Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora aposentada de jornalismo da UFF, pesquisadora do objETHOS

“É só a cabecinha”, costumava dizer, em épocas mais pudicas, o rapaz sedutor à incauta virgem que, iludida e deslumbrada, acabava cedendo. No minuto seguinte percebia o engodo, mas aí já era tarde.

A comparação talvez nem seja muito pertinente, considerando que nossa precária democracia cansada de guerra – como a Teresa Batista do romance de Jorge Amado – foi deflorada na origem. Mas talvez não seja exagero dizer que a intervenção federal no Rio, decretada em 16/2, seja a cabecinha de uma grande investida contra o que resta, ou restava, de esperança na recuperação do ambiente palidamente democrático que o país viveu nas últimas décadas, e que põe uma interrogação quanto à manutenção do calendário eleitoral: a ameaça à realização das eleições, ou pelo menos à manutenção das regras estabelecidas, não deixaria de ser muito coerente com a lógica das forças que se articularam para derrubar o governo e até agora não conseguiram definir uma candidatura viável para manter-se no poder.

A intervenção foi decretada em plena semana de carnaval, na véspera do desfile das escolas campeãs. Coincidentemente, o maior destaque do último carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, o “vampiro” que se espelhava na figura de Temer, não pôde voltar à pista com a faixa presidencial que caracterizava o personagem.

Poucas coisas podem ser tão ridículas quanto a censura a uma fantasia, inclusive porque a repercussão do ato amplia imensamente o alcance da sátira, mas mentalidades autoritárias jamais brilharam pela inteligência.

Matéria do jornal Extra, do Rio de Janeiro.

Seja lá de quem tenha partido a ordem, ela acabou corroborando a charge que já circulava durante a semana e ilustra este artigo: o vampiro-presidente em uniforme com a suástica, fazendo a saudação nazista.

Apesar disso, multiplicaram-se os protestos no desfile do sábado, em praticamente todas as seis escolas que voltaram à avenida, com cartazes e faixas de “Fora, Temer”, contra a prisão de Lula e contra a Rede Globo, além da contestação ao prefeito Marcelo Crivella, objeto específico de crítica do enredo da Mangueira.

Mudança de ventos?

Sensação do carnaval deste ano, a Tuiuti, uma escola pequena, obteve o vice-campeonato com um enredo que conseguiu vincular nossa tradição escravocrata de três séculos ao retrocesso brutal que o golpe nos impõe, com a “nova escravidão” representada pelas carteiras de trabalho chamuscadas e rasgadas e com o carro alegórico comandado pelo vampiro-presidente. De permeio, a ala dos “manifestoches”, montados em patos amarelos manipulados por mãos enormes, ridicularizava a multidão que foi às ruas apoiar o impeachment.

Nas redes sociais, lideranças de esquerda começaram a sugerir a possibilidade de uma mudança de ventos favorável à mobilização popular contra o governo, considerando a potência simbólica do carnaval e a empolgação que aquele enredo despertou, inclusive pela repercussão na imprensa estrangeira. Nas ruas, vários blocos repetiam slogans a favor de Lula, contra Temer e as reformas.

Ao mesmo tempo, alguns episódios levantaram suspeita. Uma faixa na entrada da Rocinha avisava ao STF: “se Lula for preso, o morro vai descer”. Bravata? Provocação? Mais suspeito ainda, na internet circulava um vídeo em que um sujeito com uma estrela vermelha no boné convocava em tom raivoso uma rebelião sangrenta diante dessa mesma hipótese.

Então, subitamente, o governo decreta intervenção no Rio, a pretexto de conter a suposta onda de violência que se teria espalhado não apenas pela cidade mas por todo o estado.

O pretexto não foi nada além disso mesmo: um pretexto, como mostram os dados do Instituto de Segurança Pública, que uma reportagem do Estadão divulgou. O próprio general interventor, Walter Souza Braga Netto, do Comando Militar do Leste, deu a entender que a situação não era tão grave assim, ao dizer que havia “muita mídia” nessa história, de acordo com o noticiário publicado nessa mesma mídia.

De fato, como notou a jornalista Hildegard Angel, a mídia – especificamente a Globo –destacou, durante a cobertura do carnaval no Rio, cenas de violência não apenas comuns nessa época do ano mas no cotidiano da cidade, e repetiu exaustivamente imagens de ataques a quem estava na praia, arrastões em túneis e até um assalto a uma idosa que havia saído pela manhã para comprar pão, flagrado por um vizinho. A cena mais forte, digamos assim, foi a de um grupo de mascarados “bate-bolas” – os tradicionais “clóvis” do subúrbio – atirando para o alto durante a noite. Quem seriam? Estariam ali apenas para produzir aquelas imagens? Como os black blocs das manifestações de 2013, ninguém explica. Estavam mascarados, afinal. Mas a cena do tiroteio garante o impacto.

Sempre será preciso ressaltar que não se trata de naturalizar e aceitar como normal esse cotidiano de violência, mas sim de colocar as coisas em sua devida perspectiva. Sobretudo quando se sabe como é possível provocar certos eventos com o objetivo de causar pânico. Deixar a galera livre para tocar o terror, ainda mais no carnaval, é receita antiga para quem deseja uma solução de força.

A criação midiática de “ondas de violência” é tema regular de estudos acadêmicos pelo mundo afora há décadas. No Brasil, bastaria indagar há quanto tempo se diz que estamos à beira do abismo. Recordemos pesquisa que O Globo encomendou em 1985, intitulada “O Rio contra o crime” – a cidade sadia contra o inimigo que vem agredi-la –, e daí em diante várias outras campanhas que alardeiam o limiar da barbárie: o “Reage, Rio” – estendido a São Paulo –, o movimento do “Basta!” e tantos outros. Fora os arrastões, já fartamente analisados pelos pesquisadores, desde o primeiro e mais midiático, em 1992, em plena campanha que opunha a “negra, mulher e favelada” Benedita da Silva (PT) a Cesar Maia (PMDB), afinal vitorioso. Todas essas mistificações estabelecem a dualidade “nós contra eles”, já tão conhecidas, tão definidoras da famosa luta de classes, que tão poucos querem reconhecer.

Nem se fale, naturalmente, do ataque à sede do governo estadual, em 2002, quando Benedita era governadora e o Palácio Guanabara foi alvejado por tiros. A força simbólica desse ato é indiscutível. Nem assim, porém, se cogitou de intervenção federal.

Cortina de fumaça

A questão está longe de ser a segurança pública, portanto. Aliás, como lembra o colunista Janio de Freitas em artigo deste domingo (18/2) na Folha de S.Paulo, “o Exército está em operações no Rio desde julho de 2017. Se, passados sete meses, quem assinou aquele envio da tropa assina, agora, a intervenção para a mesma garantia da ordem, não é preciso recorrer a números para concluir pelo insucesso do Exército”.

Mais detalhadamente, aproveitando um dos raros espaços que a mídia tradicional abre à crítica, a professora Jacqueline Muniz lembrou em entrevista na GloboNews que desde 1992, quando sediou a Conferência da ONU sobre o clima, o Rio – a cidade do Rio de Janeiro, que é o que importa, pela sua expressão internacional – “vem experimentando formas diretas e indiretas de intervenção das Forças Armadas na segurança pública”, como as mais recentes operações de GLO – “Garantia da Lei e da Ordem” – ocorridas nas comunidades da Maré, Rocinha e Salgueiro, em que o que prevalece é a teatralidade operacional e o previsível saldo trágico de violência e morte.

Testemunha do papel nefasto de anteriores ações do Exército nessa área, o repórter Marcelo Auler apontou a “péssima reprise” que a medida atual significava.

Justamente por isso, a discussão atual sobre a segurança pública não apenas se perde como acaba sendo uma cortina de fumaça que distrai a atenção do que está em jogo: menos uma saída honrosa para a incapacidade de aprovar a reforma da Previdência, como a maioria dos analistas aponta, do que a tentativa do mais impopular presidente da República de melhorar sua imagem – e, de quebra, buscar uma blindagem a si e seus parceiros, com a criação do Ministério Extraordinário de Segurança Pública e o controle das ações da Polícia Federal – e, quem sabe, apresentar-se como saída para o impasse em que as forças conservadoras se encontram, por mais absurda que possa parecer essa hipótese.

Recordemos, porém, o início do discurso em que Temer anuncia a intervenção: “o crime organizado quase tomou conta do estado do Rio de Janeiro, é uma metástase que se espalha pelo país e ameaça a tranquilidade de nosso povo”.

Nem seria necessário lembrar que, se há algum crime realmente organizado, ele estava no poder e tomou conta de verdade – e não apenas “quase” – do estado em dois mandatos, numa época em que o governador, hoje preso, era bajulado pela mídia, a ponto de aparecer sorridente na capa da revista do Globo como o “namoradinho do Rio”. Nem se diga, tampouco, que esse discurso contra o “crime organizado” é proferido por alguém contra quem pesam inúmeras evidências de corrupção, e mesmo assim se mantém na presidência. Menos ainda se considere a inadequação da metáfora, que repete a surrada imagem da sociedade como um corpo doente que precisa de tratamento: metástases não são muito compatíveis com a ideia de revitalização, pois, em princípio, não têm cura.

Mas considere-se a força do discurso de lei e ordem e o efeito que ele tradicionalmente provoca no senso comum – mesmo entre os mais pobres, justamente as maiores vítimas das medidas de exceção: como se maximiza a sensação de insegurança e se explora esse sentimento para se garantir apoio a uma solução de força, e como a mídia é decisiva nesse processo.

Se a intervenção não resultar na melhoria da imagem do governo, nada impediria avançar a ponto de se cancelar ou postergar as eleições, sob o pretexto mais palatável do momento. Especialmente diante do caos social, real ou provocado. Nunca seria demais lembrar que esta intervenção, uma medida extrema e inédita desde o restabelecimento da ordem democrática no país, é decretada no contexto de um golpe de Estado, que significa, em si, a ruptura da ordem constitucional, apesar das aparências das “instituições funcionando”. E, como deveria ser claro, quem dá um golpe, dá vários.

O mais grave, agora, como afirmou a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), é que essa intervenção abre espaço para o protagonismo dos militares, num cenário de muita incerteza. Seria precisamente a “intervenção militar constitucional” que algumas faixas pediam nas manifestações pelo impeachment (veja aqui).

Depois de pintar o quadro de caos que teria tornado “inevitável” a decisão do governo, o editorial de O Globo de 16/2 citava o prazo definido para o fim da intervenção – 31 de dezembro deste ano – e concluía: “Talvez seja pouco”.

Pode ser. Da última vez, foram 21 anos.

Gatos escaldados não devem ter as ilusões das donzelas apaixonadas.

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