João Somma Neto
Professor e Coordenador do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

Uma das definições mais precisas e fortes sobre o que é o Jornalismo pode ser encontrada na obra de Bucci intitulada Sobre Ética e Imprensa. Para ele, “Jornalismo é conflito, e quando não há conflito no Jornalismo, um alarme deve soar” (BUCCI, 2000).

Está claro que esta noção é aplicada face às contradições naturais estabelecidas diante do funcionamento da sociedade, onde estão presentes e atuantes as mais diversas forças que disputam de alguma forma o exercício de poder em suas mais variadas esferas e instâncias, e o seu consequente reflexo no Jornalismo que se pratica.

Contudo, também podemos associar a ideia de conflito como algo instaurado na prática e produção jornalística em contraposição à padronização, à mesmice, à repetição no emprego de certas ‘fórmulas’ que se consagram e cuja adoção se espalha como praga nos conteúdos jornalísticos sem que o público participe mesmo que indiretamente desse processo, a não ser como elemento instado a consumir a informação tal qual lhe é transmitida.

Nesse âmbito, principalmente no que se refere ao acesso à informação, o qual tem que ser garantido ao cidadão como previsto em nossa constituição, o Jornalismo está incorrendo no mínimo em um erro deliberado, e no máximo em delito de sonegação de informações, ao introduzir um método de difusão informativa em suas reportagens que estabelece amplas lacunas no conteúdo apresentado.

Isto se verifica principalmente, mas não só, no Jornalismo televisivo na atualidade. E é relevante apontar esse tipo de problema, uma vez que as mais recentes pesquisas de consumo de mídia no País realizadas por iniciativa do governo federal indicam que o principal meio utilizado pela grande maioria da população brasileira para obtenção de informações é a televisão (BRASIL, 2015).

O modo de produção jornalística vigente, sobretudo no telejornalismo, vem utilizando sistematicamente, e em proporção alarmante em relação ao total de material jornalístico produzido e divulgado ao público, uma maneira diferente de difundir informações aos espectadores que necessitam de notícias socialmente úteis.

O procedimento resulta em reportagens propositalmente incompletas levadas ao ar apresentando o assunto mediante recursos válidos para chamar e prender a atenção de quem assiste, mas omitindo informações que normalmente tem alguma importância para o público.

E de maneira invariável, o que confirma a padronização e uso indiscriminado do modelo em maioria expressiva dos telejornais, no fechamento da reportagem o apresentador ou o repórter sem o menor constrangimento pronunciam as ‘palavras mágicas’: para obter mais informações acesse nosso site www…

Esse fenômeno pode ser atribuído à tão festejada convergência midiática que possibilita aos conglomerados empresariais do setor a reprodução de conteúdos em suportes e veículos diversificados com ênfase aos blogs, sites, redes sociais e páginas na web, instituindo uma busca desenfreada por ‘cliques’ em links da internet com inequívoco objetivo mercantil. Trata-se da lógica de quanto mais cliques, entradas e/ou visualizações, maiores as oportunidades de comercialização daquele espaço, resultando em mais faturamento e rentabilidade à empresa midiática. O que parece importar menos, nesse caso, é o dever inerente ao Jornalismo de garantir o acesso fácil, rápido e direto à informação para o cidadão como meio de se possibilitar o exercício desse direito constitucional.

Procedimentos éticos?

Podemos até admitir aqui a existência de um paradoxo, pois enquanto se fornece informações incompletas nos noticiários de TV, se for considerado o conjunto da mídia em determinadas circunstâncias, estudos indicam a existência de excesso de informações a provocar até mesmo um estresse informativo, que surge gerando de forma secundária uma espécie de desinformação, como muito bem relata Leão Serva em Jornalismo e Desinformação.

Ao mesmo tempo, a mídia hoje faz com que essa transmissão de informações aconteça num ritmo frenético, compatível com a própria intensidade da vida contemporânea, promovendo uma sensação de estar extremamente bem informado naqueles a quem se dirigem os conteúdos midiáticos veiculados.

Esses aspectos se relacionam ao fato de o Jornalismo da contemporaneidade, junto com a convergência, envolver também a chamada hibridização midiática onde as grandes empresas da mídia estão associadas a outros ramos de negócio os mais variados, marcando de modo definitivo a mercantilização crescente que afeta a prática jornalística e determina como conteúdos devem ser produzidos, e mais ainda como esses conteúdos devem ser disponibilizados e consumidos pelo público. Como reflexo desse contexto, fica também condicionada a conduta profissional do jornalista.

Diante desse panorama cabe questionar até que ponto esses procedimentos técnicos da produção jornalística podem ser considerados antiéticos, uma vez que as decisões tomadas pelo jornalista profissional vinculam-se a uma série de fatores não só de natureza técnica como também estabelecidos pela hierarquia profissional, por valores e diretrizes empresariais, por escolhas e seleção de elementos informativos, e por normativas técnico-funcionais, entre outros.

Sob o ponto de vista segundo o qual o Jornalismo deve desempenhar seu papel conforme uma ótica de serviço prestado para o público, se constituindo em instrumento vital para possibilitar ao cidadão livre acesso à informação, é elementar que se oriente segundo pressupostos e princípios éticos. Assim, se há uma ética jornalística, ela admite uma relação de normas, mas não se limita a elas, constituindo-se muito mais como uma espécie de sistema onde atua uma lógica e nexo próprios. Em consequência as atividades jornalísticas no campo profissional devem ser regidas por uma ética com o intuito de, em primeiro lugar, observar e preservar os direitos do cidadão.

De acordo com a ética, são constituídos valores e princípios os quais devem ser seguidos tanto por jornalistas profissionais como por empregadores/empresas, tendo o público como fiscal e vigilante.

Por permitir a um enorme contingente de pessoas conhecerem fatos, versões e interpretações da realidade e/ou recortes dela, entre outros diversos componentes da informação, o Jornalismo se fundamenta em conceitos balizadores de sua prática consubstanciando ideias valorativas morais ou éticas.

Mesmo que seja possível afirmar que o Jornalismo como profissão tem na veracidade um dos pressupostos-base de sua responsabilidade pragmática, outra premissa tão importante é o compromisso de não sonegar informações, não omitir dados.

A obrigação de fornecer as informações de que dispõe pode ser cumprida a partir da combinação das técnicas de produção mais ou menos utilizadas e convencionadas com determinados princípios ético/morais. Como resultado pode-se difundir mais informações, mas informações diferenciadas, principalmente por meio de apurações consistentes junto a fontes diversificadas em sua tipologia e interpretações plurais.

Descompromissos éticos

Para compreender mais amplamente o comprometimento ético a ser buscado pelo Jornalismo há que ser citado Karam. O Jornalismo comprometido eticamente “deve realizar o trabalho de apuração, busca, disposição de temáticas para constituir um espaço – ainda que com limites de variada ordem – de interlocução pública e coletiva, e expressá-lo de forma imediata, plural, contraditória, polêmica. E fazê-lo profissionalmente, como centro de sua atividade cotidiana.” (KARAM, 2004). Frise-se nesta citação a necessidade de expressão de forma imediata.

Então quando se transmite uma reportagem em programa noticioso de televisão deixando de fora informações que só estarão disponíveis para o público no site da emissora e no link do telejornal, instala-se um descompromisso em termos éticos. Pressupõe-se que quando alguém busca informação em um noticiário de TV é lá que o espectador quer encontrá-la e não em outro lugar. Neste sentido, o direito à informação do cidadão é desrespeitado ao extremo.

Em tese, ao optar pela divulgação de material jornalístico incompleto tanto o profissional do Jornalismo quanto a empresa de comunicação cometem um desvio ético e moral. Além disso, analisando conforme os conceitos de omissão, sonegação e submissão da informação, elaborados por Serva, ficam evidentes o que o autor denomina de lacunas de informação ou de compreensão por parte do receptor do conteúdo.

Em conformidade com essa conceituação ocorre a omissão quando existe “ausência de informação de qualquer natureza provocada por falta de condições de obtê-la” (SERVA, 2001). A causa pode abranger uma série de motivos, desde escassez de tempo de produção para o fechamento do material jornalístico, problemas técnicos ou carência de materiais ou equipamentos, entre outros, que resultam em deficiência informativa involuntária. No caso da omissão o problema pode ser corrigido em pouco tempo, e quando isto não acontece torna-se sonegação de informações.

Já a sonegação se verifica quando a informação, “mesmo sendo de conhecimento do jornalista e da empresa jornalística, não é colocada na edição por alguma razão” (SERVA, 2001). Registra-se aqui, portanto, uma omissão voluntária resultado da escolha feita em função da vontade de alguém. Uma parte do conteúdo jornalístico, que deveria integrar aquele material é retirada, e fornecida ao espectador a oportunidade de obter mais informações em outra plataforma onde o produto jornalístico se encontra em estado mais completo.

Ocorrências desse tipo são presenciadas todos os dias na grande maioria dos noticiários de televisão. E, como exemplo até banal, podemos mencionar uma reportagem produzida e apresentada num dos telejornais locais da emissora afiliada da maior empresa de televisão nacional em Curitiba. Tratando de um assunto que afeta diretamente a população da capital paranaense, a reportagem trazia informações sobre um projeto de pavimentação de ruas da cidade que seria colocado em prática pela prefeitura municipal.

O material bem produzido informava os bairros que seriam atendidos, os custos e o tempo de execução das obras, assim como a quantidade de vias a serem pavimentadas, no total 62 ruas. No final da reportagem, o âncora dá o toque fundamental: “se você quer saber se sua rua está entre as que serão asfaltadas, acesse nosso site WWW g1 parana…”  Parece um escárnio, apesar do tom sério com que se fez a transmissão.

Este é só um pequeno exemplo ilustrativo do que vem acontecendo no telejornalismo. Será que profissionais que têm condutas desse tipo, seguindo provavelmente determinações da empresa em que atuam, se questionam se o telespectador assiste a um noticiário esperando complementar as informações de que necessita em outro veículo? Se assim for não há razão para manter-se um noticiário de TV, pois seria possível ao cidadão obter toda informação de que precisa simplesmente acessando o site na internet.

Outra consideração a respeito indica que o Jornalismo se apresenta permeado por interesses mercantis que percorrem seu interior e adquirem forma nas notícias, notas, reportagens e outros produtos jornalísticos deixando em um discreto segundo plano a relevância social que deveria ter essa atividade e a própria ética profissional. Ética em cujo código também está professado o compromisso base do Jornalismo com o direito fundamental do cidadão à informação, englobando o direito de informar, o direito de ser informado, e o direito de ter acesso à informação.

O artigo segundo capítulo I do código de ética dos jornalistas em vigor no Brasil evidencia que: “como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse”.

Assim, sendo cabe perguntar se o modernoso ato de divulgar informações incompletas nas reportagens televisivas, remetendo o público a buscar aquilo que foi omitido de maneira proposital em outras plataformas tem respaldo ético e moral, ou se trata de flagrante violação dos princípios da ética cujos valores devem nortear as ações humanas em geral e também no plano profissional a prática jornalística.

 

Referências:

Bucci, Eugenio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

Brasil. Presidência da República. Secretaria de Comunicação Social. Pesquisa brasileira de mídia 2015: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira.

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Acessível em http://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2014/06/04-codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf

Karam, Francisco J. C. Jornalismo, ética e liberdade. 4ª Ed. São Paulo: Summus, 2014.

Serva, Leão. Jornalismo e desinformação. São Paulo: SENAC, 2001.

 

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