Rogério Christofoletti
Professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Existem muitas razões para homenagear o jornalista Alberto Dines, que morreu na manhã desta terça, 22. Ele ajudou a modernizar o jornalismo brasileiro no século 20, insistiu em rigorosos padrões de qualidade para as redações e foi, sem dúvida, o pai da crítica de mídia por aqui. Esses três predicados já o colocariam em qualquer panteão dos maiores jornalistas do nosso tempo, mas Dines não se orientava por esse tipo de vaidade e nunca parava de trabalhar. O resultado foi uma vida plena, intensa e uma obra respeitável, materializada em livros, ações e iniciativas para aperfeiçoar o jornalismo.

Antes mesmo de ser o homem à frente do Observatório da Imprensa, que criou em meados da década de 1990, Dines já era uma lenda viva, tendo passado por algumas das principais redações do país e participado da modernização de outras. Poderia ter se acomodado na condição de honorável profissional e evitado um conjunto enorme de brigas e dissabores com colegas e com a indústria, mas Dines era um inquieto. Quando voltou de uma temporada em Portugal, trouxe na mente e na bagagem o projeto que se converteria no mais duradouro empreendimento de crítica de mídia da América Latina. O Observatório da Imprensa não se desdobrou apenas em site, uma curta experiência de fascículos impressos, e programas de rádio e televisão: tornou-se ao mesmo tempo uma arena de debates sobre a mídia e a sociedade, e uma bússola para gerações de repórteres, editores, pesquisadores e interessados no assunto.

Os maiores projetos acadêmicos a que me dediquei nas últimas duas décadas têm claras inspirações no trabalho de Alberto Dines. Em 2001, engatinhando na docência, criei o Monitor de Mídia na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), um observatório regional que não escondia as suas raízes: lançava um olhar crítico sobre o jornalismo local intencionando colaborar com seu desenvolvimento. Dines e seu melhor editor, Luiz Egypto, abriram generosos espaços no site do OI para que aquela modesta iniciativa fora do eixo pudesse prosperar. Oito anos depois, junto com outro mestre, Francisco José Castilhos Karam, criamos na Universidade Federal de Santa Catarina o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), espaço semelhante e que ainda se orienta por uma ideia martelada por Dines: é preciso exercer a crítica para que o jornalismo melhore.

Devo, portanto, muito à coragem, à inteligência, à honestidade e ao rigor de Alberto Dines. Sua presença e ação foram determinantes em outros momentos para a recente crítica de mídia no Brasil. Em 2004, a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) surgiu a partir de um chamado do professor Victor Gentilli no site do OI, e Dines foi um dos primeiros encorajadores da união de laboratórios e projetos universitários que aliassem ensino de jornalismo e crítica de mídia. Em 2006, o OI reuniu observatórios de imprensa da América Latina para um evento em São Paulo, permitindo troca de experiências e fortalecimento das iniciativas. O seminário Redações de Vidro foi organizado por Carlos Castilho e sinalizou como era possível tratar de qualidade e ética nas raquíticas indústrias jornalísticas do continente. A própria insistência de Dines na manutenção do OI como um ambiente democrático e importante para a evolução do jornalismo foi um gesto de desprendimento pessoal e intenso comprometimento com a profissão que escolheu. Nos últimos tempos, a saúde já não era mais a mesma, mas Dines mantinha uma rotina de trabalho incomum para um octagenário.

O jornalismo brasileiro é resultado dos atos e das vontades de muita gente, e Alberto Dines ocupa um espaço de honra nele. A crítica de mídia – que ele praticou desde a década de 1970 – cresceu e se impôs como uma possibilidade verdadeira de contribuição para o aperfeiçoamento técnico e ético, e como enaltecedora da importância do jornalismo no plano da democracia.

Perdemos as pessoas, não as referências. Dines se foi, mas Dines fica. Hoje, o farol se apagou, mas seu facho de luz apontou os caminhos a seguir.

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