Juliana Rosas
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

“Ética não é filosofia. Ética é política.” Esta foi uma entre as várias ideias e palavras que ficaram martelando na minha cabeça durante o minicurso do professor português Carlos Camponez, da Universidade de Coimbra e em intercâmbio no POSJOR/UFSC, ocorrido neste último mês de novembro.

Nas minhas lembranças, ética sempre esteve associada à filosofia. Lembrei-me de algumas aulas de filosofia em universidades americanas a que assisti transmitidas pelo canal Philos TV. Antes ou após explanar sobre as ideias de grandes filósofos, o professor trazia exemplos do que vou chamar aqui de “sinuca de bico ético-filosófica”. Uma delas era a seguinte: um maquinista de trem em movimento e lotado de passageiros recebe a informação de que o caminho que deveria seguir foi interrompido. Também lhe é informado que, para não provocar o acidente fatal, ele poderá alterar a rota. Entretanto, nesta nova rota, há alguns homens trabalhando nos trilhos. Em resumo, eis a sinuca ética: mudar a rota e matar alguns homens ou seguir o destino fatal que irá matar todas as centenas de passageiros no trem. A moral filosófica seria: é ético sacrificar a vida de alguns poucos para salvar a maioria?

Cena de “O jogo da imitação”, com Benedict Cumberbatch e Keira Knightley.

Aí que me dei conta. De fato, o caso, aplicado a vários outros, é uma questão política. Algo que vários governos já fizeram: o sacrifício de alguns para salvar milhões; o sacrifício de vários para salvar a nação. Bem como, em situações menos extremas, escolhas éticas se dão por decisões políticas ou pelo meio em que estamos.

Um símbolo exemplar desta questão está na guerra. O britânico Alan Turing (1912-1954) foi um matemático e cientista da computação. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou para a inteligência britânica num centro especializado em quebra de códigos. Planejou uma série de técnicas para quebrar os códigos alemães, incluindo o método da bomba eletromecânica, que poderia encontrar definições para a máquina “Enigma”. O filme “O Jogo da Imitação” (The Imitation Game, 2014) narra parte de sua história pessoal, entremeada a seus trabalhos de quebra de criptografia durante a Segunda Guerra. Precisões históricas à parte, a obra é excelente. No entanto, aqui não tratarei de impressões artísticas.

No filme, após Turing conseguir decodificar uma mensagem alemã durante a citada guerra, seguem-se outras importantes decisões. A felicidade do feito é seguida por tensões. Invariavelmente vem à mente a famosa frase “Com grande poder vem grande responsabilidade” (With great power comes great responsibility), famosa por aparecer na HQ “O Homem Aranha”, porém, atribuída a Voltaire e outros autores, mas de verdadeira origem desconhecida.

Eis um diálogo revelador do filme “O Jogo da Imitação”, na cena após Alan Turing e sua equipe decodificarem “Enigma”:

– Cinco pessoas no mundo sabem a posição de cada navio no Atlântico. E estão todas nesta sala.

– Meu bom Deus!

– Acho que nem Ele tem o poder que temos agora.

– Não. Haverá um ataque ao comboio britânico de passageiros. Bem ali.

– Você está certa. Os submarinos estão a 20 minutos de distância. Civis. Centenas deles. Podemos salvar suas vidas. Ligarei para Denniston, e ele alertará o almirante.

– Acha que há tempo para salvá-los?

– Deve haver, se conseguirmos… Comandante Denniston, por favor. É urgente.

– Não! Que diabos está fazendo? Não pode ligar para Denniston! Não pode contar a ele sobre o ataque!

– Do que está falando? Podemos protegê-los em 10 minutos.

– Deixe os submarinos afundarem o comboio.

– Foi um grande dia, você está em choque!

– Não temos tempo para isso!

– Não!

– Hugh, Hugh! Já chega!

– Pare!

– John, o ataque é em minutos.

– Eu estou bem. Você sabe por quê as pessoas gostam de violência, Hugh? É porque é uma sensação boa. Às vezes não podemos fazer o que nos faz sentir bem. Nós temos de fazer o que é lógico.

– O que é lógico?

– O pior momento para mentir é quando a pessoa espera que você minta.

– Meu Deus!

– O quê?

– Se alguém está esperando uma mentira, não pode… apenas dar-lhes uma.

– Droga, Alan está certo.

– O quê?

– O que os alemães achariam se destruíssemos os submarinos?

– Nada. Eles estariam mortos.

– Não. Não, você não pode estar certo.

– Então, nosso comboio de repente sai do curso, um dos nossos esquadrões bombardeiros voa miraculosamente às coordenadas dos navios deles. O que os alemães achariam?

– Os alemães saberiam que resolvemos a Enigma!

– Eles encerrarão as comunicações de rádio ao meio-dia e terão mudado o design da Enigma até o final de semana.

– Sim.

– Dois anos de trabalho!

– Tudo o que fizemos aqui será em vão.

– Há 500 civis naquele comboio. Mulheres, crianças.

– Nós os deixaremos morrer.

– Nosso trabalho não é salvar passageiros de um comboio, é vencer a guerra.

– Nosso trabalho era decifrar a Enigma.

– Mas já fizemos isso.

– Agora a parte difícil: manter em segredo.

– Carlisle…

– O quê?

– O comboio está prestes a… O HMS Carlisle é um dos navios. Se não podemos agir em cada parte da inteligência, tudo bem, não iremos. Vamos agir só neste.

– Peter, qual o problema?

– Meu irmão… Ele está no Carlisle. Um artilheiro da Marinha.

– Eu… Eu sinto muito.

– Quem você pensa que é?!

– É o meu irmão. Ele é meu irmão mais velho, e você tem tempo para impedir sua morte.

– Não podemos.

– Ele está certo.

– Alan… Joan… Hugh… John… Por favor, eu… Os alemães, eles não suspeitarão apenas porque paramos um ataque. Ninguém saberá. Estou pedindo como amigo. Por favor.

– Eu sinto muito.

– Você não é Deus, Alan! Não escolhe quem vive ou não.

– Sim, nós escolhemos.

– Por quê?

– Porque mais ninguém pode.

Dilemas éticos oferecem diversas (e angustiantes) escolhas.

Sim, bem antes do tio Ben (o personagem do Homem Aranha), Alan Turing sentiu o peso da responsabilidade. Algumas pessoas decidiram que, para ganhar a guerra, era necessário sacrificar alguns homens, mulheres, crianças, soldados, civis. Escolheram também, pouco depois, que o homem que ajudou a terminar a mais sangrenta e mortal guerra da história deveria ser punido por sua orientação sexual. Foi perdoado décadas depois pela soberana da nação britânica. Porém, somente após sua morte (um suposto suicídio), precedida por penas cruéis e humilhantes. Registre-se, mais rapidamente (#ironia) que a Igreja Católica no caso de Galileu (perdão concedido 350 anos depois). Políticas das épocas.

Como mencionou o professor Camponez em sala, se formos discorrer mais sobre ética, filosofia e política, passaríamos meses conversando. O assunto dá “pano pra manga”. Inspirados em Deus – ou apesar dele – os homens “inventaram” a ética para poder conviver. Mas, na ausência divina, o mundo é da humanidade. E ela cria suas regras, seus políticos e sua política. Pois ninguém mais o fará.

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