Rogério Christofoletti
Professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Imagine se uma das maiores empresas do Brasil confessasse ter participado de um esquemão com outras gigantes para vencer licitações de obras públicas em sete estados e Distrito Federal. Imagine ainda que não foram duas ou três disputas, mas 21 licitações em 16 anos e que o cartel tinha até nome engraçadinho: Tatu Tênis Clube. Em qualquer parte do mundo poderíamos esperar que a imprensa revelaria não apenas os nomes das empreiteiras corruptoras, mas também os valores bilionários e os responsáveis nos governos pelas ilegalidades. Acontece que os leitores dos principais jornais brasileiros ficaram apenas com parte disso, a se julgar pelas capas de O Globo, O Estado de S.Paulo, Valor Econômico e Folha de S.Paulo. Em todos eles, o escândalo do metrô virou manchete, mas apenas a Folha fez menção à gestão do PSDB de São Paulo, mas mesmo assim não deu nome aos bois. Em 19 de dezembro, os jornais não disseram quem eram os governadores no período do esquema e a imprensa blindou Geraldo Alckmin (PSDB), pré-candidato a presidente da república e o ocupante da cadeira de governador por mais tempo no período – 9 anos! -, não fazendo qualquer menção ao seu nome no escândalo. Ele teria a mesma condescendência se fosse do PT?

Em O Estado de S.Paulo, a manchete foi: Empreiteira aponta cartel no metrô de 7 estados e DF. Não há referência a nenhum partido ou político. Nenhuma. Ao lado do texto que dá suporte à manchete, uma chamada afirma que 11 das 21 licitações mencionadas pela Camargo Corrêa seriam em São Paulo e o esquema teria começado em 2001. É justamente o ano em que Geraldo Alckmin assumiu o governo do estado, após a morte de Mário Covas.

O Estadão faz contorcionismo na chamada para invisibilizar Geraldo Alckmin…

No Valor Econômico, a manchete está no rodapé da página, no lado direito: Leniência pode atingir candidatos. A chamada é burocrática e higiênica, e não lista nomes, embora informe que governadores e vice-governadores que disputarão vagas em 2018 possam ser afetados.

No Valor Econômico, o escândalo vai para o rodapé da página: o gato sobe ao telhado

Em O Globo, uma nesga de indignação com a manchete: Mais um escândalo. Governo investiga cartel no metrô em 7 estados e no DF. Mas a indignação termina ali mesmo, embora cite que o escândalo acontece “inclusive no Rio”, sede do jornal. Nenhum partido é citado, nenhum governador ou secretário de obras ou transportes é lembrado. Nem todas as cinco participantes do Tatu Tênis Clube são nominadas.

Primeira página de O Globo sofre de amnésia generalizada.

A edição paulistana do Metro veio com Sócios do Tatu Tênis Clube fraudavam obras do metrô, e chega a especificar que irregularidades teriam sido cometidas nas linhas verde e lilás na cidade. Mais uma vez nenhum agente público, que deveria responder pela área, é mencionado. Um detalhe: a primeira página faz gracinha ao estampar foto de um acidente com um trem que matou 6 pessoas e feriu outras 77 nos Estados Unidos, com a chamada Fora do Trilho. Naturalmente, o leitor vai articular as duas manchetes, mas talvez venha a pensar também que ambos os casos são acidentes…

Existe relação entre um acidente de trem nos EUA e o esquemão no metrô em SP?

A Folha de S.Paulo também vinculou foto do descarrilamento do trem nos Estados Unidos e a chamada Fora do Trilho – quanta originalidade! -, mas ao menos ofereceu ao leitor informação mais refinada sobre o esquema do metrô. A manchete foi Odebrecht confessa cartel durante gestão tucana em SP. Note que o jornal foi além dos demais, adiantando detalhes sobre obras no Rodoanel, mencionando valores na casa dos R$ 10 bilhões, indicando o PSDB e ainda vinculando às informações do acordo de leniência da Camargo Corrêa, base das manchetes dos outros jornais. A Folha só não disse quem eram os governadores no período confessado pelas empreiteiras.

Folha foi além dos demais na apuração, mas também silenciou sobre nomes.

É claro que o leitor pode argumentar que os jornais não mencionaram nomes porque se trata de delações de empresas, informações a serem investigadas e comprovadas. Sim, é verdade. Mas é verdade também que nenhuma empreiteira vai assinar acordo de leniência se não estiver envolvida em irregularidade, se não for obter vantagens ao entregar outros corruptores, e se quiser se salvar. O período sinalizado por Odebrecht e Camargo Corrêa teve governadores no comando, teve secretários assinando e acompanhando contratos, e o leitor tem todo o direito de saber quem estava no comando nessas épocas. Sejam políticos do PT, do PSDB, do PMDB…

Não é exagero quando parte da esquerda se queixa da grande mídia, acusando-a de adotar dois pesos e duas medidas. Parece haver uma predisposição muito maior de nominar o PT em manchetes de escândalo do que PMDB ou PSDB. É o que se percebe no escândalo do metrô. Nos sete estados brasileiros e Distrito Federal, no período de 1998 a 2014, quatro tucanos governaram São Paulo em quinze anos: Mario Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Alberto Goldman. Em Minas Gerais, foram três (Eduardo Azeredo, Aécio Neves e Antonio Anastasia) em doze anos. No Ceará, foram outros três (Tasso Jereissati, Beni Veras e Lúcio Alcântara) em nove anos. Os tucanos governaram o Distrito Federal e o Rio de Janeiro em curtos períodos também. Na Bahia, estiveram coligados com o PFL/DEM, que esteve no poder por nove anos entre 1998 e 2014.

A informação é vital para a tomada de decisões nas democracias e saber quem estava no comando quando as coisas não funcionaram como deveriam é estratégico e essencial. Por que os jornais blindam alguns políticos e partidos e outros não? Está aí uma pauta interessante para jornalistas investigativos. Está aí uma sugestão para que os jornais se justifiquem em seus editoriais.

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