Vanessa Pedro
Professora da Unisul e pesquisadora associada do objETHOS

Há nem sei quanto tempo um filme não me provocava tantas reações em pleno cinema. Ou pelo menos há tempo que eu não torcia tanto por decisões e personagens quanto ao assistir The Post: A Guerra Secreta. A ponto de olhar para os lados e ver se minhas reações ou breves comentários em voz alta não estavam incomodando ninguém a minha volta. Sou daquelas que detesta manifestações na sala escura, seja de lata de refri e menos ainda de luz de celular. Mas sim, exclamei e vibrei em diversos momentos do filme. Provavelmente por ver acontecer na tela coisas que em nenhum lugar da realidade, especialmente falando do jornalismo, temos visto acontecer. Falo exatamente da disputa com o poder e ao menos alguma relativa vitória do bom jornalismo. Já explico, mesmo tentando não dar spoilers. Apesar de todo mundo já saber da história e decidir ir ao cinema pra ver como ela está sendo contada, quem protagoniza, que discurso prepondera e como essa área já tão incensada e hoje tão entregue às baratas aparece na história de Steven Spielberg. Pra deixar bem claro, gostei muito do filme.

Gostei basicamente por dois motivos, que foram os que me fizeram torcer, exclamar e cuidar pra não atrapalhar o vizinho de cinema. O filme aposta todas as suas fichas no jornalismo, e vemos ressuscitar na narrativa uma vertigem, uma profissão que se constrói numa mistura de desejo, de sair da zona de conforto, ser negócio e ainda lidar com os imponderáveis da realidade concreta. Mais que isso, e aí vai meu segundo motivo, a história se concentra na disputa pelo e com o poder. Bom, um terceiro tema ainda vou somar aos dois primeiros, pra explicar mais no fim da minha análise, é a constelação de mulheres que de fato conduzem a narrativa. É um filme de mulheres, personagens complexas que dão estofo ao filme e o tornam realmente bom. Então, vou falar desses três temas. Jornalismo, poder e gênero. Minha análise é sobretudo a respeito das escolhas que o filme faz e as que não faz.

Primeiro a que escolhe não fazer. O filme não se perde nas recepções na sociedade das reportagens sobre o relatório que prova que os sucessivos presidentes norte-americanos sabiam que os Estados Unidos perderiam a guerra e o quanto eles insistiram em aumentar a presença militar, matando americanos (nesse caso, pra eles é o que interessa), mesmo sabendo que seria em vão. A narrativa não explora a eficiência da imprensa em mudar o mundo, embora deixe claro que faz toda a diferença para a História e para a vida das pessoas a presença e a atuação do bom jornalismo. Talvez porque, na História, o resultado diante da sociedade não tenha sido o esperado, apesar da publicação de um relatório de milhares de páginas, da absolvição na Suprema Corte dos jornais que publicaram os papéis e da bomba de informação que significou os Pentagon Papers. Nixon conseguiu apaziguar momentaneamente o escândalo, convencendo a sociedade de que as medidas oficiais não tinham sido aquele fracasso todo nem a continuação da guerra por vários governos, e foi reeleito em 1971. Isto não está no filme, mas em um dado momento, no final, a dona do jornal, Katherine Graham, faz outra consideração quase de que “a luta continua”. De que, apesar do esforço, o jornal seguinte tinha que sair e que, afinal, continuar e seguir em frente era do que se tratava o jornalismo. Com efeito imediato ou não. “O jornalismo é o rascunho da História”, como ela diz, citando o marido morto, executivo à frente do jornal antes dela. Para o bem ou para o mal é isso mesmo. O diretor do filme deixa muito claro, e até óbvio, mesmo que brevemente, o link entre os vazamentos do Vietnã com os vazamentos de Watergate, que afinal derrubam Nixon. No escândalo, o Washington Post estará envolvido novamente, agora não mais como um jornal regional, mas já alçado à categoria de um New York Times. E, desta vez, Nixon não tem saída a não ser renunciar, adiantando um processo de impeachment que já estava instalado.

Jornalismo na frente

Agora, deixo o que o filme não é para tratar da escolha que mostra e precisamente o que me fez virar na cadeira o tempo todo. A narrativa se mantém na disputa com o poder através da produção da cobertura jornalística. É na disputa que se concentra a história e aí comemoro que o diretor tenha se concentrado muito mais no jornalismo do que na figura do pacifista ex-militar que vazou os documentos. O filme dá o devido crédito a Daniel Ellsberg, o Edward Snowden da Guerra do Vietnã e dos McNamara Papers, deixando claro o tamanho da coragem de um cara que teve que fotocopiar milhares de páginas na calada da noite, tirando os documentos de uma empresa terceirizada que guardava uma cópia de segurança (que ironia) do relatório que denunciava os presidentes. Além do filme abrir com cenas do Vietnã e a presença do soldado Dan no front, toda uma sequência é dedicada a mostrar o papel fundamental de Ellsberg. No motel de beira de estrada onde o repórter do Post vai encontrá-lo, o diretor dá uma explicação inteira na fala da própria personagem que resume o relatório, numa espécie de resumo do processo todo caso alguém tenha alguma dificuldade de compreensão sobre as intenções dos presidentes, das consequências para a guerra e do impacto do relatório.

A imagem desta cena também mostra o tamanho do esforço de Ellsberg quando vemos os volumes ocuparem o quarto todo do motel. Por fim, as duas personagens discutem sobre o que é ter coragem, o que se arrisca com a atitude de copiar e divulgar os papeis e da prisão que cada um estará sujeito como consequência do ato de um e de outro. Mesmo assim concluem que valeria a pena o risco para acabar com a guerra. O ativista e ex-militar tem certeza disso. O repórter inicialmente não vê tanta relação entre a sua atitute e sua produção com o fim da guerra nem com a prisão em si. Até que Ellsberg, de novo, dá a explicação depois de perguntar se o repórter estaria disposto a publicar o vazamento mesmo depois do processo que já, naquele momento do filme, impedia que o New York Times continuasse a publicar as revelações do relatório McNamara. Ellsberg ainda aparece novamente no filme, de traje formal e na TV, falando sobre as consequências das revelações, mesmo que não assuma papel importante para a narrativa desse ponto em diante. O jornalista e professor Rogério Christofoletti faz uma análise mais detalhada sobre a aparição e a importância da personagem de Daniel Ellsberg, e vale mais a pena acompanhar pelo texto dele porque não vou me deter nesta análise.

Gostei da preferência do diretor pelo jornalismo porque amplia a capacidade de analisar como se articulam num mesmo processo ações individuais e construções coletivas. Ao colocar seu foco no jornalismo, mais especificamente nas disputas com o poder, nas potencialidades e impossibilidades da produção e na capacidade de jornalismo e do jornalista de narrar uma história, Spielberg alcança ações individuais como as decisões da dona do jornal, do presidente, do editor, de cada repórter mas também nos conduz por como a estrutura funciona ou é impedida de funcionar. O individual e o coletivo se articulam. Diferente do que seria uma história centrada demais nas decisões e na importância de uma figura, tanto fazia que fosse Dan Ellsberg ou Robert McNamara. O filme correria o risco de contar a história de uma pessoa e suas decisões individuais. Embora muitos indivíduos tenham sido fundamentais para esta história, tanto para contá-la quanto para impedir que ela fosse contada, e Kay Graham é a central neste quesito e no filme, a narrativa jornalística assume o papel de personagem principal e ficamos pensando que essa atividade e espaço de construção da narrativa social e da realidade foi fundamental para dar sentido, visibilidade e importância a uma montanha de folhas sem numeração, cheias de informações e a um relatório feito para ficar para a posteridade e endereçado a pesquisadores que quisessem contar o passado.

O jornalismo e a disputa são os protagonistas. E é essa a energia que corre no telão e que toca o espectador, pelo menos para quem é da área ou no meu caso em particular. Não sei se foi esse sentimento pra todo mundo. Mas toda a questão está no conceito de jornalismo, em como e para que ele é feito, o quanto depende do jornalista os temas que ele escolhe ou é designado a abordar, até onde ir por uma informação e quais informações são importantes para a sociedade. E tudo que eu ainda disser aqui sobre os temas do filme e a relação desses temas com o jornalismo vai passar necessariamente por uma disputa. De visão de mundo, de lugar social onde se está inserido, sobre as formas de poder: político, econômico e de gênero. A disputa permeia o filme e é essa disputa que engaja a audiência. É nela que vemos as personagens sendo construídas, se modificarem, ganharem estrutura mais complexa e nos tomarem para irmos com elas ao longo da narrativa. Os acionistas e a entrada do jornal na Bolsa de Valores norte-americana, abrindo seu capital e arriscando não ser mais uma empresa familiar. A disputa inicial sobre como cobrir o casamento da filha do presidente, debatendo, antes mesmo dos papeis sobre a Guerra aparecer, como o evento e as crítica ao presidente poderiam prejudicar as relações do jornal com a Casa Branca. Uma prévia, com um tema quase de coluna social, sobre o que realmente significaria colocar em risco tanto as relações com o poder central estatal quanto a função do próprio jornal. A personagem de Meryl Streep encarna essa jornada da disputa em diversos sentidos. Será que é necessário comentar sobre o desempenho de Streep ainda ou é chover no molhado? Brilhante, eu apenas diria. Ela faz a disputa dentro de si mesma sobretudo e isso fica evidente ao longo do filme todo. Ela mesma cumpre a jornada do herói, enfrentando suas questões pelo caminho, que têm expressão externa mas que são antes de tudo, questões internas e que provocam no herói, neste caso na heroína, quando solucionadas ou ao menos enfrentadas, empoderamento, complexidade, profundidade e mesmo sabedoria.

O poder econômico, na pele dos investidores e também dos membros da diretoria do jornal, dominam a cena nas disputas do preço das ações do jornal ao serem lançadas na Bolsa de Valores. Na dúvida sobre se a família conseguiria continuar bancando o jornal ou se a abertura das ações era inevitável e levaria a perde de controle acionário. Termina sendo a saída da empresa mas a disputa se altera ao longo da narrativa, pendendo dos investidores para a dona do jornal, a Kay Graham de Meryl Streep. Em paralelo à trama do vazamento começa a se desenrolar ainda longe do Washington Post. A câmera de Spielberg dança pelas páginas do relatório que, pouco a pouco, vai sendo copiado durante a madrugada numa máquina de xerox, com pouca luz na sala e uma música que sugere quase um filme de espionagem ou de super herói. Pra seguir essa pista acho que alguém da área de Cinema poderia ser de mais valor do que eu. Voltando para a disputa e para Graham, a disputa se dá especialmente nas relações da imprensa com o poder político. Esta é uma das importantes chaves do filme. E é aí também que ele se revela tanto uma alegoria do presente quanto uma espécie de utopia localizada no passado, de um jornalismo combativo mesmo que em disputa e mergulhado num ambiente de brigas pelo poder e amizades entre donos de jornal e presidentes. E também entre jornalistas e presidentes. A presença da disputa é mostrar a própria vitalidade do jornalismo. Se não há disputa é porque o jornalismo já não vive, porque foi derrotado.

Poderes em disputa

Entre as disputas, uma central se dá no âmbito das relações da própria dona do jornal e é ângulo novo da narrativa que vejamos o ponto de vista de Graham e das suas relações pessoais. Não vemos somente a disputa editorial a respeito da publicação do relatório McNarama sobre a Guerra do Vietnã, com a ilusão que sempre temos que apenas os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia vão resolver as intrigas e definir o que vai para a capa do jornal. O filme também não escolhe abordar as decisões de publicação apenas a partir da teoria do “newsmaking”, onde a decisão do que publicar depende do indivíduo apenas e, em geral, esta figura está dentro da redação como estava Jimmy Olsen para Clark Kent ou JJ Jameson para Peter Parker. McNamara, o cara do governo que produziu o relatório sobre a Guerra do Vietnã durante os governos de quatro presidentes, está na casa da dona do jornal, é amigo querido e próximo dela, deu apoio pessoal quando o marido se matou e quando ela precisou assumir a empresa e participa das festas badaladas que ela dá na mansão e para a qual os jornalistas do seu jornal, nem mesmo seu editor chefe, são convidados. Claro que, como todos sabemos, portanto não é spoiler, os papéis foram publicados pelo The Washington Post, mas a batalha que se deu até que eles virassem capa do jornal assume muitas facetas na narrativa. Uma delas é exatamente essa das relações profundas, de classe e pessoais com o poder econômico e estatal. No filme a ética, o espírito democrático e a função do jornalismo de defender “os interesses dos governados e não dos governantes” prevalecem e vencem a disputa contra as amizades e os interesses pessoais. A cena principal onde a disputa se resolve neste sentido é justamente quando Kay Graham vai até a casa de McNamara, ambos de roupa casual, longe dos ternos e tailleurs habituais das cenas sociais, conversam na sala de entrada da casa, como velhos amigos que a própria intimidade das falas revela. O ex-secretário de Defesa dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson tenta demover Graham da possibilidade de divulgação do relatório, depois que ela dá entender que também o Post teria recebido uma cópia dos documentos, dizendo que é um estudo para a posteridade e não um instrumento para interferir na guerra que ainda naquele momento se desenrolava e depois, com a intimidade que lhe era devida, avisa que Nixon é perigoso e se cerca de gente ruim, que não hesitaria em esmagar a ela e seu jornal.

Essa tensa cena de disputa, que reúne o crescimento da personagem de Streep, a intimidade dos poderosos, as relações com a presidência, os rumos da guerra, a morte do marido dela, os destinos do próprio McNamara, a vingança de Nixon e a amizade da elite, encerra com a vitória da ética e do jornalismo. Kay Graham termina a conversa com uma entre as que poderiam ser destacadas de um filme com muitas frases de efeito, que o espectador/leitor/eleitor/cidadão poderia até tomar nota para lembrar (e aplicar nos dias de hoje, assim como os jornalistas): “Eu estou pedindo seu conselho, Bob, não sua permissão”. Claro que entramos agora no campo novamente da utopia e de um diálogo evidente com o presente. Nos tempos de Donald Trump, do enfrentamento que ele faz à imprensa, chegando a chamar emissoras como a CNN de produtoras de fake-news, o episódio da publicação dos chamados Papéis do Pentágono, a história do enfrentamento a Nixon, da vitória das empresas de comunicação e do próprio jornalismo até diante da Suprema Corte Americana não deixa de ser um encorajamento, um cutucão mesmo, para que as empresas de comunicação se refaçam e enfrentem o poder central. Aliás, tanto lá quanto cá.

O filme é uma grande alegoria do atual momento norte-americano (e de outras paragens nas nossas próprias avaliações) e da relação da grande imprensa com o poder. Enquanto atualmente pode-se dizer que a imprensa norte-americana está ainda anterior à descoberta de um grande assunto contra o presidente, ela não investiga, não sai do lugar comum onde se meteu, não apenas nos Estados Unidos, de considerar em excesso as declarações oficiais e esquecer seu papel de imprensar o poder e não andar de braço ou ser atacado por ele. E ainda tem um cenário diferente dos anos de 1970. O jornalismo não é mais aquele da redação do Post e do New York Times, e eu não falo apenas das máquinas de escrever, mas desde as formas digitais de produção até o lugar que a narrativa jornalística ocupa na disputa atual de sentido a respeito da sociedade e para ela. O filme de Spielberg e a história que ele conta são puro desejo, mais do que contar numa ficção audiovisual uma parte da história norte-americana. Nessa utopia, as críticas ao modo de produção jornalístico também aparecem, e evocam outras críticas atuais, como a falta de iniciativa dos repórteres em contar histórias não contadas e o baixo grau de enfrentamento de fontes oficiais. Apesar disso, o filme é a história desse enfrentamento.

Mesmo a história sendo absolutamente norte-americana, do contexto onde ela contatada até as formas de abordar o tema, essa alegoria do jornalismo contemporâneo pode ser pensado em outras realidade, inclusive para o Brasil. O jornalismo, lá e cá, mantém sua influência fundamental de intérprete da sociedade na construção de sentido sobre o mundo e o momento atual, ou como primeiro rascunho da História. Mas hoje disputa essa interpretação com muitos outras fontes de informação além de perder em muitos momentos a disputa com as instituições, os discursos oficiais e as formas de poder. Quando o faz, parte de uma leitura rasa e rápida, rendida às aspas e pautada pelas instituições. Por resultado das transformações, sociais e tecnológicas, e outro tanto por sua própria incompetência e crise, resultados das suas decisões serradas em ilusões de imparcialidade e objetividade, de não se observar justamente como uma narrativa em disputa.

Protagonismo feminino

Agora a minha leitura preferida deste filme, deixei para o final do texto. The Post é um filme de mulheres. As personagens femininas são de longe as mais interessantes, complexas e conduzem o filme com se fossem um time onde uma mulher vai passando a bola para a outra. Sim, vou usar uma metáfora de futebol só pra provocar. Da personagem principal, que merece um artigo inteiro só sobre ela até a estagiária da acusação que indica a Graham a entrada exclusiva na Suprema Corte para os reclamantes e que torce para que ela vença disputa, todas as mulheres fazem reflexões fundamentais na narrativa. Lembrando de Edward Forster, são personagens redondas. Enquanto os homens são praticamente personagens planas na narrativa. As planas são aquelas sem grande complexidade, que têm destacadas duas ou três características e que, muitas vezes viram até tipos. Neste grupo estão os investidores do jornal, a diretoria do Post, parte da redação, a elite que visita a casa de Kay, enfim praticamente todas as personagens homens do filme. Inclusive o editor, que tem a faceta do repórter tradicional, combativo e inquieto, mas que apenas se dá conta que risco mesmo correu Katherine Graham ao autorizar a publicação dos Pentagon Papers e não ele mesmo, como presumia.

Quem o faz pensar de forma mais complexa e sair do umbigo é a esposa de Ben Bradley, que aparece apenas levando sanduíches aos repórteres quando eles estão na sala da sua casa lendo as cópias dos documentos. Ela não está mais no papel de esposa e dona de casa, e sim de escultora, na cena em que faz Ben pensar sobre o risco que Kay Graham corria ao publicar a denúncia e que só é corajoso mesmo aquele que toma uma decisão apesar do risco de perder algo. Ben não tinha medo nem de perder o emprego, embora ele justifique isso na mesma cena. Com a notoriedade que ganharia, rapidamente estaria empregado novamente se isto chegasse a acontecer. A filha de Kay Graham aparece em alguns momentos e em uma cena no quarto das filhas para consolar a mãe do medo que ela tem de cometer um erro e afundar a empresa e decepcionar a família. É com a filha, na mesma conversa, que Graham fala que achava normal, na época em que ocorreu, a empresa ser passada do seu pai para o seu marido e não a ela. Isto não está no filme mas Katherine já trabalhava há uma década no jornal quando o marido herdou do sogro o comando da empresa, mesmo sem ser da área. As mulheres, mesmo anônimas e sem fala, assumem o papel de conduzir a narrativa através do feminino e das grandes sacadas do filme, seja na fala a alguém, por uma postura sobre si mesma ou como marcador social de um tempo e de um comportamento que mostra as diferenças que a sociedade impõe por gênero. Quando Graham sai da Suprema Corte ao lado do CEO do New York Times e seu também amigo, afinal os dois jornais foram à Corte juntos, o executivo do grande jornal de Nova York se dirige ao topo da escadaria na entrada do edifício onde estão os microfones e a imprensa. Katherine se distancia dele e desce a escadaria pela lateral, se mantendo no mesmo enquadramento que o executivo do Times, e diz que ‘o que tinha que ser feito já foi feito e dito’. Um multidão aguarda nas escadas do tribunal e Katherine passa no meio de um grupo de jovens mulheres que a olham com admiração ao descer as escadas, mesmo fora da mira dos repórteres. O dono do Times é contornado por repórteres, microfones e flashes, discursa a seus ávidos pares e aos espectadores. A dona do Post não discursa a ninguém, caminha pela lateral da história oficial mas inspira mulheres ao passar por esse corredor simbólico lateral.

A empregada da casa de Kay aparece em momentos breves mas também decisivos, onde demonstra mais consciência da complexidade da trama do que muitos personagens masculinos consegue demonstrar. Ela quem tira Kay, no meio de seu discurso a seus convidados ricos no jardim atrás de casa, para que atenda o principal membro da diretoria e o editor Ben Bradley e decida se libera ou não a publicação dos documentos. A emprega sem nome insiste que ela deixe os convidados, a arranca do jardim, a conduz até o interior da casa e dá um jeito de deixá-la sozinha ao telefone, conduzindo para outra sala dois outros diretores que queriam conter a publicação. Eles vão para salas anexas ouvir a conversa em extensões indicadas por Graham e pela funcionária. É ela que garante que a porta se feche, sua expressão facial revela a importância se sua decisão e a câmara a acompanha durante toda essa ação.

A repórter do Post, única que aparece entre os homens da redação como personagem individual, é a mais combativa entre a linha de frente dos repórteres. Já é persona non grata porque havia invadido uma festa na Casa Branca. O primeiro debate da redação, começa discutindo frivolidades e fazendo quase coluna social, se dá porque essa repórter é a única vetada para cobrir o casamento da filha de Nixon, que deve ser realizar nos dias seguintes. Ela é a única que demonstra inquietação naquela redação parada e local. Permanece com essas características ao longo do filme e cabe a ela ouvir, por telefone, e repetir palavra por palavra a toda a redação que a Suprema Corte deu vitória ao Post e ao NY Times e aos autorizou a publicar os documentos sobre a guerra. E ela quem diz a frase, citada da sentença, que ‘o jornalismo serve aos governados e não aos governantes’.

Por fim, e por isso a mais importante personagem do filme, a própria Kay Graham. Pra mim, este filme é como um mapa cheios de pequenos pontos de luz que se conectam como aqueles que mostram as cidades num mapa político. E esses pontos são as personagens femininas. Graham é o melhor exemplo desta leitura, na forma como ela se modifica ao longo da narrativa, cresce, se complexifica, ganha força e torna-se, na expressão de Forster, redonda. Os primeiros momentos do filme mostram uma Sra. Graham tímida, insegura, tratada por um bando de homens que não confiam na sua liderança, não a ouvem e falam no lugar dela. Aliás, a maior expressão deste momento são as cenas de mansplaining, como se chama hoje aqueles situações (constantes) onde os homens tentam explicar o que uma mulher quis dizer, fala no lugar dela, completa suas frases. Isso acontece o tempo todo com Katherine Graham, especialmente no começo do filme. A principal dessas cenas é a reunião com a diretoria da empresa. Kay é a única mulher e teoricamente a mais importante figura por ser a dona da empresa. Ela passa a noite preparando o que diria na reunião, inclusive o discurso de apoio à abertura de capital e em defesa do preço das ações para evitar descapitalização e garantir revestimento em pessoal e em qualidade de produção. Ela não tem espaço para falar, nem credibilidade por parte dos diretores, não se senta à cabeceira e todo o seu discurso preparando é dito, palavra por palavra, pelo seu principal diretor e conselheiro, que dá voz ao discurso a partir da mudez dela. O mais interessante é que não se trata de um machista. Ele é também um dos únicos que a apoiam e a defendem, mas ele ainda assim fala por ela. Após a sua jornada da heroína, Graham marca em definitivo sua mudança interior e exterior e seu empoderamento quando ela contraria este mesmo diretor e conselheiro, que defende a não publicação dos documentos. Ela libera o material que já estava esperando apenas para ser impresso nas rotativas. Eu queria dizer essa palavra. Rotativas. E dizer também que o filme inteiro é sobre isso, parar ou fazer andar as rotativas. Eu torcia o tempo todo, claro, para que elas não parassem, neste caso. Porque o drama não era a novidade chegar e parar as máquinas para que ela virasse machete do jornal. E sim a construção da coragem e a disputa com o poder para que a denúncia, o vazamento e a investigação chegassem até os leitores e o mecanismo todo não parasse de rodar e informar.

Katherine Graham deixa aos poucos a postura passiva, silenciosa e hesitante, que chega a dar um nervoso porque não combina com Meryl Streep nem com mulher nenhuma. Pelo menos em mim deu um nervoso. Na mesma medida em que passei a vibrar com a forma com que a coragem e a confiança iam crescendo dentro dela e no filme, derrubando clichê por clichê feminino. Clichê não porque seja um tipo e não aconteça, mas o oposto, porque recorria (e ainda recorre) na vida das mulheres. Todas elas em alguma medida. Outras conseguem combater mais, outras menos. Graham vai nos deixando ver a Meryl Streep ‘as we know her’. Incrível e cheia de si. Derruba o primeiro clichê quando faz os diretores saírem da sua sala para que decida sozinha ou pelo menos apenas com seu diretor-conselheiro e seu editor. Depois encara a hora em que é questionada novamente e sugerido que volte atrás de sua decisão e não publique os papéis. Graham, entre as suas melhores cenas, explica as funções do jornal e da imprensa, oferecendo inclusive argumentos para acionistas, diretores e advogados. E diz que mantém sua decisão e que quem manda é ela.

É interessante comparar as duas cenas em que Kay tem que dizer “publiquem”. A primeira, em que ela ainda hesita em definir pela publicação. Sua resposta é um sim trêmulo e ela diz, na verdade “va-vamos, va-vamos, vamos publicar”, gaguejando e cheia de medo. Na cena posterior, em que constrói argumentos para a publicação, na defesa da atividade fim do jornalismo e da instituição que comanda, Katherine é firme e responde de forma inequívoca e sólida. Mais do que isso, aos que a contestam, responde que a empresa não é mais a do pai e da marido, mas a dela. Quem ainda não compreendeu isso não deveria fazer parte daquele momento. Ao mansplaining talvez seja mesmo necessário não apenas lidar com argumentos sobre o tema que se está tratando mas lutar com evidência pelo espaço. Esta é outra iniciativa feminina quase permanente que, se não é feita, não abre espaços iguais de fala. Nessa hora Kay entra na sua fase mais madura e segura do filme. Daquele momento em diante ela toma para si definitivamente a condução da narrativa. E faz a plateia, no caso eu, delirar e se perguntar se está atrapalhando o vizinho de poltrona no cinema.

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