Felipe Buzzi e João Paulo Mallmann
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

Subindo o Morro da Cruz, o pessoal do Diário Catarinense parece ter vestido antolhos, o que talvez seja a única justificativa para a total ausência de conteúdo sobre a greve dos trabalhadores do serviço público de Florianópolis contra a concessão de serviços públicos de saúde e educação para Organizações Sociais nas cinco edições impressas da semana entre 30 de abril e 4 de maio. A greve já completava 20 dias, novas assembleias debatiam os termos e esquentavam o clima por parte do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem), mas ao que tudo indica, os fatos não eram merecedores de sequer uma linha no jornal de maior circulação de Santa Catarina.

A atuação em outras greves do veículo e de seus parceiros do grupo NSC, desde quando ainda eram vinculados à RBS, costuma ter recortes lamentáveis que tentam a todo custo deslegitimar o movimento dos trabalhadores, expondo apenas que nos dias de paralisação parte da população fica sem ter acesso a alguns serviços, também abordando (e quase implorando para que seja executada) a multa prevista em estatuto que aumenta a cada dia de greve.

Por mais que a visão do grupo nunca procure dar o devido espaço aos servidores e suas reivindicações, jogava-se limpo com o consumidor: as informações, anguladas normalmente pelos interesses dos órgãos públicos, eram dadas e usualmente a crítica externa ficava em torno desta angulação e falta de contrapontos. Desta vez, o silêncio é ensurdecedor: a greve, que sempre fica mais tensa de todas as partes com o passar dos dias, não é lembrada nem em uma das incontáveis colunas que estampam as páginas do jornal.

Isso diz muito sobre o descaso do meio de comunicação com a população. A pauta é importante, mesmo que seja erroneamente abordada apenas pela falta de serviços: as pessoas devem saber quais rumos a greve está tomando, ter perspectivas para o futuro dela e conhecer os órgãos envolvidos para poder formar sua opinião quanto ao tema. O compromisso com a informação, afirmado em editorial no Dia Internacional da Liberdade de Imprensa (3 de maio) fica esquecido em meio a interesses que desconhecemos, mas muito podem ser especulados por quem já repara determinados comportamentos de meios de comunicação monopolistas.

O ND e a taxa de turismo

Na edição de quarta-feira passada, 02, do Notícias do Dia, o impresso abriu com um editorial defendendo a implantação de uma taxa em cima do turismo na capital na justificativa de modernizar e desenvolver o setor, espelhado no modelo de Bombinhas — que aplicou a taxa em 2014. Enquanto uma greve segue para o primeiro mês de paralisação, os dois grandes jornais da capital abrem mão de uma cobertura relevante, de interesse público e social, para destacar, no caso do ND, uma taxa no turismo. É, no mínimo, cínico.

Uma série de reportagens especiais sobre a taxa seguiram durante a semana. Primeiro, logo após o editorial na quarta feira, uma matéria de duas páginas com o título “Florianópolis precisa de uma taxa de turismo”. A proposta é de “discutir e avaliar a viabilidade e seu impacto sobre o setor turístico e a população”. Podemos ver que isso foi bem realizado quando avaliamos o número de fontes ouvidas: duas. A primeira reportagem aponta as vantagens e melhorias que isso poderia trazer e os modelos que deveriam ser estudados. Coloca alguns depoimentos do ministro do turismo, Vinicius Lummertz, defendendo que Florianópolis precisa pensar num modelo para atrair turistas, e no final abre um box para dizer que na Câmara dos Vereadores o projeto de taxa, do vereador Roberto Katumi, está parado. Pra não dizer que não tem contraponto, no final da matéria, sem o mesmo destaque, o jornal aponta três riscos que a taxa pode trazer: arranhão na imagem da cidade; redução no número de turistas; e dificuldade de implantação, por ser difícil separar o público turista dos que frequentam com frequência a cidade. E morre por aí.

Na quinta-feira, 03, o especial foi atrás da adesão dos empresários, é claro. Na capa, a chamada: “Benefícios (da taxa) agradam classe empresarial”. Na matéria, diferente da primeira, ouviram o dobro de fontes, dessa vez foram quatro. Todos têm em comum a preocupação de que o dinheiro arrecadado deve retornar à população, além de todos os quatro concordarem que a taxa só traria benefícios para o meio ambiente e turismo. E de novo, ressaltando o exemplo de Bombinhas e a tendência de novos municípios aderirem.

Na edição de sexta, 04, o jornal dedicou o especial para contar como foi a história lá em Bombinhas, que aplica da TPA (Taxa de Preservação Ambiental) desde 2014. Superficialmente fala sobre o debate jurídico que aconteceu lá, e de como o Ministério Público contestou na época a ilegalidade da taxa, apenas diz que afinal, o Tribunal de Justiça, dois anos depois, decretou a legalidade da cobrança. E, claro, mais uma vez, mostra que em Bombinhas tá dando tudo certo. Tudo muito estranho e simples.

Mesmo que seja uma escolha editorial defender a taxa de turismo em Florianópolis, faltou o jornal ir além. Cria uma solução ilusória, elitista, ao entrevistar somente fontes oficiais e empresários que defendem seus interesses. Esquece de fazer o básico — algo que se aprende nas escolas de jornalismo — que é estudar todos os contrapontos e apontar problemáticas, questões que são importantes para alimentar o debate público. Não justifica o interesse público sobre o tema, aliás não deixa claro quais são os interesses em jogo. Não acrescenta em nada para a discussão e expõe que sim, o interesse empresarial é maior que o público e o leitor, mais uma vez, não precisa ter participação nenhuma.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais.

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