Siliana Dalla Costa
Mestranda em Jornalismo no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

O atentado terrorista ocorrido no sábado, dia 14 de outubro, na Somália – país africano que faz fronteira com outros países como Quênia, Iémen e Etiópia – deixou mais de 350 pessoas mortas após uma dupla explosão com caminhão-bomba. Mesmo sendo considerado o pior atentado terrorista da história do país, muitos questionamentos foram levantados, não só entorno da noticiabilidade do fato jornalístico, mas da falta de alteridade para com as vítimas.

O ocorrido tem valor-notícia suficiente para entrar no plantão de telejornais, ser motivo de deslocamento de correspondentes, mobilizar fotógrafos e estar no topo das manchetes dos jornais. Sua improbabilidade e singularidade como evento (RODRIGUES, 1993; GENRO FILHO, 1987) é carregado de noticiabilidade e serve de gatilho para pauta de interesse geral (MARTINS, 2017).

Entretanto, o que vimos foi um barulho isolado nas redes sociais feito por usuários anônimos, o que reduz o poder de mobilização do coletivo diante de uma causa. Textos chamando a atenção para isso chegaram a ser divulgados. O site Justificando publicou uma abordagem do jornalista Gabriel Gaspar questionando: Por que não somos todos Somália? em alusão a falta de alteridade para com o povo africano. Por outro lado, a grande imprensa, que tem o poder de mobilizar e de interferir na opinião pública, foi tomada de silêncio. A Revista Fórum tentou quebrar esse silêncio ao apontar a dificuldade da mídia tradicional de levantar questões envolvendo países periféricos e, assim, torna-las noticiáveis.

Entretanto, a problemática maior está na dependência da mídia tradicional brasileira por informações vindas de agências internacionais, especialmente das agências hegemônicas com vínculo econômico, político e social estreito com países centrais, que pode ter  influenciado e limitado a cobertura. Se observarmos a página pública da Reuters Brasil, do dia 14 de outubro, data do atentado, até o dia 20, é possível encontrar apenas três publicações referentes à Somália. Em todos os casos são notas atualizando o número de mortos. Só na última, publicada no dia 20, há uma imagem feita por profissional da agência. No link de busca de outra agência, a Associated Press (AP), nenhuma menção ao ocorrido na Somália pode ser lida de forma gratuita. A agência Agence France-Presse (AFP) da mesma forma. Apenas o Twitter da AFP Brasil (@AFPBrasil) do dia 20 de outubro traz uma publicação sobre as orações no local do atentado.

Coincidência ou não, o que se viu na grande mídia brasileira é reflexo do que foi publicado pelas agências. A Folha de S. Paulo, por exemplo, traz três publicações sobre o atentado na Somália. A primeira matéria, com informações de agências, simplesmente noticiou o ocorrido; a segunda, da BBC Brasil, relata o drama dos atingidos e, a terceira, faz uma análise sobre a instabilidade no país, como que uma tentativa de trazer algo novo e noticiável, entretanto, vazio de informações.

Se comparado com outros eventos, fica ainda mais claro que a grande mídia brasileira é guiada por agências noticiosas, ou seja, atua conforme interesses externos. No caso do atirador de Las Vegas, por exemplo, onde 58 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas, além de a cobertura ter ocorrido simultaneamente, inclusive com plantão de hora em hora e ampla cobertura nos telejornais da Globo, as notícias e informações persistiram por dias. O jornal O Globo, por exemplo, continua a cobrir desdobramentos do caso 17 dias após o ocorrido.

No caso da Somália, das seis notícias publicadas pelo mesmo O Globo até o dia 20 de outubro, três são atualizando o número de mortos, como que numa tentativa de não perder a contagem ou, então, para dar importância simplesmente pelo número de mortes. Outra notícia publicada relata uma manifestação pela paz na Somália e outra sobre ações dos Estados Unidos com drones. E, o que é mais intrigante, uma sexta reportagem fala justamente sobre a cobrança feita por  internautas  nas redes sociais sobre a falta de comoção mundial diante do ocorrido na Somália. Assim, a reportagem é uma clara “mea-culpa” que o jornal faz por não dar a noticiabilidade devida ao ocorrido.

Oras, se muito do conhecimento que temos de mundo é construído pelo que vemos na mídia, a cobertura de O Globo e da Folha de S. Paulo sobre a Somália é um exemplo claro de que a imprensa, na dependência de conteúdos originários de agências noticiosas, tem interferido e guiado nossa visão de mundo para uma falta de alteridade e de empatia para com os países periféricos, em detrimento de países centrais.

Assim, há que se advertir que a cobertura de temas ocorridos em países considerados de terceiro mundo não cumpre com a concepção de alteridade como uma abertura à ‘totalidade’ e ao ‘infinito’, seguindo princípios da ética para com o outro de forma equilibrada entre países centrais e periféricos. Pelo contrário, quanto mais frequentes os fatos e acontecimentos jornalísticos em periferias, mais o exercício da empatia tem perdido seu caráter de  noticiabilidade.

Referências

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.

RODRIGUES, Adriano. O acontecimento. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões teóricas e histórias. Lisboa: Vega, 1993.

SILVA, Luiz Martins. O jornalismo de trauma e o trauma do jornalismo. Panorama, Goiânia, v. 7, n.1, p. 17-20, 2017.

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