Tânia Giusti 
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do ObjETHOS

Quem se interessa pelos acontecimentos no entorno da Polícia Federal de Curitiba, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preso, certamente não encontra na “grande mídia” as informações que deseja. Salvo alguns fatos específicos como a negativa da visita do Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e do religioso Leonardo Boff ao ex-presidente, o dia-a-dia no Acampamento Lula Livre é silenciado na mídia hegemônica.

Independente de posicionamentos políticos e ideológicos, um profissional da comunicação não pode, ou pelo menos não deveria, ignorar que há fatos sendo reverberados diariamente na vigília montada em frente ao departamento da PF. Mas as inúmeras histórias que são construídas e vividas no bairro Santa Cândida não estão sendo cobertas ou contadas em rede nacional. As concessões públicas de radiodifusão – que, em tese, deveriam oferecer uma cobertura plural-, e que desde a ditadura militar estão concentradas nas mãos de poucas famílias, optam por outros enfoques e direcionamentos editoriais.

É pela internet e nas redes sociais que fatos e sujeitos silenciados são ouvidos e ganham voz. Com o Acampamento Lula Livre não foi diferente.  São pelas mãos, bloquinhos, smartphones e pela garra de mídia ativistas, que a população tem acesso a narrativas diferenciadas. A Casa da Democracia surge dentro desse contexto, dentro de uma relação honesta e direta entre jornalistas e públicos, como observam Jacques Mick e Luísa Tavares, no artigo publicado em 2017 sobre Governança do jornalismo e alternativas para a crise. Segundo os autores, é a partir da insatisfação dos públicos, da descentralização do poder sobre os meios de produção e canais de distribuição, e mediante as tecnologias de interação disponíveis, que surgem novos tipos de organizações e veículos jornalísticos.

A Casa da Democracia, que espero conhecer pessoalmente em breve, revela pelas suas fotos e coberturas, humanismo e acolhimento em sua rotina produtiva. O Coletivo, que iniciou suas atividades no dia 25 de abril, é constituído por 46 midiativistas dos seguintes sites: Brasil de Fato, Brasil de Fato Paraná, Comcafé, Contag, Eduardo Matysiak, Fórum de Lutas 29 de Abril, Frente Brasil Popular, Mídia NINJA, PT Paraná, Porém.net, Professor Lemos, Rede Soberania, Terra Sem Males, Vigília Lula Livre. No texto de abertura da campanha, o Coletivo definiu o local como “uma base de trabalho, de articulação política, hospedagem, alimentação e acolhimento funcionando 24 horas para servir o maior número de comunicadores e ativistas. Nosso bunker de resistência frente a mídia golpista”.

Intensos. Assim foram descritos os primeiros dias de atividades no local pelas mídia ativistas Lisa Brito e Bianca Lima, da Mídia NINJA. Segundo elas, a Casa surge como uma zona autônoma de resistência e apoio aos midialivristas dispostos a narrar todo processo de apoio e indignação em relação a prisão do ex-presidente Lula. “Nessas quase duas semanas de Casa da Democracia, tivemos cerca de 2000 visitantes, 400 midiativistas cadastrados, 30 hospedagens de mídia ativistas do brasil e latino América e 40 convidados para formação da mesa de debate. Números que mostram a amplitude da iniciativa”, informaram.

Como pesquisadora de novos modelos de financiamento para o jornalismo, me chamou atenção a rapidez com que a equipe conseguiu o valor para iniciar as atividades, o que demonstra a avidez da população por iniciativas de mídias independentes. Em apenas três dias, a meta inicial no site Vakinha de R$ 20 mil foi alcançada. O valor arrecadado foi destinado ao aluguel da casa, alimentação e outros custos estimados. Com o sucesso da campanha, a organização decidiu dobrar a meta. Os R$ 40 mil também foram alcançados e serão utilizados para a compra de equipamentos que objetivam uma cobertura de ainda mais qualidade.  “O financiamento se encerra no dia 12 de maio de 2018. Podendo se estender conforme o contexto político que envolve a prisão do presidente Lula. A plataforma permite que se estenda até um ano da sua data inicial”, explicaram.
De acordo com as ativistas, a programação diária se estrutura de forma aberta e colaborativa. “Acompanhamos as pautas e as agendas do acampamento e da vigília, tanto as programadas quantos as que surgem ao longo do dia.  Já o planejamento das transmissões ao vivo e coberturas se dá por meio da comunicação em chats com os muitos coletivos, movimentos e ativistas que se predispõem a estar sugerindo e estruturando a programação que acontece na casa”.

De maneira geral, a Casa funciona como um polo para que se amplie através do trabalho colaborativo e coletivo de ações de mídia livrismo, fortalecendo a narrativa em rede.  “Nossa grade de programação é aberta, plural focada no debate da conjuntura política atual. Há uma equipe realizando as coberturas diárias das atividades presentes no acampamento Marisa Letícia, na Vigília e em qualquer outra atividade relacionada a #LulaLivre”, completaram.

 Quando a  cobertura ignora os fatos

Diariamente, lideranças que residem na própria região, ou que estão de passagem pela vigília, são entrevistadas no Democracia em Rede, o programa fixo transmitido ao vivo pelo facebook diretamente da Casa, para todas as mídias parceiras da iniciativa. Na última semana, junto de representantes de entidades de luta sindical, a professora de comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Kelly Prudêncio, que também é doutora em Sociologia Política, e coordenadora do grupo de pesquisa Comunicação e Participação Política (COMPA), participou da roda de conversa.

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Ao centro, jornalista e professora Kelly Prudêncio em entrevista para o Democracia em Rede. Foto: Vangli Figueiredo

No debate, que tratava especialmente sobre a cobertura da mídia, no que se refere ao acampamento, e também sobre ativismo e construção de novas narrativas, a pesquisadora reiterou que a frente montada pelas mídias alternativas é, principalmente, uma forma exemplar de resistência. Para Kelly, que é jornalista, a dualidade de coberturas não significa uma disputa de narrativas, mas evidencia o silenciamento de fatos por parte do grupo midiático que está a serviço de interesses econômicos e políticos.  “É gravíssimo ignorar o fato de que este acampamento existe e de que existe uma solidariedade da vizinhança local. Existem coisas acontecendo aqui, há gente do Brasil inteiro aqui. Pessoas importantes estão visitando, pessoas que poderiam ser fontes interessantes para falar sobre determinados assuntos, que poderiam estar falando sobre democracia, por exemplo. No entanto, o debate sobre democracia está sendo barrado e substituído pelo debate sobre punição de corruptos, como se o único problema que existisse no Brasil fosse este”, questionou a professora. Kelly destaca que desde 2005, época do Mensalão, há uma pré-disposição por parte da mídia em encontrar defeitos e ocultar fatos.

A pesquisadora destacou que este silenciamento por parte dos oligopólios, escancara os posicionamentos das empresas de mídia. “Achar bom ou ruim fica a critério de cada cidadão. O que  nós vemos hoje é uma cobertura protocolar, e enganosamente equilibrada e imparcial. Se você oculta o fato, você já está tomando parte deste acontecimento. Então essa “pseudoobjetividade” nem existe. A objetividade se refere aos objetos da realidade. Tratar desses objetos é que a objetividade. A imparcialidade é outro conceito.  Imparcialidade se refere a minha tomada de decisão diante desse objeto, sobre as escolhas, sobre o viés que eu darei para esta narrativa”, colocou.

Alcance

Não há dados recentes sobre o número de pessoas com acesso à internet hoje no Brasil. Em 2016, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, feita pelo IBGE com brasileiros de 10 anos ou mais, apontou que 69,4% das casas brasileiras possuíam acesso à rede mundial de computadores.  Ou seja, o acesso a internet ainda não é uma realidade em todos os lares brasileiros. As notícias veiculadas nos meios de comunicação mais tradicionais, como a televisão e o rádio, ainda são unanimidade no dia a dia da população.

Portanto, podemos concluir que os conteúdos gerados por mídias independentes – como a Casa da Democracia, que utilizam exclusivamente a internet como forma de veiculação – não chegam a todos os lares brasileiros. Por isso, as narrativas que mostram diferentes versões dos fatos, na opinião de Kelly, precisam ser amplamente divulgadas nas escolas, universidades e em situações informais. “Quando esse tipo de mensagem/conteúdo chega, as pessoas percebem que podem pensar diferente do que leram ou assistiram. A mídia auxilia na autonomia do pensamento. O trabalho realizado pela Casa é fundamental. Por mais que pareça que nós não temos visibilidade, e que estejamos numa relação de força assimétrica, e estamos, as mensagens chegam”, encorajou a professora.

Nelson Traquina (2004) acredita que o jornalismo deve atuar como protetor dos cidadãos dos eventuais abusos dos governantes, sendo um “guardião da democracia”. De 25 de abril até o dia 6 de maio, a Casa da Democracia já colocou no ar 10 lives, além das coberturas jornalísticas que, por meio dos sites e fanpages, rodam o mundo. As portas estão abertas há pouco tempo, e no portão, não há guardas nem seguranças. Dentro, os guardiões lutam com apenas duas armas: a verdade e a esperança, cumprindo o papel citado por Traquina com zelo e maestria.

Referências

BRITO, Lisa; LIMA, Bianca. Entrevista concedida a Tânia Regina de Faveri Giusti. Içara, 06 de maio de 2018.

PRUDÊNCIO, Kelly. Entrevista para o Democracia em Rede. Curitiba. 3 de maio de 2018. Vídeo online (58:07 min). Disponível em: https://www.facebook.com/casadademocracia/videos/188337135120450/  Acesso em 03 de maio de 2018.

MICK, Jacques; TAVARES, Luiza. A governança do jornalismo e alternativas para a crise. Brazilian Journalism Research: journalism theory, research and criticism. vol.13, n. 2, 2017. Disponível em: https://bjr.sbpjor.org.br/bjr/article/download/948/924 Acesso em 14 de novembro de 2017.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo (Volume I): porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2004.

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