? Em vários lares brasileiros essa indagação permeou entre os telespectadores que acompanhavam a Rede Globo no dia 17 de maio deste ano. Iniciara ali uma nova fase da novela governista brasileira, desta vez, com o ator principal sendo o suspeito da trama. Com extrema liquidez a notícia da denúncia do empresário Joesley Batista contra Michel Temer e Aécio Neves se espalhou pelas redes sociais e modificou a pauta diária dos noticiários. Seria essa a luz no fim do túnel para o extermínio da corrupção?

Bem, é fato que o governo não lograva na época de alta popularidade, mas sentiu o impacto dos fatos na estrutura de sua base política, uma ameaça à reconstrução da pátria. Pela primeira vez na história desse país um presidente no exercício do cargo estava sendo denunciado por corrupção e, nos dias que seguiram, os áudios das delações ampliavam cada vez mais o debate e aparente enfraquecimento da legenda. Não foram ouvidas panelas, mas pedidos de impeachment começaram a ser protocolados.

Encontro tarde da noite no Palácio do Jaburu, mala de dinheiro, compra de silêncio… A cada novo item da delação confirmado, a cada nome do grande escalão governista que entrava na roda, brotava-se uma centelha de esperança de que o então governo golpista começara a provar do próprio veneno. Apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff começaram a se contradizer, Temer reforça a inocência e descarta a renúncia.

Mesmo diante de tudo isso o afastamento do então senador Aécio Neves e a prisão de Rocha Loures, mensageiro da mala, amplificaram o sentimento de justiça e a convicção de que ninguém sai impune diante de provas, certo? Errado, muito errado.

Digamos que o último dia do mês de junho foi acalentador ao governo cada vez mais impopular e sedimentou a incoerência da justiça. Ironicamente, na ocasião em que manifestantes vão as ruas em prol de um país mais justo, levantando bandeiras em todos os estados da nação, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), autoriza o retorno de Aécio Neves à cadeira de senador, enquanto seu colega, o ministro Luiz Edson Fachin, manda soltar o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures.

Não bastaram os áudios confirmados pela perícia, tão pouco as fotos captadas pela polícia. Enquanto as questionáveis pedaladas derrubaram uma presidenta eleita democraticamente, as provas comprovadas parecem em nada ferir o escudo jurídico do governo. Ao que tudo indica, esse irá completar o triatlo e ainda ganhar a medalha sem ser pego no antidoping, mesmo estando cercado por atletas com atuações contestáveis.

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Diante de tudo isso, a luz no fim do túnel até é visível, porém, cada passo parece aumentar a distância. Quantas propinas mais precisam ser filmadas? Quantas confissões mais precisam ser gravadas? Quantas centelhas mais de esperança irão ser apagadas?

Embora as estatísticas apresentem um governo com popularidade decrescente, os fatos jurídicos nos bloqueiam a assertividade de previsões negativas para tal, pelo menos até as urnas de 2018. A venda da imparcialidade parece ofuscar a visão da justiça, que empunha uma balança pendendo negativamente para o lado do povo.

Enquanto isso, nosso presidente se mantém na figura de Dâmocles, com o conforto de ter a espada afiada segura por uma corrente.

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