Beatriz Clasen e Manuella Mariani
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

Na segunda semana de maio, a greve dos servidores públicos de Florianópolis completou 30 dias. Durante a cobertura, o telejornal NSC Notícias e o jornal Notícias na Manhã da rádio CBN, ambos pertencentes à empresa NSC Comunicação, acompanhavam o andamento da greve e as negociações entre o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem) e a Prefeitura Municipal.

Diariamente, as edições matinais do jornal radiofônico começavam com a notícia de que a paralisação dos servidores se estenderia por mais um dia, mas que no período da tarde uma decisão da assembleia dos trabalhadores poderia, finalmente, encerrar o movimento. Ainda na terça-feira (08/05), pela manhã, o apresentador Mário Motta apelava: “está na hora do bom senso falar mais alto, não sei se de um lado, de outro ou dos dois”.

Durante a cobertura, o jornal entrevistou representantes da Prefeitura – inclusive o Prefeito Gean Loureiro – e também o presidente do Sintrasem, Renê Munaro, ouvindo os dois lados como manda o bom jornalismo. De um lado se ouvia as propostas para o fim da greve, que envolvia desconto de dias não trabalhados para os servidores e multa e congelamento de bens para o sindicato. Do outro lado se ouvia a recusa da proposta e o anúncio de uma nova assembleia. Foi como noticiar um campeonato de pingue-pongue.

Além deles, também os ouvintes apresentavam sugestões de acordos para que a greve terminasse de uma vez. Em nenhum momento foram abordados os servidores que aderiram ao movimento. Por fim, a edição de sexta-feira do NSC Notícias anunciou o fim das paralisações dos servidores municipais.

A aprovação do projeto de lei das Organizações Sociais (OS), que motivou a mobilização dos servidores, foi abordada somente desta maneira: a causa da greve. Nada mais se soube sobre as OS de forma direta, já de forma indireta apareceu de forma inusitada e quase despercebida.

Na edição de quinta-feira do Notícias na Manhã (CBN) uma das pautas foi o movimento Maio Amarelo, campanha que promove a conscientização no trânsito para diminuir o número de mortes e acidentes nas rodovias. A notícia que seguiu o anúncio da campanha foi de que “os acidentes de trânsito ano passado [2017] custaram R$ 17 milhões com internações hospitalares pelo SUS [Sistema Único de Saúde]” e, para falar sobre o assunto, foi convidado o Diretor de Vigilância Epidemiológica, Eduardo Macário, que afirmou que os 17 milhões não contemplam outros dados como valores para reabilitação ou afastamento dos acidentados e, dessa maneira, afirma que “são custos grande para a sociedade”. Ficamos imaginando, então, qual seria a proposta de solução para tal problema.

A onda da gripe

Além da cobertura da greve dos servidores de Florianópolis, os jornais traziam reportagens relacionadas à saúde, uma vez que os servidores da área também participavam da greve. Por conta da paralisação dos servidores, apenas 23 dos 49 Postos de Saúde do município estavam disponibilizando atendimento. O baixo índice de vacinação contra a gripe H1N1- ou gripe A – foi justificada, nas reportagens, pela quantidade insuficiente de funcionários trabalhando.

Na edição do telejornal de segunda-feira (07/05) uma reportagem destacava a revolta de uma cidadã: “isso é um absurdo, sacrificar o idoso por causa de uma greve?”. Por outro lado, há quem apoie as reivindicações dos servidores: “acho justo, por que eles são bem batalhadores, né?”. Não foi ouvido nenhum servidor da saúde, tenha ele aderido à greve ou não.

O esforço básico de dar voz e apresentar os dois lados da história na cobertura se aplicou somente às fontes oficiais, enquanto a reprodução das opiniões do público foi tendenciosa já que, apesar da literal igualdade de voz, considerando que cada entrevistada teve cerca de 5 segundos de fala, o peso de cada uma delas esclarece o posicionamento da cobertura em relação a greve. E aqui a bola do jogo caiu.

Não dá pra dizer que questões de saúde não interessam, porém durante esta semana analisada, o tema foi explorado sempre relacionado, de alguma maneira, ao caso da greve. No telejornal, as aulas nas escolas públicas municipais não foram tão citadas quanto a saúde, como se situação da educação tivesse menos importância.

No geral, ambos os programas fizeram uma boa cobertura considerando o propósito de manter o público informado da situação da greve dos servidores municipais mas, infelizmente, não passou disso. Nada mais se sabe acompanhando a emissora de maior alcance e audiência da cidade. Nada se fala sobre as Organizações Sociais. Nada se sabe dos servidores grevistas. Nada se sabe além de que a greve terminou após um mês de paralisação.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado com por meio de análise dos programas noticiosos NSC Notícias (NSC TV) e o jornal Notícias na Manhã (rádio CBN), durante o período de 07 a 11 de maio de 2018.

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