Vanessa Pedro
Professora de Jornalismo da Unisul  e pesquisadora associada do Objethos

Onde há representantes de movimentos sociais reunidos e manifestações públicas de reivindicação no Brasil, o debate começa sempre com uma crítica à mídia e ao jornalismo. Em crise e passando por transformações, o jornalismo novamente mostra seu papel estratégico para a construção da sociedade, seja para o bem ou para o mal. Atualmente, mais como vidraça do que como instrumento de transformação. Mas vamos considerar que é parte das crises e das transformações da própria sociedade a disputa pelas narrativas que vão contar a história do momento atual e que ajudam a construir, elas mesmas, os rumos da política brasileira e da sociedade de forma geral.

Se está ficando feio para o jornalismo o papel que a maior parte das narrativas ocupa na contação sobre a vida brasileira de hoje em dia, mais complicado ainda fica para o próprio jornalismo que vê reduzido o seu espaço de protagonismo narrativo e seu acesso a fontes diversas. Sem contar que passa a ser visto como o “lado ruim da força”. A notícia boa é que estou falando de uma parte do jornalismo, em geral ligada às grandes corporações, e não do potencial e da função da área nem generalizando a sua atuação hoje no Brasil. A parte ruim é que esses conglomerados, mesmo não tendo acesso aos movimentos sociais, suas histórias e fontes, fala desses movimentos sem ouvi-los e ocupa lugar de protagonismo, mesmo que em decadência.

Em vários momentos nas últimas semanas, pude ver pessoalmente essa nova dinâmica da falta de acessos das empresas tradicionais de mídia a eventos e expressões dos movimentos sociais e populares. E da crítica à imprensa aparecendo como primeira crítica em análises de conjuntura, quando falam de perdas de espaço e direitos e de ameaças à democracia. Se antes a Imprensa Grande não tinha interesse de ver os movimentos de perto, hoje, os movimentos é que não têm interesse que ela entre. Um dos dias em que a crítica à imprensa foi um dos pontos altos se deu na semana passada, quando realizamos no Curso de Jornalismo da Unisul Pedra Branca, onde ministro entre outras certificações, a disciplina Jornalismo e Não-ficção, um encontro com líderes Guarani das aldeias que formam a Terra Indígena do Morro dos Cavalos. Uma das bases do projeto pedagógico do curso da Unisul é o Jornalismo de Povos, desenvolvido com os alunos desde as fases iniciais, onde mergulham em um contexto social escolhido por eles, vivenciam a experiência de alguma comunidade ou movimento, e realizam “vivências” ao longo do semestre. Essas vivências são a base para construir reportagens e para compreender as histórias vividas e contadas, a diversidade de fontes e as invisibilidades sempre presentes nas situações acompanhadas por eles. Em geral, escolhem comunidades estigmatizadas, invisibilizadas e com pouca representação na mídia tradicional. Povos que não são habitualmente fontes ou sobre os quais se fala utilizando outras fontes, em geral oficiais, e não eles mesmos para falar da sua realidade.

Já foram realizadas essas experiências de vivência em comunidades rurais, terapêuticas, grupos de jovens de subúrbio, comunidade pesqueira como as de Palhoça ou da Costa da Lagoa (Florianópolis), moradores de rua, detentos do presídio estadual, trabalhadores noturnos. Todas as escolhas e esta abordagem de compreender essas comunidades como povos, que têm experiências própria, relatos a oferecer, reflexões sobre sua realidade e sobre a sociedade de forma geral, terminam por enfrentar temáticas emergentes como as relações étnico-raciais, de educação ambiental ou de direitos humanos. E também se deparam com questões relacionadas ao próprio jornalismo.

Com os guarani

Neste semestre, na certificação ministrada à 7ª fase, voltamos à experiência do Jornalismo de Povos produzindo reportagens sobre os indígenas que vivem no próprio município de Palhoça e que estão num momento importante da longa luta pela demarcação das suas terras. Com o tema do semestre (*) “Povo Guarani: entre a expectativa da Terra Sem Males e a ameaça de retrocessos”, os líderes de duas aldeias foram recebidos pelos estudantes para uma primeira conversa sobre o cotidiano dos Guarani, os anos em processo de demarcação da TI Morro dos Cavalos, a relação com as políticas públicas dos governos locais e federal, a organização interna das aldeias e até a nova estratégia de escolher representantes para disputar postos nas próximas eleições. E já nas apresentações dos representantes dos Guarani, no início do evento, surgem as críticas ao jornalismo, as histórias de como eles não são ouvidos ou como suas histórias são distorcidas para virarem manchetes de impacto, para reforçar estereótipos e a ideia de conflito permanente.

Especialmente em relação à demarcação das terras do Morro dos Cavalos, uma das críticas dos líderes indígenas é pela permanente narrativa que os apresenta como empecilhos para o progresso, especialmente no caso de dizer em diversas ocasiões que eles seriam paraguaios e não indígenas locais e que atrapalhavam a duplicação da BR-101. Além dos Guarani terem oferecido a solução mais viável para a questão há bastante tempo, que seria a construção de dois túneis cortando o Morro dos Cavalos, a BR-101 que foi construída sobre as terras originárias e não as aldeias que seriam os ocupantes posteriores. Há divergência de narrativas, defesas, disputas, mas o papel da imprensa é apontado por eles como definidor da imagem que a sociedade acaba construindo a respeito da luta dos povos indígenas e, com essa imagem negativa, um dos responsáveis também pelo tempo que essa luta tem levado e que ainda não terminou. Aliás, a avaliação atual é que, apesar de faltar apenas a sanção presidencial para que a demarcação ocorra, o momento de retrocessos de direitos ameaça também os Guarani.

A mesma crítica foi feita por Sônia Guajajara, liderança indígena que ministrou aula magna na UFSC este mês e falou sobre a cronologia das disputas em torno das questões indígenas, dos modos de atuação do agronegócio e da disputa política das terras indígenas. A cobertura da imprensa é parte do quadro pintado por ela.

Guajajara lembra que não aparece na mídia a ideia de que a água que sai das torneiras das grandes cidades é o resultado da demarcação de terras indígenas, que cuidam mais das fontes de água. Eu diria que não aparece nem que os indígenas acham isso. Associada à crítica aos meios de comunicação, aparece também a valorização dos meios alternativos e coletivos de fazer jornalismo. Entre os movimentos sociais, iniciativas nascidas de coletivos de jornalistas ou em meios digitais, que não sejam ligados a práticas ou empresas tradicionais, vêm sendo valorizadas, citadas e vistas como lugares narrativos mais confiáveis. Espaços como Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Catarinas ou mesmo Nexo e até jornais tradicionais mas de veículos internacionais realizam seu trabalho com o reconhecimento dos movimentos e dos participantes anônimos como importantes para a diversidade de narrativas e fontes, sem receber hostilidades e transitando normalmente em eventos e outras iniciativas que vêm acontecendo Brasil afora.

Diversidade em Curitiba

O último exemplo deste momento da mídia brasileira que testemunhei foi o 1º de maio em Curitiba. Iniciativas de imprensa ainda chamadas de alternativas (mas também não sei até quando e se este é o melhor termo) realizaram suas coberturas, seus jornalistas circularam pelas ruas desde os arredores da sede da Polícia Federal, onde está preso o ex-presidente Lula, até durante os eventos que ocorreram em frente à Universidade Federal do Paraná (UFPR). A repórter da Associated Press trabalhava normalmente em meio à multidão, com câmera, celular, microfone e registro do evento que reuniu milhares de pessoas no Centro de Curitiba.

Veículos internacionais e meios digitais não tradicionais puderam ver a diversidade de pessoas, vindas de todos os estados, a venda de produtos naturais, os protestos, a venda de livros sobre democracia, a esquerda, conflitos, teóricos, as camisetas e botons com a foto de Lula, da Mafalda, da Frida Khalo, contra a homofobia, lembrando a vereadora Marielly, os discursos das Centras Sindicais, a música de Beth Carvalho, os moradores de rua conversando com os trabalhares de fora de Curitiba, os amigos que há tempo não se viam na própria cidade e se encontravam de forma inesperada no meio da praça. Em torno da PF, repórteres circulavam, registravam e ainda tinham uma sede, chamada Casa da Democracia, como apoio para suas transmissões, para carregar bateria de celular, fazer debates e realizar entradas ao vivo.

Mas é só um jornalista de um veículo tradicional aparecer no meio da multidão que os gritos de “fora, Globo” começam. Eram Sem Terra, mulheres camponesas, professoras, donas de casa, todos sempre narrados pela mídia tradicional como “militantes”, demonstrando que não toleravam a presença de jornalistas dos jornalões e TVs sem protestar. O desejo era de que saíssem do local. Não era apenas a vontade falar a eles de suas discordâncias e protestos, mas de dizer que eles não eram mais de confiança. Como jornalista, não consegui gritar contra um colega e contra o dever de contar histórias, mas sabia, com tristeza, que o jornalismo também estava recebendo o que fez por merecer. E a mulherada camponesa, que viajou quilômetros para estar ali, dizia uma para a outra: “deixa que eu vou lá dar um pau nele se ele não for embora”. Nenhuma de fato foi, mas era indignação generalizada e que demonstra que tão ruim quanto o efeito que as coberturas tradicionais têm causado para os movimentos, é o quanto o jornalismo praticado no Brasil por grandes veículos nacionais tem feito mal e tem empobrecido a narrativa e os acessos às fontes. A TV vaiada no final das contas nem era a Globo. Parece que era o SBT. Mas dá no mesmo.

Jornalista de veículo tradicional não tem mais acesso aos movimentos populares pelo trabalho que sempre deu de volta. Arrisco dizer que esses veículos causam estrago mas, a longo prazo, estão perdendo mais. Os colegas perdem de nos oferecer histórias diversas, complexas, distantes de estereótipos e cores, de conhecer pessoas como um trabalhador, hoje assentado, e um dos fundadores do Movimento dos Sem Terra em Santa Catarina, que numa conversa me contou suas histórias, como realizou ocupações, já escapou de emboscada de fazendeiro e já viu e contribuiu para muita gente ter sua terra, plantar, produzir e construir outra história de vida.

Essas histórias e de como o MST é um grande produtor de alimentos orgânicos não aparecem, nem nunca apareceram, entre as narrativas da grande imprensa brasileira. O que acontece agora é que os movimentos populares, e me refiro a manifestações das pessoas individual e coletivamente, e não uma decisão de cúpulas, estão recusando não apenas essas narrativas como seus narradores. Nos resta permanecer em disputa e em construção de narrativas e veículos diferentes para que a diversidade da sociedade brasileira seja representada, seja fonte e as histórias cheguem ao jornalismo e às pessoas. Esta é mais uma das questões das transformações e das crises do jornalismo contemporâneo.

(*) Registro que divido essa certificação com os professores Raquel Wandelli e Fernando Evangelista, num sistema desafiador e de resultados bastante positivos, que reúne unidades de aprendizagem (que poderiam ser vistas como disciplinas) sob o guarda-chuva temático de uma certificação. Portanto, os três professores, em noites sucessivas, ministram unidades diferentes (ou compartilhadas) de uma mesma certificação que resultam num mesmo projeto final do semestre.

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