Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo aposentada da UFF, pesquisadora do ObjETHOS

O que importa não é apenas a repercussão de uma notícia no telejornal de maior audiência do país, mas o recado que se deseja dar. Ao encerrar sua edição de 3 de abril com dois tuítes que o general Villas Bôas veiculara cerca de meia hora antes, o Jornal Nacional deu o sentido que o texto, ambíguo, apenas insinuava: “Sem citar o julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo, amanhã, o comandante do Exército, general Villas Boas, fez um comentário em repúdio à impunidade numa rede social”. Cadenciadamente, William Bonner anunciava – a título de dar “uma última informação”, voltando-se para a câmera de maneira quase casual, como se subitamente se lembrasse de um pequeno detalhe que ficou por dizer, para logo em seguida carregar o texto de um tom solene e dramático – o que se pretendia dos ministros do STF em relação à demanda do ex-presidente.

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Em artigo para o Opera Mundi, o professor Gilberto Maringoni ironizou a vocação de Villas Boas para “Nostradamus” – sua “linguagem sinuosa” que “tenta passar a imagem de militar moderado, de grande sapiência em hora grave” –, e a retórica vazia e genérica do repúdio à impunidade, quando se desconhece quem defenda o contrário. Maringoni relaciona atentados recentes e indaga: a quem o general se refere? Aos assassinos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, até hoje desconhecidos, passadas três semanas do crime? Aos assassinos dos jovens de Maricá, executados dias depois? Aos “golpistas que atentam contra a Constituição” e permanecem impunes? E – não seria demais acrescentar –, àqueles que atacaram a caravana de Lula no Sul do país, com pedras, relhos e até armas de fogo?

Exposto assim, em rede nacional, o texto do general provocou imediata reação nas mídias sociais. Os que insistem em acreditar na existência de uma ala legalista e nacionalista nas Forças Armadas – da mesma forma que acreditaram, às vésperas de 1964, no “dispositivo militar” pelo qual o presidente Jango abortaria o golpe – tenderam a minimizar os tuítes, ignorando não apenas o momento em que foram publicados como a impertinência desse tipo de manifestação. Algo que a economista Laura Carvalho, membro da equipe da canditatura do PSOL à presidência, ressaltou na mesma noite, também pelo twitter, numa crítica simultânea ao jornalismo da Globo e ao general:

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Foi, a propósito, o mesmo tipo de preocupação que o jornal O Globo expressou, em editoral publicado apenas on line, no fim da manhã do dia seguinte, destacado na home page: “General faz comentários inadequados”. Talvez por isso não tenha puxado para a manchete de sua edição em papel a manifestação de Villas Boas, ao contrário do que fizeram a Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo, reservando-lhe uma pequena chamada de capa em tom crítico: “Chefe do Exército cria polêmica”. Embora, também em editorial, considere que a concessão do habeas corpus a Lula significa “impunidade”, O Globo foi o único dos principais órgãos da imprensa tradicional a fazer reparos ao discurso do general. Também deu publicidade, em seu site, à nota do comandante da Aeronáutica, Nivaldo Rossato, que sutilmente criticava seu colega de armas e mencionava a velocidade das redes sociais como fator de intensificação dos “ânimos já acirrados”.

O fantasma do passado

“Quem nos formou foi a geração que fez 64, é isso que vocês têm de se dar conta”, disse o general Sérgio Etchegoyen, atual ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, ao repórter Fabio Victor, na reportagem de capa da revista piauí de março deste ano. O texto era sobre o “mal-estar na caserna” provocado pela decisão do presidente Temer de decretar intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro logo após o carnaval, mas mostrava muito mais que isso: mostrava como o sentimento anticomunista mais rasteiro continua arraigado nas Forças Armadas de modo geral, absolutamente refratárias a qualquer interferência externa em seu processo de formação. Sem essa interferência, sem a possibilidade de alterar as bases que forjaram o ideário dos que impuseram a ditadura, o fantasma do retorno dos militares não pode deixar de persistir.

Não deveria ser difícil de entender: costumamos dizer que é inacreditável o que está acontecendo com o país, mas só porque, talvez, gostamos de nos enganar e imaginar que passamos a viver numa democracia desde a promulgação da nova Constituição e do retorno das eleições diretas para presidente. Se jamais tocamos nas estruturas que sustentaram a ditadura, se preferimos uma solução conciliatória, em nome de uma pacificação muito frágil – ausente, por exemplo, para os marginalizados nas cidades, para os índios, para os camponeses que lutam pela terra –, não nos deveríamos surpreender com o que ocorre agora.

Se é verdade que os militares jamais mudaram, pelo menos se contiveram durante boas duas décadas desde a adoção dessa solução de compromisso que os afastou do poder. Manifestações raivosas dos saudosos dos anos de chumbo se limitavam a generais da reserva. Mas, desde 2012, com a instalação da Comissão da Verdade, essas manifestações começaram a se ampliar e, durante a gestação do movimento que derrubou Dilma Rousseff em 2016, ganharam novo fôlego.

Coincidentemente, no momento em que o país revive seu fantasma, está em cartaz um filme que expõe, pela primeira vez, as barbaridades promovidas pelo Exército no combate à guerrilha do Araguaia, nos anos 1970, através do depoimento de um grupo de homens naturais da região, recrutados para uma missão que destruiria suas vidas.

“O primeiro grande impacto que o documentário provoca é [que] coloca na sua cara e nos seus ouvidos coisas que são da ordem do inexplicável, do inimaginável e do inacreditável”, diz o psicanalista Eduardo Losicler, um dos integrantes das Clínicas do Testemunho também entrevistados no filme. Dirigido por Belisario Franca, Soldados do Araguaia é isto: esse choque de realidade que investe na preservação da memória como arma para o esclarecimento e antídoto contra a repetição da história.

Entretanto, quem procurar pelos comentários na página de divulgação do filme verá como é difícil esse enfrentamento. Não é de se espantar: o ódio cultivado ao longo do tempo desabrochou nos apelos à “intervenção militar constitucional” durante os protestos pelo impeachment. Os mesmos apelos que o general Villas Boas excitou com seus dois tuítes na véspera do mais recente Dia D de nossa turbulenta política.

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