Juliana Rosas
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

No momento em que escrevo essas palavras, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aguardava o momento para se entregar à Polícia Federal, depois do mandado de prisão expedido na quinta-feira (5 de abril) pelo juiz Sérgio Moro. Segundo o documento, Lula deveria apresentar-se em Curitiba até às 17h da sexta-feira (6). Como foi explicado por juristas e alguns portais de notícia, o prazo dado foi uma oferta que poderia ou não ser aceita. Lula está em São Paulo, outro estado. Não ter se apresentado no prazo proposto não significava desrespeito à justiça. Palavras dos especialistas.

Mas esta introdução é para falar de outra coisa: a tal da neutralidade jornalística. Poderia igualmente ser a objetividade, tema caro e também tabu na área. Em meio às horas em que foi expedido o mandado até a hora teoricamente limite, era impossível não querer saber o que estava acontecendo. Ou o que aconteceria. Navegar entre os diversos portais noticiosos e sites de jornais parecia inevitável. Lula se entregaria? Ele se entregaria em Curitiba? Em São Paulo? A PF invadiria o Sindicato dos Metalúrgicos onde se encontrava o ex-presidente?

O que encontrei nos principais portais e jornais do país foi jornalismo. Com todas as críticas que possam ser feitas aos mesmos. Entenda-se por jornalismo aqui apresentar os fatos, apurando-os, ouvindo testemunhas credíveis e fontes verificáveis, analisando documentos e sendo crítico, quando possível. Isso, goste-se ou não, nessa breve (e quem sabe até, para alguns, rasa análise) vou chamar de neutralidade. Os veículos vistos: UOL, G1, Terra, Folha de S. Paulo e Estadão trouxeram notícias importantes, atualizadas, aparentemente bem apuradas.

UOL, Folha e Estadão foram os mais frequentemente visitados por mim. Depois de ver e ouvir em dois momentos a opinião de Reinaldo Azevedo na rádio Band News, resolvi checar o site da revista Veja, uma vez que Azevedo foi um dos seus mais conhecidos colunistas por anos. E eis o motivo de a palavra neutralidade vir à tona.

Homepage da revista Veja da noite de 6 de abril de 2018

Navegar pelo site da Veja é testemunhar uma clara tomada de posição do veículo. Veja é uma revista declaradamente de direita, muito embora, aparentemente, não liberal, como disse diversas vezes Reinaldo Azevedo – porém, falando de si mesmo. Azevedo fez duras críticas à maneira como o processo de Lula está sendo conduzido, ele que se declara de direita, contudo, liberal, algo que a direita brasileira não é, em suas próprias palavras. Todas as chamadas do site são críticas abertas ou veladas ao fato em trânsito, que traz ainda uma imagem da capa da edição semanal com um desenho de Lula atrás das grades.

Não é o que vemos quando pensamos em jornalismo hard news, puro e simples. Nas chamadas do jornal O Globo, é igualmente possível perceber seu posicionamento à direita.

Homepage da Carta Capital da noite de 6 de abril de 2018

“Inspirada” no site da Veja, visito o site da Carta Capital, outra revista com posicionamento declarado, sendo o da Carta, de esquerda. A foto de destaque do site é Lula ladeado por duas mulheres políticas aliadas com punho em riste – provavelmente simbolizando a luta e resistência até nesses momentos. As chamadas são igualmente com viés de tomada de lado. E, como já disse Alberto Dines, não há problema em veículos posicionarem politicamente; o problema está na desigualdade de forças e visibilidade dos mesmos.

Pois bem. No jornalismo tradicional, alguns dirão utópico, cabem portais relatando o factual. Mas jornalismo também é Veja, Carta Capital e ainda, o Nexo. Sim, chequei este também.

O Nexo, como é seu estilo, não trazia notícias quentes atualizadas a cada poucos minutos, trazia as análises dos fatos, das principais decisões tomadas naquelas retumbantes e históricas horas do país.

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Nesta breve exposição, o que quis mostrar, como jornalista – e não linguista, é que neutralidade existe sim. E a objetividade pode existir. O campo da linguística dirá, entre outros, que a língua não é neutra, conclamará lugar de fala, símbolo, primeiridade, terceiridade, etc. Há ainda a visão dos psicólogos, sociólogos, educadores… Mas este campo é o do jornalismo. Feito por jornalistas. E estes sabem – ou deveriam saber – seu metier. Saber onde e quando tomar um lado, e onde e quando prestar atenção nos fatos, escolher suas fontes, analisar criticamente. Mesmo entre jornalistas, que são gente, torcedores de futebol, amantes de determinados times, eleitores de Lula, Ciro, Haddad ou Alckmin, neutralidade existe, faz parte. É escolha, assim como o partido.

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