Dairan Paul
Mestre em Jornalismo pelo POSJOR e pesquisador do objETHOS

É necessário construir uma teoria do jornalismo que não esteja confinada no espectro ocidental, defende o professor Herman Wasserman, da Universidade da Cidade do Cabo (University of Cape Town), na África do Sul. Além de lecionar no departamento de Estudos de Mídia, Wasserman é editor-chefe do periódico acadêmico African Journalism Studies e ainda atua ocasionalmente como jornalista. Como pesquisador, editou em parceria com Stephen Ward o livro “Media Ethics Beyond Borders” (Routledge, 2010) e, mais recentemente, “Media Ethics and Justice in the Age of Globalization” (2015, Palgrave Macmillan), com Shakuntala Rao.

Nos últimos anos, Wasserman tem se dedicado a pesquisar uma ética global para o jornalismo, tomando como ponto de referência os estudos das práticas jornalísticas no contexto africano. Na entrevista a seguir, o professor defende uma “des-ocidentalização” nos estudos em jornalismo, a necessidade de escutar as vozes de comunidades marginalizadas e a realidade da profissão na África do Sul. Confira: 

Um dos seus interesses de pesquisa é a ideia de uma ética global para a mídia. Como podemos construir este projeto considerando a prática jornalística em diferentes contextos e países?

Este é exatamente o desafio – encontrar um caminho para construir uma ética de mídia que é global no seu escopo, adequada a uma mídia globalizada e a um mundo marcado por diferenças culturais, sem tornar-se imperialista ou inflexível. Isto significa que uma ética de mídia global deve ser construída a partir do zero para permitir a emergência de interpretações e narrativas de contextos locais, e balizar contextos abrangentes.

O senhor já escreveu sobre a necessidade de des-ocidentalizar” os estudos em jornalismo. Quais são as contribuições epistemológicas que essa abordagem pode trazer para a pesquisa da área?

Uma abordagem “des-ocidental” para os estudos em jornalismo significa tratar com seriedade os contextos, valores, experiências e práticas do Sul – não apenas como estudos de caso ou aplicações das teorias do Norte, mas como constitutivas de uma teoria em si mesmas. Frequentemente, o jornalismo no Sul é apenas incluído na agenda de pesquisa dos estudos em jornalismo como exemplos, curiosidades ou como uma coleção de tipos de cartões-postais de “outros lugares”. “Des-ocidentalizar os estudos em jornalismo implicaria a construção de uma teoria verdadeiramente inclusiva, mas também a compreensão de que a teoria que existe no Norte é contextual, localizada e não-universal.

No artigo “Os significados da cidadania: uso da mídia e democracia na África do Sul”, o senhor conclui que os jovens, ao menos na amostra de sua pesquisa, não consideram a mídia como algo relevante em suas vidas por não se verem representadas. Como podemos estimular uma participação mais direta destas pessoas no contexto de produção midiática?

Pessoas jovens devem ser incluídas nos processos de decisão quando políticas de mídia são elaboradas. Devem também ser consultadas no planejamento de agendas editoriais. O que é preciso é um processo mais ativo de escuta às vozes dos jovens, especialmente daqueles que vêm de comunidades pobres e marginalizadas, para descobrir quais são suas experiências de vida e o que eles precisam da mídia para auxiliá-los na sua vida diária.

Como o senhor avalia as práticas jornalísticas da África do Sul a partir de uma perspectiva ética, considerando o contexto sociopolítico do país?

A África do Sul é feliz por ter uma mídia robusta, vibrante e forte que desempenha vigorosamente o seu papel de cão-de-guarda. Isto é preciso, uma vez que a corrupção governamental alcançou níveis escandalosos e obscenos. Entretanto, pode-se fazer mais para orientar as práticas jornalísticas em direção às experiências dos pobres e marginalizados, encontrar verdadeiramente suas vozes, passar tempo com eles, escutá-los a fim de entender suas necessidades e, por fim, reorientar as práticas jornalísticas. Com frequência, a mídia da África do Sul ainda dá preferência às visões de uma elite.

O senhor já escreveu sobre uma “ética da escuta” no jornalismo como abordagem alternativa para o diálogo em contextos democráticos. Quais exemplos desta prática podemos encontrar atualmente?

Há alguns exemplos de mídias dispostas a escutar as vozes dos pobres ou dos marginalizados – estas são geralmente mídias comunitárias ou independentes. Cada vez mais as redações online proporcionam aos jornalistas espaço e tempo para conduzir um jornalismo mais lento, imersivo, que resulta em visões mais independentes.

Como editor-chefe do periódico African Journalism Studies e membro de diversos outros corpos editoriais, quais tópicos o senhor destacaria atualmente na pesquisa em ética jornalística?

Nós ainda temos uma carência na pesquisa em jornalismo da África que trate de audiências e utilize abordagens etnográficas – parece ainda existir uma preferência por abordagens normativas, textuais ou da economia política. Mas a etnografia demanda tempo e recursos, o que nem sempre está disponível de imediato no contexto africano. Eu espero que financiadores enxerguem a importância da pesquisa jornalística como interesse da democracia e da justiça social na África, e que financiem mais trabalhos deste tipo.

Advertisements