João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associdado do objETHOS

O telejornalismo brasileiro, salvo poucas exceções, tem se mostrado cada vez mais empobrecido quanto à qualidade técnica e ética.

Não é difícil de constatar aspectos que indiquem esse estado da produção jornalística de televisão, principalmente nos noticiários das grandes redes e em programas que apresentem materiais jornalísticos como produtos oferecidos à audiência.

Uma quantidade significativa de exemplos poderia ser elencada para demonstrar a situação de total indigência do jornalismo televisivo em nosso país, abrangendo desde reportagens corriqueiras de abrangência local, como o parto de emergência realizado por uma equipe de polícia em sua ronda de rotina, até coberturas de assuntos complexos que a princípio exigem o emprego de recursos tecnológicos mais sofisticados, apurações mais rigorosas, pesquisas prévias, escala de profissionais mais experientes e gastos de produção mais elevados.

A pauperização dos materiais jornalísticos produzidos e apresentados em nossa televisão, a partir de um modelo adotado pela emissora líder de audiência o qual é muitas vezes copiado, ou imitado, pelos demais canais em seus programas voltados ao jornalismo, passa pelo simplismo dos enfoques, pela apuração rasteira de fatos, dados e informações, pela glamourização dos profissionais elevados à condição de protagonistas dos acontecimentos, e pela transformação de um determinado ângulo ou recorte da realidade em autêntico espetáculo midiático.

É certo que uma diversidade de fatores se apresentam como determinantes para que sejam produzidas e veiculadas matérias jornalísticas pela televisão empregando um modo específico de elaboração, visando em primeiro lugar a conformação de um produto com  as características necessárias ao cumprimento do objetivo fixado. E parece que esse objetivo maior não tem sido o de informar, ou de servir de instrumento para que o público em geral tenha garantido seu direito de acesso à informação de qualidade e socialmente útil.

Nesse sentido estende-se o telejornalismo indigente desde a matéria, ou nota, mais simples, passando por assuntos de relevância nacional como nos casos comprovados de corrupção de agentes públicos no Brasil, e chegando ao âmbito das notícias e reportagens internacionais onde se verifica uma tendência à montagem e difusão de estereótipos grotescos de alguns personagens, tais como se pode verificar nos tratamentos dados a certos governantes de países estrangeiros e a determinadas populações. Destacam-se nesse caso desde Donald Trump, Vladimir Putin, Kim Jong-un, os exóticos dirigentes árabes e sobretudo os povos de pequenas nações asiáticas, africanas ou do oriente médio.

Há um grande número de matérias jornalísticas que poderiam ser citadas aqui para fundamentar e comprovar a análise, mas uma chamou bastante a atenção no dia 09 deste mês levada ao ar no programa Fantástico. A reportagem teve duração de dois minutos e vinte e sete segundos, tempo minúsculo em função da relevância do tema tratado.

A apresentadora informa na cabeça do vt: “O governo do Iraque anunciou neste domingo a reconquista de Mossul. A segunda maior cidade iraquiana passou mais de 3 anos sob o controle dos terroristas do grupo estado islâmico”.

Em seguida entra um off gravado pela repórter Carolina Cimenti, com a seguinte narração: “Hoje pela manhã pela primeira vez em muito tempo em Mossul em vez de tiros havia música. As armas apontadas para o céu eram usadas para celebrar. Até o primeiro ministro iraquiano Haider Al-Abadi foi à cidade cumprimentar os soldados. O governo diz que reconquistou Mossul, a capital do grupo terrorista estado islâmico no Iraque. Mas ainda há muito trabalho para o exército por lá. Mais cedo, no bairro da cidade velha, jovens e crianças foram resgatados dos escombros. O barulho de tiros ainda é frequente. E durante a manhã, uma grande explosão deixou claro que, em alguns bairros, os terroristas ainda tentam resistir. Mas o pesadelo, que começou 3 anos atrás está quase no fim. Foi em Mossul que em julho de 2014 os terroristas do estado islâmico proclamaram seu califado. Colocaram em prática as leis do alcorão como eles as entendem. Em outubro do ano passado, o exército iraquiano apoiado pelos americanos lançou uma ofensiva para reconquistar a cidade”.

Todo esse off com duração de um minuto e 22 segundos foi coberto por imagens mostrando soldados cantando e dançando; população civil misturada aos militares ao lado do primeiro ministro; soldados colocando a bandeira do Iraque em local indeterminado; prédios em ruínas e escombros de edificações; soldados amparando crianças e jovens; edifícios bombardeados, explosão e nuvem de fumaça no ar ao horizonte; caravana de veículos; imagens em retrospectiva dos líderes do estado islâmico por ocasião da proclamação do califado em 2014; destruição de obras de arte; tanques, helicópteros e militares em ação. A totalidade dessas imagens não é creditada, em algumas aparecem logomarcas e palavras em árabe, mas a autoria não é identificada, porém fica evidente que não foram captadas por nenhuma equipe da emissora.

Na sequência entra uma passagem da repórter com GC identificador (Carolina Cimenti – Nova York) tendo ao fundo prédios e carros estacionados em uma rua da cidade norte-americana, com duração de 28 segundos, e o texto falado: “Segundo o governo americano, pelo menos mil soldados iraquianos morreram ao longo da batalha por Mossul. Entre os civis, o número é ainda mais alto. E a ONU calcula que, pelo menos, novecentas mil pessoas deixaram a cidade e viraram refugiadas desde a invasão do estado islâmico. O fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim está em Mossul. Ele acompanhou de perto os oito meses de batalhas”.

Depois da passagem vem novo off, de 27 segundos, narrado pela repórter com o seguinte texto: “Em dezembro Gabriel estava com soldados da milícia curda, quando a parte leste de Mossul foi libertada. Em janeiro acompanhou a fuga desesperada dos moradores, quando a batalha ficava mais violenta. Um mês atrás, Chaim estava por perto, quando um carro bomba foi detonado. Mas os soldados iraquianos já estavam na área mais antiga e populosa da cidade, próximos da conquista”.

Cobrem o último off imagens de soldados em operação militar, seguidas de tomada mostrando um grupo pequeno de pessoas andando rapidamente por uma rua sem pavimentação, depois veículos militares se deslocando por outra rua, e corta para soldados perfilados. Durante a exibição dessas cenas é colocada em CG a informação “Imagens Gabriel Chaim”. E o off é finalizado, fechando a reportagem, com um efeito visual gráfico passando a ideia de um espelho ou vidro se partindo junto com curtíssima trilha sonora.

Superficialidade

Por meio desses dados nos é possível perceber que o destaque na cabeça de vt foi o anúncio oficial feito pelo governo iraquiano da reconquista da cidade e a ênfase ao conceito de grupo terrorista atribuído ao chamado estado islâmico. Em momento nenhum da reportagem se explica o que é entendido por terrorismo, e no caso do E.I. a prática de atos vinculados estreitamente com a noção de práticas voltadas à visibilidade midiática.

No primeiro off são apresentadas apenas informações de uma obviedade e irrelevância simplória. Fica-se sabendo que durante a retomada a cidade jovens e crianças foram resgatadas dos escombros, mas não foi apurado quantas pessoas precisamente os soldados acudiram. Do mesmo modo, é dito que em alguns bairros ainda há resistência dos integrantes do E.I., mas em quantos e em quais bairros? São bairros importantes? Populosos? Outra falha de informação jornalística. Também nos é informado que foi em Mossul que o estado islâmico proclamou seu califado, mas o que vem a ser um califado?

Entretanto, o primor de produção nesse material jornalístico está na passagem. Nela a repórter aparece do nada em uma rua da cidade de Nova York citando dados do governo norte americano sobre o conflito no Iraque. Vale indagar até que ponto esses dados oficiais do governo do país que iniciou todo esse problema bélico podem ser confiáveis. Mesmo assim são usados para quantificar o número estimado de soldados iraquianos mortos num total de mil. Salienta ainda que entre os civis a quantidade de pessoas vitimadas é bem maior, contudo sem dizer quantas seriam nem mesmo em estimativa. E utilizando dados da ONU informa que novecentas mil pessoas é o total de refugiados, mas ignora para onde eles fugiram, e sequer é tentado mostrar como vivem.

Essas lacunas comprometem todo o material jornalístico que compõe a reportagem, e podemos apenas supor porque não foram preenchidas. Talvez por falta de condições técnicas e/ou financeiras, afinal a rede globo usa tecnologia “paupérrima e obsoleta”; incapacidade ou incompetência dos profissionais que realizaram o trabalho; opção por recursos que oferecem maior facilidade e demandam menos trabalho; comodismo; ausência de conhecimentos técnicos e éticos acerca de um jornalismo efetivamente comprometido com o público. Enfim, estas são apenas algumas das hipóteses possíveis, entre uma infinidade delas que podem ser levantadas.

E para culminar com algo “espetacular” ainda tem o off final, que essencialmente informa tão somente a presença de um fotógrafo brasileiro na área de conflito. Se essa parte fosse retirada da reportagem em nada alteraria o conteúdo.

Se os noticiários de TV informam mal os telespectadores sobre o seu entorno mais imediato, em se tratando de temas referentes a situações de abrangência mundial a situação é ainda menos animadora, contribuindo para disseminar em escala uma ignorância generalizada.

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