Juliana Rosas
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Peço licença para usar algumas reflexões anteriores que fiz em outros meios sobre filmes que abordam o bullying. Esta palavra foi bastante utilizada esta semana, em sua maioria, no caso do adolescente que atirou contra colegas em uma escola particular de Goiânia. Bem como na última coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesariano Costa, desta vez tocando no ponto do cyberbullying contra jornalistas. Deixem-me recordar os filmes e voltarei ao jornalismo.

Há alguns anos, após assistir ao filme “Em um mundo melhor” (Hævnen/Dinamarca/2010), recordei-me de outra produção escandinava, “Deixa ela entrar” (Lat Den Rätte Komma In/Suécia/2008). Há duas semelhanças principais entre as obras: são de países nórdicos vizinhos (Dinamarca e Suécia) e retratam o bullying entre pré-adolescentes – assunto entremeado a seus respectivos enredos.

Voltei a lembrar desse tema que já esteve tão em moda e ainda gera polêmica. Depois de ver “Deixa ela entrar”, fiquei espantada com o aspecto do bullying, especialmente em um país dito civilizado. “Em um mundo melhor” me trouxe o mesmo questionamento. Ouvi, de pessoas diferentes, tanto à época como agora, coisas do tipo: “adolescentes são assim mesmo” ou “são assim em qualquer lugar”. As obras, à parte essas supracitadas semelhanças, são bem distintas. Aqui, falarei apenas sobre o aspecto em comum que me chamou atenção.

Algumas das afirmações sobre o bullying é que este sempre existiu. Apenas reapareceu com nova roupagem – o cyberbullying, por exemplo – e com esta recente e estrangeira denominação. Certa vez, em uma palestra de um professor universitário, este comentou que “demos esse estrangeirismo para tal prática, que nada mais é do que a violência escolar”. Sim, pois apesar de o substantivo bully em inglês se referir a alguém que importuna, usamos bullying nessa conjunção específica de brigas, cerceamentos e ameaças dentro do ambiente de ensino. Práticas semelhantes em ambientes distintos, como no trabalho, por exemplo, as chamamos de assédio moral, sexual, ou o que convier.

“Deixa ela entrar”, lançado no Brasil em 2009, ficou bem conhecido, à época, por se tratar, também, de um filme sobre vampiros. E a onda vampiresca, advinda da “Saga Crepúsculo”, estava em voga. Claro que “Deixa ela entrar”, justamente por ser sueco, não é o besteirol escancarado, nem a vampiraria tradicional que estamos acostumados a ver. É um filme mais decente, bem feito e com enredo mais bem construído. Há pré-adolescentes como protagonistas e retrata com sinceridade atos de violência escolar de um aluno vítima de bullying. Tudo isso na civilizada Suécia.

Conheci um sueco numa das viagens que fiz e ele me recomendou esse filme. Após assisti-lo, fiquei espantada com o aspecto do bullying. Eu tinha ouvido falar apenas que era um filme sobre vampiros. Então, fui conversar com meu amigo nórdico. Perguntei-lhe se o bullying era de fato comum na Suécia, dada a conhecida civilidade escandinava. Ele disse que sim, era muito comum. Espantei-me ainda mais com o “muito”. Insisti no assunto, “mas como assim, se conhecemos os suecos como civilizados, etc, etc…?”. Peter me respondeu: “Sim, os suecos são civilizados, são conhecidos por serem pacíficos e não gostam de se envolver em brigas. Mas crianças são crianças.” De fato.

Crianças são crianças e crianças podem ser más. Este é um fato que muitos adultos tendem a não querer reconhecer. “Não é fácil para a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”, diz Fábio Barbirato, chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Ele explica na revista Época que a criança ou adolescente que tem essa patologia pode se transformar, na vida adulta, em alguém com a personalidade antissocial.

“Um obstáculo para o tratamento de crianças com sinais de transtorno de conduta é o próprio tabu da maldade infantil. O senso comum afirma que as crianças são inocentes – uma crença que resulta da evolução histórica da família. As escolas, porém, desmentem isso: elas costumam ser o palco diário das maldades das crianças com transtorno de conduta. A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best-seller “Mentes Perigosas”, diz que crianças e adolescentes com esse distúrbio costumam estar por trás dos casos mais graves de bullying”, diz um trecho da reportagem da Tribuna de Ituverava de 16/04/2010.

Em 2009, na novela “Viver a Vida”, escrita por Manoel Carlos, havia uma criança má na trama. No decorrer dos capítulos, à medida que aumentava a maldade da personagem mirim, o Ministério Público do Rio de Janeiro começou a acompanhar de perto Rafaela (a personagem) e suas atitudes desagradaram à Justiça. Tanto que o autor do folhetim chegou a ser notificado. No documento, um pedido para que ele tivesse “cuidado ao elaborar a personalidade de personagens cujos atores são menores de idade”. O Ministério Público considerou a personagem pouco adequada: criança, aparentemente, não pode ser vilã.

Que o digam os personagens de “Em um mundo melhor”, ganhador do Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro e cujo título original (Hævnen) pode ser traduzido como “Vingança”. Embora a vingança permeie as ações de vários personagens (em especial o das crianças), os adultos (sobretudo os professores) que não sabem lidar com o bullying e mau comportamento desses jovens, querem transferir para os pais e outros adultos a responsabilidade e justificativa das mazelas dos adolescentes.

No cinema, é longa a lista de crianças agressoras, possuídas, endemoniadas, psicóticas, bullies ou simplesmente más. A tevê e a sociedade tradicional ainda querem acreditar na candura infantil. O cinema nunca acreditou na inocência das crianças.

Caça às bruxas

“A caça” (Jagten, 2012, Dinamarca), outra película nórdica, toca num assunto interessante a se discutir: a inocência infantil. Por que ainda acreditamos na ingenuidade das crianças? No filme, um amigo de Lucas – personagem principal, interpretado pelo excelente ator Mads Mikkelsen – à certa hora afirma: “As crianças inventam muito. Detalhes que não existem. Não sei se é a imaginação, se falam como seus amigos ou seus pais. Sempre partimos do princípio que as crianças não mentem. Infelizmente, elas mentem muito”.

Custa-me a compreender como o princípio da candura e inocência infantil alastrou-se tanto em tão pouco tempo. Estou aqui escrevendo um texto e manifestando minha opinião sobre um assunto e determinado ponto de vista, obviamente. Não deveria ter que me justificar, mas aqui vai: não odeio crianças. Já falei diversas vezes que se tivesse filhas e alguém as violentasse, minha vontade seria fazer justiça com as próprias mãos. Acho a pedofilia e qualquer modo de abuso sexual, com qualquer um, algo abominável. Porém, estou aqui tentando fazer uma trajetória histórica, falar sobre justiça e tentar afastar o lado pessoal.

A infância é uma “descoberta” recente. Até o século XIX, a criança era considerada um pequeno adulto. Reis poderiam ascender ao trono mesmo aos cinco anos. Veja o exemplo do Dom Pedro II, no Brasil. Ok, ele tinha um tutor. Mas, mesmo assim, foi coroado. Acreditava-se que as crianças eram adultos num corpo pequeno. Não lhe eram poupados trabalhos corporais ou conversas de adultos. Essa construção da infância como uma fase “especial” é recente.

Mesmo recente, arraigou-se tanto, que nos sentimos transtornados em ver a inocência devastada. Pensem bem: os direitos feministas, étnicos e homoafetivos também são uma conquista recente e nem por isso foram absorvidos pela maioria das sociedades. Apesar das lutas e direitos, o preconceito ainda é enorme. Por que a candura infantil foi reificada e o respeito às mulheres não? Ou aos negros? Ou aos homossexuais?

No filme, mesmo provando sua inocência, Lucas sofre perseguição e desconfiança. Mas na mentira de Klara, a criança, nunca se pensou em desconfiar. É politicamente incorreto não gostar de crianças. Mas bater em mulheres ou ser racista, é muitas vezes aceitável. E a homofobia é incentivada em alguns segmentos. Por que elegemos alguns valores e outros não?

A caça às bruxas está presente em qualquer forma de “deslocamento” de emoções, culpas, comportamentos. Quando a sociedade tenta encontrar culpados de qualquer maneira. A pior forma deste comportamento é o linchamento público. Que, em tempos contemporâneos, pode ser feito na ágora virtual. É do que trata a última coluna da ombudsman da Folha. Ela afirma que o apresentador Danilo Gentili iniciou no Twitter uma espécie de cyberbullying contra o ex-repórter da Folha, Diego Bargas, demitido após a publicação da matéria sobre o filme de Gentili. Na entrevista com o apresentador sobre a produção, segundo a coluna, este se mostrou desconfortável com as perguntas e o jornalista sai-se mal em seu desempenho profissional, demonstrando confusão e insegurança.

Também no último domingo (22), o mesmo jornal trouxe uma reportagem que retratava a falta de mapeamento sobre o bullying escolar no país. Na última sexta-feira (20), um estudante de 14 anos atirou contra colegas em uma escola de Goiânia. O adolescente afirmava ser vítima de bullying.

Diz a reportagem: “Mesmo que parcial, os dados indicam um cenário preocupante da escola como reprodutora da violência social, mas também produtora de uma violência particular. Quatro em cada dez estudantes (do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do médio) afirmaram já terem sofrido violência física ou verbal dentro da escola no último ano. Em 65% dos casos, o agressor foi um colega –15% assumem já ter cometido alguma violência. Um quarto das agressões relatadas ocorreram dentro da sala de aula. Sem uma sistematização dos desafios, as escolas têm dificuldade de lidar com desafios de violência e bullying -uma sequência contínua de ataques. ‘A escola está muito ligada no ensino e aprendizagem e não olha corretamente para isso. Não consegue detectar inclusive casos extremos como esse’”.

Já para o psicoterapeuta Jordan Campos, o motivo do crime não foi bullying e fez tal afirmativa em sua rede social. Bullying é o resultado de um abuso persistente na forma de violência física ou psicológica a uma outra pessoa. Bullying não é a piada sem graça, a ofensa solta ou uma provocação por conta do odor resultante da falta de desodorante por quatro dias, que foi exatamente o “caso” do adolescente que matou seus colegas. O motivo pelo qual o jovem assassinou seus colegas é um conjunto de fatores na formação de sua personalidade sob responsabilidade de seus pais. (…) Por mais espantoso que possa ser, desculpem mídia e pseudo-sábios filósofos contemporâneos – o garoto matou porque tinha na sua formação de personalidade uma espécie de autorização para fazer! A identidade deste jovem de 14 anos estava formada em um alicerce que permitia isso. Ele provavelmente iria fazer isso logo logo… Na escola, com o vizinho, na briga de trânsito ou com a namorada que terminasse com ele, e isso nada tem a ver com bullying. Se quem sofresse bullying fosse um potencial assassino a humanidade estava extinta. Mata-se muito por traições, brigas de trânsito, desavenças de trabalho, machismo, homofobia… Mas não por bullying. Do contrário – é muito mais provável um suicídio, depressão, implosão.”

O que isso quer dizer? Precisamos ter cuidado com temas polêmicos. A mídia, além de retratar as notícias, procura maneiras (baseadas ou não em especialistas) para tentar elucidar os acontecimentos. Num dos casos, o bullying pode não ser a (única) justificativa. E se for, crianças e adolescentes devem receber educação direcionada a fim de evitar casos assim. Crianças e adolescentes, assim como adultos, têm percepção de mundo, podem ser doces, alegres, gentis, más e até criminosas.

Já na esfera adulta, profissional e cibernética, o bullying continua a fazer vítimas diariamente. Antes de acabar com reputações e empregos, o bullying deve ser combatido. Assim como o mau jornalismo.

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