Samuel Lima
Professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Um dia após haver protagonizado um dos momentos mais infelizes da história recente do jornalismo brasileiro, o publicitário William Bonner, apresentador do maior telejornal do país (JN, TV Globo) voltou ao assunto com uma desfaçatez inigualável: “A manifestação na terça-feira (3) do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, em uma rede social na internet, causou grande mal-estar dentro e fora do governo e foi considerada inadequada (Veja aqui).

Ora, meu caro publicitário Bonner, o tuíte do comandante do Exército não foi publicado apenas “numa rede social”. O post foi lido em tom solene por você, na íntegra, para uma audiência de dezenas de milhões de brasileiros, com altíssimo impacto sobre a formação da opinião pública, na arena da disputa de hegemonia das ideias que transcorre na sociedade. Uma infeliz e lamentável intervenção sua, no final da edição de terça-feira, 3 de abril, talvez num gesto tresloucado de tanto desespero, convertia um tuíte (ameaçando o golpe) na informação mais importante daquela edição do Jornal Nacional, cujo endereçamento era cristalino: aos ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal, que iram julgar no dia seguinte o pedido de Habeas Corpus (HC) do ex-presidente Lula. Contraditório? Repercussão? Às favas com os escrúpulos e a ética jornalística. A Globo reincidia em sua prática imperial, de tanto desserviço prestado à democracia, ao longo de sua história.

Num misto de hipocrisia e sofisma de baixíssima qualidade, o jornal O Globo, em nome do grupo, na manhã de 4 de abril, apenas na edição online, publicou um editorial fingindo criticar a fala do general golpista: “General faz comentários inadequados” (leia a íntegra aqui), no qual diz: “O cidadão Eduardo Villas Bôas poderia compartilhar suas dúvidas sobre quem pensa “no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais”. Mas o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, não deveria”. E conclui, candido: “Quaisquer que fossem suas intenções, a manifestação foi inadequada” (grifo meu). Observe, leitor e leitora, uma ameaça abjeta, transformada em chantagem aos ministros do STF, perante dezenas de milhões de brasileiros é vista pelo maior grupo de comunicação e jornalismo do país como “inadequada”. Seria cômico, não fosse trágico ao presente e futuro do que sobrou do Estado Democrático de Direito, após o golpe de 2016.

Júbilo da mídia hegemônica: Lula preso!

Numa demonstração inequívoca de absoluta sintonia de propósitos e visão política, como parceiros das forças políticas que levaram o governo ilegítimo de Mr. Fora Temer ao poder, os maiores grupos de mídia jornalística do país, em seus jornais impressos transformaram em manchete-júbilo (quase um grito de gol) a decisão de maioria do Supremo Tribunal Federal (que manteve o entendimento contra o princípio da presunção de inocência, previsto na Constituição Federal), negando o HC pedido pelos advogados do ex-presidente Lula. Vejamos as capas das edições desta quinta (4/4/18) dos três principais jornais impressos do país.

Para O Globo: “STF rejeita habeas corpus, e Lula já pode ser preso”, com a imagem da ministra Rosa Weber, colocada sob o olho “big brother” do monopólio midiático, intensificado nas últimas semanas, por se dona do voto que iria formar a maioria para um ou outro lado da contenda político-jurídica. Num voto confuso, incompreensível ao cidadão comum, no qual expressamente votou contra sua convicção e entendimento (pela presunção de inocência, contra a prisão em 2ª instância), disse a ministra ao final de uma hora de divagação: “Até que ponto uma corte constitucional está vinculada aos próprios precedentes? (…) Ainda quando tal vinculação é reconhecida, nunca o é de modo inexorável. Diante das mutações jurídicas ou de alterações fáticas significativas (…) não há muita dificuldade em se reconhecer que pode se afastar ou rever suas decisões”.

O Estadão segue a mesma vibe, indo mais direto ainda ao ponto que interessa à elite política e econômica representada em suas páginas: “STF libera prisão de Lula por Moro”. A verdade factual, o objeto do julgamento do Supremo, bem, isso não vem ao caso, como diria um ativista político da Justiça Federal de Curitiba… Na linha fina, mais uma informação imprecisa e enviesada: “Por 6 votos a 5, petista foi derrotado na Corte”. A derrota é da sociedade que perde, momentaneamente, um princípio constitucional; tal decisão reforça a atuação dos agentes do fascismo hoje liderados pelos que hegemonizam as ações da Polícia Federal, Ministério Público Federal e da Justiça Federal, sob o manto do padrão “Lava Jato”.

A capa da Folha de S. Paulo segue a mesma toada: “Por 6 a 5, STF rejeita habeas corpus e ex-presidente Lula pode ser preso”. O jornal dedica sua linha fina ao voto da personagem que decidiu a estreita maioria: “Principal dúvida do julgamento, Rosa Weber privilegia jurisprudência vigente sobre o cumprimento de pena”, sobre uma foto da constrangida ministra, contrita.

A Folha concedeu um bom destaque à fala do decano do Tribunal, ministro Celso de Mello, que abriu seu voto fazendo um duro contraponto ao tuíte do general Villas Bôas: “”A experiência concreta a que se submeteu o Brasil no período de vigência do período de exceção entre 1964 e 1985 constitui para esta e para as próximas gerações marcante advertência que não pode ser ignorada. As intervenções pretorianas no domínio político e institucional têm representado momentos de grave inflexão no processo de desenvolvimento e de consolidação das liberdades fundamentais (…). Tudo isso é inaceitável. O respeito indeclinável à Constituição e às leis da República representa limite inultrapassável a que se devem submeter os agentes do Estado, quaisquer que sejam os estamentos a que eles pertencem”. Não vi todos os votos, mas me parece que Mello foi o único ministro a rebater o comandante do Exército, com veemência e dignidade.

O processo do golpe parlamentar-jurídico e midiático ainda se nos reserva outros capítulos e desdobramentos insondáveis neste momento. À cena política, chegaram em definitivo os que pretendem dar o golpe dentro do golpe, liderados por vários militares de alta patente, que repercutiram os posts do general Villas Bôas, em “seu labirinto” no Twitter. O papel do monopólio de mídia, liderado pelas empresas da Rede Globo, Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo foi inegavelmente decisivo para o “êxito” político dos golpistas que infestam as esferas de poder da Res-Pública, a partir da Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Sincericídio?

Num ato falho (ou seria um “sincericídio”?), a jornalista Mônica Waldvogel admitiu involuntariamente, em rede nacional, esse papel decisivo na formação da opinião pública que mobiliza os “manifestoches”, precisamente ilustrados e cantados no samba Paraíso da Tuiuti, que indagava: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”. Waldvogel respondeu, analisando os dados recentes da economia: “Está tudo provocando uma lentidão na recuperação econômica. Dá pra ver que o tamanho da recessão que a gente provocou (…) que foi provocada no Brasil tem um efeito muito…” (Veja o vídeo aqui). A narrativa do golpe do monopólio de mídia no Brasil é também uma história em curso, inconclusa.

A narrativa do golpe, vista pelo do monopólio de mídia no Brasil, é também uma história em curso, inconclusa, como previu profético o insuspeito ministro Gilmar Mendes, ao votar: “Se o Tribunal for se curvar à mídia é melhor que ele desapareça, que ele deixe de existir. Julgar segundo o sentimento da rua, não dá presidente, não é possível. Os nazistas já defenderam isso”.

Advertisements