Bruno Rosa e Rafael Moreira
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

A análise dos telejornais durante a semana do feriado do Dia do Trabalhador não poderia deixar de falar sobre outro tema que não a cobertura das greves contra as Organizações Sociais (OS’s). Além deste, outros acontecimentos estiveram presentes nos telejornais dos dois veículos RIC/Record e SBT TV. O assassinato brutal de sete cachorros em São José e o caso de estupro coletivo de uma mulher por três homens, igualmente foram pautas destacadas nesses telejornais.

Contudo, antes de se aprofundar em como foi a cobertura destes fatos, é necessário um adendo. Há alguns anos não assistimos do início ao fim um telejornal da rede aberta de TV. Foi uma overdose assistir cerca de 16h praticamente ininterruptas. Um exercício bom para quem quer testar o coração, porém uma prática terrível para quem busca ouvir e conhecer novos pontos de vista. Um terço das notícias da grade geral das programações se referem à violência ou acidentes de trânsito com mortes. Assim, é difícil distinguir o jornal de ontem do jornal de hoje.

O caso de estupro coletivo de uma jovem em Brusque mudou de versão dia após dia de cobertura. O vício do imediatismo faz com que as informações fiquem baseadas em boletins de ocorrência, boatos e laudos inconclusivos. A última atualização do caso informa que não se tratava mais de um caso de estupro, pois, segundo a polícia, mesmo tendo que manter relações sexuais forçadas com dois homens, anteriormente ela havia concordado transar com os três.

Preferimos acreditar que foi a rapidez no processo de reportagem do acontecimento que fez com que esta informação contraditória não saltasse nem aos olhos da repórter, nem do editor, nem do âncora do programa. Mesmo baseado nas poucas informações, nada muda o fato da vítima ter declarado que teve de “manter relações sexuais forçadas”. A culpabilização da vítima e a crueldade da falta de apuração contribuem para desqualificar a cobertura.

Da mesma forma, o caso da greve contra a privatização da saúde e educação obteve inúmeras atualizações e apenas em uma das matérias sobre o assunto os sindicalistas foram ouvidos. No entanto, as versões oficiais e comentários inadequados entram novamente em cena. Acreditamos que não basta falar sobre o assunto para cumprir o papel social do jornalismo. Para fazê-lo é preciso, minimamente, expor diferentes pontos de vista.

Servidores públicos da área da saúde entram em greve contrários à uma decisão da Câmara Municipal de Florianópolis, e na TV se fala em “respeitar a lei”. Mas não dizem que, se fossem de fato segui-la, o governo teria pago os funcionários. Não se trata de uma anarquia, mas de uma greve. A intenção, neste caso, não é substituir o sistema, e sim reivindicar direitos. A decisão das OS’s, tomada sem grandes discussões na Câmara, é uma medida no mínimo precipitada. A Prefeitura não apresentou propostas para resolver o conflito e os âncoras apoiam a demissão dos grevistas. Distorções das exigências transformam o “queremos nossos salários”, em “queremos nossos privilégios”, o “se a prefeitura não irá pagar estes dias, nós não vamos repor as aulas”, em “nós não queremos dar aulas”. Não nos resta outra alternativa concluir que, ou eles são favoráveis às Organizações Sociais e utilizam seu espaço como janela política, ou eles não saibam o significado de apuração.

Cães em São José

Outro acontecimento que instiga nossos comentários é o caso dos sete cães que foram brutalmente assassinados em São José. Não fosse pela crueldade do fato em si, a cobertura jornalística também teve sua dose de impetuosidade. No dia 30 de abril (segunda-feira), o programa SC no Ar, da RIC TV, considerou ser suficiente veicular uma nota coberta (texto lido pelo apresentador, com imagens) para retratar o caso. Foi necessário que o caso se repetisse, em menos de 24 horas, para que a produção fizesse uma matéria, mas focada no protesto que aconteceu na Beira-Mar de São José pedindo justiça aos animais. Apesar de ser uma passeata, assim como a contraria as Organizações Sociais que aconteceriam na beira-mar norte na sexta-feira, as abordagens foram outras.

Enquanto uma manifestação é tratada de forma branda, outra se torna um problema de mobilidade urbana. A tradução das buzinas da fila nas manifestações em homenagem aos cãezinhos é que “os motoristas apoiam”. Na sexta-feira, os grevistas da saúde “ocupam avenidas, interrompem o direito de ir e vir abusando da paciência das pessoas”. O objetivo desta colocação não é tirar a importância das manifestações contra o caso do assassinato brutal de sete cachorros em São José — até por que não são só os cachorrões da telecomunicação estão indignados com tudo isso. Apenas impressiona a falta de precisão destas informações.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais.

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