Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Da tríade dos assuntos considerados polêmicos, daqueles em que nas reuniões familiares sempre alguém irá dizer que “isso não se discute”, o jornalismo tem se ocupado com muita frequência da política e do futebol. Pudera: é seu papel e sua função histórica não fugir de confrontos e contorná-los como forma de contribuir com o debate público.

Mas e quando o assunto é religião? Será que lidar com crenças é como lidar com as paixões que mobilizam um Fla-Flu ou uma corrida eleitoral acirrada? É possível ao jornalismo estabelecer uma cobertura sobre diferentes manifestações religiosas, suas datas, suas crenças e, mais além, seus dogmas e mitos?

Há exemplos que mostram que sim e que apontam para uma apreciação antropológica, sociológica,  cultural e política de fenômenos que integram o cotidiano dos leitores. Nesses casos, o jornalismo se faz útil não só para os fiéis, que podem se aprofundar em assuntos dos seus interesses, mas até para os leitores céticos, que sabem o papel da religião e principalmente das igrejas na estrutura social.

São casos em que o jornalismo se manifesta como uma forma de conhecimento cristalizada no singular, conforme teorizou Adelmo Genro Filho em O Segredo da Pirâmide. O leitor é convidado a saber, a conhecer e a desvendar aquilo que é apresentado como um acontecimento factual, singular. Mais do que isso: ao ser chamado a refletir sobre um dos assuntos que mais interessam à humanidade, torna-se apto participar do debate público acionando um repertório para além daquele que adquiriu em contato com a fé ou nas aulas de edução religiosa.

Um caderno e uma Reforma

A Folha de São Paulo usou um marco – os 500 anos da reforma protestante, liderada por Martinho Lutero como crítica ao papado e a determinados preceitos católicos – para debater um assunto que não costuma ser agendado com frequência. O caderno especial circulou na edição deste domingo.

O periódico trouxe um trabalho bastante completo, apontando para questões relacionadas à cultura e à história, como o papel da mulher de Lutero no movimento; passando por um debate sobre as diferenças entre católicos e protestantes e chegando a duas pautas urgentes: a que discute o avanço das igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal e a emergência de bancadas evangélicas no Legislativo.

O jornal também traz pesquisas do Instituto Datafolha sobre o perfil religioso do brasileiro e visita a cidade mais evangélica do Brasil, um pequeno município no interior do Rio Grande do Sul. Há fartos recursos visuais, como infográficos e um ensaio fotográfico realizado em cultos religiosos. Há, também, uma discussão teológica e filosófica sobre as críticas de Lutero ao “Aristotelismo”.

O caderno é exemplar no que se refere à abrangência e complexidade que uma pauta como estas exige. Ao trabalhar com um assunto que mobiliza crenças e paixões, simplificá-lo ou polemizar em torno dele em busca de cliques é a tarefa mais fácil – e muitas vezes é a escolha de grandes jornais. Desmembrar o assunto em pautas que optem por complexificar o fenômeno, trazendo dados novos e interpretações plurais exige tempo e árduo trabalho de reportagem.

Em outra ponta, o Diário Catarinense investiu no localismo, ao apontar para a formação da identidade cultural catarinense a partir da influência do luteranismo. Trata-se de uma abordagem cultural e sócio-histórica original que não deixa de discutir questões atuais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os exemplos mostram uma dimensão do jornalismo que pode impulsionar a formação de um leitor crítico a respeito do mundo que o cerca, resgatando sua função original, tão em desuso em tempos de notícias caça-cliques.

Factualidade e enviesamentos

As diferentes manifestações religiosas também podem ocupar com bastante frequência a cobertura noticiosa por outros motivos que não suas datas ou particularidades. O agendamento, que costuma ocorrer próximo a festividades como Natal, Páscoa, celebração de padroeiros ou marcos como a Reforma, pode ser subvertido por factualidades que retratam um momento de ascensão do conservadorismo e da onda de intolerância no país.

Há casos clássicos de quando a religião enviesa o debate público partindo do pressuposto de que seu sistema de crenças e símbolos é mais importante do que qualquer discussão. A legalização do aborto é um bom exemplo nesse sentido, pois, ao deixar de ser tratado como uma questão de saúde pública, o tema passa a ser julgado e debatido pelo crivo da moral, fazendo emergir uma tensão entre ciência e religião que não escapa à cobertura jornalística, que não pode e nem deve ser pautada a partir de dogmas.

Recentemente, a religião também encontrou as páginas policiais a partir de fatos ocorridos no Rio de Janeiro, onde mães de santo foram obrigadas a destruir seus terreiros. É outro caso extremo de intolerância, que fere os direitos humanos e obriga os jornais a tomarem uma posição em defesa da liberdade de crença que é garantida pela constituição.

Também nesse aspecto, foram inúmeras as manifestações que apelavam à fé e à moral cristã para discutir o cancelamento de uma exposição Queer em Porto Alegre. A mesma exposição foi proibida de ir para o Rio de Janeiro por ordem do prefeito, evangélico e eleito com o apoio de igrejas neopentecostais.

Como no debate sobre aborto e sobre a destruição dos terreiros no RJ, estamos falando de fatos que se tornaram pauta jornalística pela sua singularidade, mas que muitas vezes deixam de ser trabalhados com a seriedade e a complexidade que o assunto exigiria. Transformam-se, deste modo, em mais um objeto de enquetes sobre ser contra ou a favor, em mais um caça-cliques gerador de polêmicas nas redes sociais. Anula-se, assim, sua potência como forma de conhecimento.

Um caminho para as coberturas 

Três palavras podem ser chaves para nortear a cobertura jornalística quando o assunto é religião. Estamos falando, aqui, de princípios básicos que devem estar no manual de ética de qualquer repórter, esteja ele em qual editoria estiver.

É salutar reconhecer que as audiências são formadas por um mosaico cultural complexo – e que sua complexidade atinge também seus sistemas de crença. Também é inegável que repórteres e editores são agentes que compõem esse mesmo sistema. Tal pressuposto, entretanto, não pode inviabilizar a cobertura de assuntos que envolvam o tema religião, que integra nosso cotidiano de modo inegável. Os jornais não devem temer perder leitores conservadores – ao contrário, devem enfrentá-los oferecendo um repertório diversificado de pautas, de conhecimentos.

Por isso, pautas sobre religião – desde aquelas que falam de grandes marcos, como a Reforma; até aquela que tratam de festas populares; ou mesmo as que se propõe a abordagens mais profundas, políticas e antropológicas – não devem ser consideradas tabus. Ao contrário, podem ser recorrentes se conseguirem apostar em determinadas direções, dentre as quais destaco três.

– diversidade, considerando que há múltiplas manifestações e crenças possíveis na nossa cultura e que  estas podem agendar diferentes pautas, com diferentes abordagens;

– respeito, tendo em conta que aceitar a crença (ou ceticismo) do outro é um princípio básico e irrevogável de qualquer pauta;

– abrangência, pensando que fenômenos religiosos não podem e não devem ser simplificados ou relegados a polêmicas e factualidades diárias: é preciso tratá-los com a seriedade e a complexidade que exigem.

Se olharmos com cuidado, os itens indispensáveis a uma cobertura jornalística sobre religião não são nada diferentes daqueles que precisamos para viver socialmente, respeitando as diferenças e fazendo delas aliadas em direção à informação e ao conhecimento.

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