Francisco José Castilhos Karam, pesquisador do objETHOS

A destruição do Brasil por Michel Temer e seu governo, com o apoio das empresas jornalísticas, do Judiciário, do Parlamento e das empresas privadas brasileiras, entre elas bancos, empresas rurais, igrejas evangélicas e outras picaretagens, baseadas no poderio econômico-político dos conglomerados e que tem o maior volume de capital e patrimônio – mas também o menor, e muito menor, volume de população – representa miséria e declínio social para grande parte do povo brasileiro até o limite do aniquilamento.

Trata-se de um crime de lesa-pátria, que a cada semana aumenta em intensidade no País pós-golpe, e que, agora, inclui privatização da Eletrobras, portos, aeroportos e a entrega de parte da Amazônia – junto com a Antártida a maior reserva natural do planeta. Inclui-se perdão de dívidas empresariais, aplausos ao amianto, manutenção na cadeia de presos por pequenos crimes e liberação dos grandes criminosos – os que desfalcam o País, os que contaminam florestas e rios, os que sufocam o trânsito, os que cobrem rombo fiscal com venda de estatais a troco de banana para o rombo voltar em pouco tempo… São muitos crimes cometidos a partir de um crime anterior, a derrubada da presidente Dilma Rousseff.

As empresas privadas brasileiras confirmam, mais uma vez, que sobrevivem à custa do sacrifício do Estado, que deve prover a cidadania em todos os setores.

São crimes com apoio narrativo de grande parte do jornalismo hegemônico. Cria-se a crise; forjam-se dados, ouvem-se fontes capazes de “legitimar” os dados e depois espalham-se os dados forjados e as opiniões das fontes “especializadas”. A isso, soma-se o papel preponderante dos comentaristas e colunistas de mídia, que ocupam lugar com muito maior destaque do que o de repórteres que estão – ou deveriam estar – na investigação dos acontecimentos em primeira mão e em seus desdobramentos, em que a comprovação e o contraditório são princípios defendidos pela profissão ao longo dos últimos séculos, desde que se inseriu na vida moderna.

A assessoria de imprensa que o jornalismo das grandes empresas presta a seus acionistas, anunciantes e sócios de ideologia ocorre em todo o planeta. É a propaganda institucional e empresarial que um dia chamávamos de Jornalismo. Assim, ocorre a derrubada de governos populares com projetos de inclusão social. Ora com o discurso midiático de apoio a derrubadas; ora com golpes via Parlamento – que não representa no Brasil sequer valores clássicos da Democracia-; ora com a aniquilação de populações, como os crimes históricos dos Estados Unidos, que de primeiro de janeiro a 31 de dezembro de qualquer ano saem a matar centenas de milhares de pessoas planeta afora… E com clara influência no golpe contra Dilma Rousseff.

As empresas jornalísticas são compradas e/ou há investimento em novas empresas jornalísticas não para se fazer jornalismo, não para auxiliar a população a tomar uma decisão consciente… Mas para ter um meio de propor discursos legitimadores aos negócios que se quer fazer, aos projetos que se quer aprovar, aos comportamentos que se quer ver… Tal conduta não tem mais nada a ver com o jornalismo e com a liberdade de expressão e de imprensa como princípio. Controvérsia pública sobre temas relevantes tornou-se uma ficção.

Interesses particulares

Há mais de 30 anos, em 1986, o especialista em compras de Wall Street, Christopher Shaw, palestrava para empresários e aconselhava a comprarem ações de empresas jornalísticas, tanto pelo lucro que viriam a ter como pela influência que exerceriam a partir da cobertura dos acontecimentos e das narrativas sobre o que se passava, conforme relato e estudo sobre tendências feitos por Ben Baghdikian no livro O monopólio da mídia. De lá para cá, acentuou-se uma tendência do capitalismo e que envolveu praticamente todo o jornalismo: os benefícios pessoais e empresariais ficaram muito acima dos princípios jornalísticos, os quais, esses últimos, mantêm-se como pirotecnia moral e como referência para defesas jurídicas que, no fundo, escondem as intenções privadas.

A fusão e/ou sociedade de empresas da mídia com as de outros ramos resulta na era dos conglomerados que se estruturam acima das Nações e, em cada uma delas, associam-se a esquemas que envolvem Judiciário, Parlamento, indústria farmacêutica, igreja, agronegócio, indústrias de quaisquer outros ramos, e por aí vai. O Jornalismo tornou-se refém – e também cúmplice – de tantos interesses particulares travestidos de interesse público e que aniquilam projetos de inclusão social e mínima igualdade entre cidadãos, como os de acesso qualitativo à Saúde e à Educação. Esses, só se derem lucro, mas os conteúdos e cuidados correspondem às circunstâncias do lucro e rentabilidade. Os rentistas estão por toda a parte e, embora sejam minoria numérica, detêm o Poder real da Economia que se reflete na Política, inclusive no voto.

A dívida não paga à Previdência, a sonegação de impostos à Receita Federal e outros crimes tornam-se a outra face da mesma moeda, que inclui a troca de favores e a garantia para os seus… os amigos, os sócios… Eles estão na empresa jornalística amiga, sócia e proprietária também de empresas de armamento, de transporte, de agronegócio, de telecomunicações, de automóveis, de construtoras, de serviços, de shopping centers, de clubes de futebol e de outros esportes, de museus de arte, de editoras… Uma realidade brasileira e planetária…

No Brasil – revistas, jornais, portais, televisões, rádios… – atuam contra governos que precisam ser derrubados não mais com aparato bélico ou golpe militar, mas com um discurso “legitimador” que tem na imprensa o melhor dos assessores de imprensa, no sentido pior que a função tem, de eliminar as más notícias e turbinar as boas, ainda que falsas, dependendo de quem ocupa os cargos.

Agora a palavra é “corrupção”… Mas só a dos outros. Contra os outros, a corrupção impede a governabilidade; contra si, a corrupção, mesmo existindo, pode continuar, desde que com governabilidade. Uma harmonia e tanto entre os Poderes e contra os sem Poder. A falência da capacidade argumentativa na democracia tem, no outro lado, uma democracia que é só uma palavra e que nada mais tem a ver com a vida real do cidadão que sofre na pele a perda da existência.

Parece-me que, sem um movimento popular massivo organizado, com direção política e clareza de finalidades, não se sairá de uma crise institucional forjada e que possa reverter o crime de lesa-pátria a que o Brasil está submetido. E sem um projeto que inclua regulação econômica da mídia e resposta aos crimes de acusação sem prova, não será possível a realização de um projeto inclusivo de Nação e sequer a possibilidade do Jornalismo como estimulador da vitalidade democrática, constituindo-se, apenas, na grande mídia, um de seus criminosos apêndices contra a própria democracia.

Referência Bibliográfica
Baghdikian, Ben. O monopólio da mídia. Tradução de Maristela M. de Faria Ribeiro. São Paulo, Scritta, 1993.

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