Nilson Lage
Professor aposentado de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

(Anotações de preparação de aulas que ministrei originalmente em 2007/2008 e que me parecem, agora, de interesse geral)

Pesquisas sobre os efeitos da comunicação “de massa” desenvolveram-se nos Estados Unidos, com grandes recursos, nas décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960, por cientistas sociais como Paul Lazarsfeld, Robert Merton e Hazel Gaudet.

O objetivo inicial era estudar como o sistema de comunicação (periódicos, rádio, cinema) poderia contribuir para fabricar o consentimento (manufacture consent: a expressão é de Walter Lipmann, 1920) do público americano para o que se definia como progresso, consumo, níveis elevados de organização do trabalho etc.

Essas pesquisas, exaustivamente repetidas, chegaram às seguintes conclusões:

Adequação ao grupo social

  • As opiniões sustentadas pelas pessoas refletem suas relações com o grupo a que pertencem (a família, os amigos, os companheiros de trabalho etc.). A adequação ao grupo permite evitar e minimizar conflitos, preservando a identidade e a autoestima. É, assim, instrumento de segurança individual.
  • Definida a adesão ao grupo (ou a tomada de posição, ainda que dissidente, em relação a posições sustentadas ou temas julgados relevantes pelo grupo), a pessoa seleciona as mensagens que recebe, aceitando as que são favoráveis ou pertinentes e rejeitando as que são desfavoráveis ou impertinentes.

Pressões, conflito, incoerência

  • Mudanças são comuns em pessoas sujeitas a pressões cruzadas – isto é, que pertencem a vários grupos simultaneamente. Em caso de conflito, surgem algumas adesões maiores (à classe social, à cultura nacional, a padrões que decorrem da faixa etária), mas é sempre difícil prever qual a escolha;
  • Em fase de mudança de opinião, as pessoas costumam demorar a tomar decisões e produzem soluções racionalizadas que representam alguma composição entre posturas contraditórias dos grupos a que pertencem. Tendem a decidir caso a caso, o que significa que podem ser incoerentes, se comparadas umas às outras.

O papel das lideranças

  • Na formulação das posições de um grupo, importam as lideranças. Líderes são pessoas particularmente ativas, mais sensíveis do que as outras aos interesses do grupo. Uma das funções dos líderes é mediar entre os meios de comunicação e os componentes do grupo.
  • Líderes não são sempre pessoas reconhecidas como proeminentes em um grupo. Na formulação de opiniões, importam tanto as lideranças proeminentes ou verticais quanto as lideranças não-proeminentes ou horizontais – gente cuja opinião é levada a sério pelos demais, mas que não tem ascendência ou poder sobre os outros componentes do grupo.

Crises e vulnerabilidade

  • No processo de interação, as pessoas do grupo trocam informações e experiências em apoio às atitudes grupais, de modo que estas se reforçam. Os padrões coletivos são utilizados para julgar e filtrar o fundo particular, individual, de experiências e o catálogo privado de dados da memória;
  • A mudança em atitudes individuais é mais provável em situações de crise pessoal, afastamento ou rejeição do grupo, submissão a propaganda contrária intensiva e impossível de ser desconsiderada. Ocorre em contextos de agressão externa ao grupo, instabilidade econômica etc. Caso típico de crise pessoal – com a adesão a novos grupos – é a adolescência.

A formação da opinião de públicos

  • Partiu-se do pressuposto de que a maioria das pessoas “se informa” pelos noticiários e criações dramáticas (como as novelas de TV).  Descobriu-se que não é exatamente assim: os indivíduos adquirem a maior parte das ideias que sustentam no contato com lideres de opinião e outros membros do grupo; juntos, selecionam fontes sociais de informação (em sentido amplo: também gêneros de música, igrejas, párocos  ou bares).
  • A influência do grupo se exerce não apenas quanto ao conhecimento dos fatos, à fruição de mensagens e à adoção de hábitos, mas também quanto à aceitação de versões para os fatos e a exteriorização de juízos de valor. Esses, na verdade, constituem a opinião pública, isto é, a opinião publicamente manifesta, no grupo ou externamente a ele.

    A polarização da multidão-massa.
  • Algumas situações sociais exigem a adoção rápida de atitudes que envolvem representação perante a comunidade, ainda que não haja lideranças confiáveis a que se possa recorrer. A interação entre os membros do grupo termina, nesses casos, reforçando sentimentos vagos de cada indivíduo, o que gera nova distribuição de opiniões expressas e atitudes ostensivas.
  • Esse reforço é capaz de cristalizar –se em atitudes radicais, imediatas e firmes, sensações apaixonadas e eventualmente duráveis de simpatia, antipatia, adesão ou repulsa.
  • Isso foi estudando inicialmente em massas motivadas por estímulo inesperado ou catártico – por exemplo, em um quebra-quebra ou em uma decisão de campeonato em que se confrontam torcidas.
  • Daí se dizer que a polarização, sempre pretendida pela propaganda pelo que transfere do racional ao emocional, atribui à “multidão” (dispersa) característica de “massa” (compacta).
  • Polarização extrema estimula comportamentos antissociais em indivíduos que os reprimiam.

A formação das ondas de opinião

  • A polarização ocorre, em outros casos, sem conduzir a ações turbulentas ou paralelamente a elas. Por exemplo: quando um acontecimento importante ocorre, uma onda de propaganda muito forte inunda a comunidade ou fatos novos põem em xeque valores estabelecidos.
  • A opinião pública pode ser explicada pela troca de informações e de influências que se acelera diante de fatos novos, resultando em concepção que não existia antes. As mudanças de opinião, gostos e preferências ocorrem, assim, em onda, às vezes rápida, que percorre a sociedade gerando a inflexão de posições antes estáveis

Mudam-se atitudes, não valores

  • De modo geral, atitudes fundadas na vivência da luta de classes ou conflitos de cultura são mais estáveis e resistentes a mudanças. No entanto, respostas situam-se em cenários definidos, situações concretas. O diálogo entre grupos e classes pode resultar em conflitos públicos de que resultam novas sínteses.
  • Atitudes podem ser tomadas coletivamente com base em opiniões não homogêneas: diante de tendência coletiva, cada pessoa busca em sua memória argumentos que justifiquem sua adesão – e tais argumentos podem diferençar-se bastante.
  • Mudanças de atitudes não implicam mudança de valores (caráter, princípios, temperamento), embora isso possa, talvez ser obtido por efeito cumulativo, ao longo de experiências reiteradas, com reflexo subjetivo.

Um exemplo de reação modulada

 A reação da aristocracia à tomada do poder pelos burgueses (com que necessariamente convivia socialmente) terminou gerando a repulsa aristocrática não exatamente à política da burguesia, mas à maneira burguesa de ser. A figura típica dessa representação é o pequeno-burguês, acusado de mau gosto, consumismo e carreirismo.

  • Essa crítica, que sintetiza o sentimento dos que se julgam refinados e elegantes diante dos novos-ricos ascendentes, perdurou para além das cortes e se incorpora à visão de mundo de intelectuais, desde então.

Verificação por amostragem

  • A pesquisa de efeitos em sociologia utiliza a mesma arma que avaliza as técnicas de marketing. A partir quase sempre de pequenos segmentos tomados como amostragem, a estatística permite aferição precisa das respostas imediatas a estímulos, em dado momento, e possibilita a investigação de comportamentos e tendências.
  • O planejamento de uma pesquisa estatística pressupõe a formulação de um objetivo geral e, a partir dele, de objetivos específicos. Faz-se em seguida a coleta de dados e definição das variáveis a serem pesquisadas; a preparação do questionário e decisão sobre as formas de sua aplicação; e, finalmente, a codificação e interpretação dos dados.

A escolha das amostras

  • A amostragem permite economizar recursos e tempo, oferece alta confiabilidade (pode-se aplicar questionário mais preciso) e boa operacionalidade. Pode-se trabalhar com amostras aleatórias ou não aleatórias:
  • Na amostragem aleatória, pode-se dividir a população em estratos (por exemplo, por nível de instrução); ou considerar conglomerados como representativos do todo;
  • Na amostragem não-aleatória, estabelecem-se quotas proporcionais ao tamanho dos grupos, indicam-se elementos considerados típicos; ou consideram-se grupos que se distinguem por alguma característica – racial ou comportamental, por exemplo, como o acesso à Internet.

O erro amostral é predeterminado

  • Toda amostra pressupõe erro, mas o erro estatístico pode ser previamente estimado. Assim, se

               N é o tamanho da população
n é o número mínimo de elementos da amostra
E0 é o erro amostral tolerável (previsto previamente),

             n =   N . E0– 2
                  N + E0-2

  • O número de elementos da amostra para o erro amostral tolerável E0 será uma fração que terá no numerador o tamanho da população vezes o inverso do quadrado de E0e no denominador a soma do tamanho da população com o inverso do quadrado de E

A matemática não prevê erros humanos

  • O erro amostral não inclui distorções que decorrem do mau planejamento ou má aplicação da pesquisa – por exemplo, quando se limita a pesquisa a pessoas accessíveis e grupos polarizados ou quando parte dos entrevistados é coagido ou induzido a mentir. O questionário deve ser preparado de modo a prever essas hipóteses e a aplicação necessariamente neutra.
  • Complementando as pesquisas quantitativas, realizam-se pesquisas quantitativas, geralmente com pequenos grupos de elementos típicos. Aprofundam-se questões, realizam-se entrevistas sucessivas e analisam-se conflitos de opinião.
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