Eduarda Hillebrandt e Matheus Vieira
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

Ao acompanhar os principais jornais que circulam na capital catarinense, o leitor desavisado pode pensar que a Grande Florianópolis é um território quase-deserto. Seus únicos habitantes trabalham nas repartições públicas e nos confortáveis escritórios do alto empresariado. Esta conclusão surgiu do monitoramento das edições do Hora de SC, Diário Catarinense e o Notícias do Dia entre 14 a 19 de maio.

Lemos as notícias e reportagens das 15 publicações impressas ao longo da semana em busca de fontes civis — aquelas que falam enquanto moradores da cidade, que não sejam especialistas, ricaços, políticos ou agentes públicos. Ao todo, 42 civis tiveram suas histórias ou opiniões ouvidas pelos jornalões daqui. O colunismo foi desconsiderado nesse levantamento, pois já foi alvo de crítica em artigo da semana passada  (Leia o texto aqui: https://bit.ly/2KMLDuG).

O Diário Catarinense (DC) é o jornal mais desconectado da população, chegando a ter duas edições (dia 16 e 18 de maio) em que nenhum civil é ouvido. Na reportagem que recebeu destaque na capa do dia 18, “Embargo europeu impacta setor pesqueiro do Estado”, a reportagem ouviu representantes do Ministério da Agricultura, da Cidasc, da Câmara da Pesca na FIESC e da maior exportadora catarinense de ovas, a Cais do Atlântico. Não há um esforço de documentar a recepção da medida na outra ponta da cadeia produtiva: os pescadores. Tão forte da ligação do periódico com a FIESC que, até em matéria sobre queda do desemprego, apenas a instituição é procurada para comentar.

A população costuma aparecer apenas em pautas relacionadas às políticas públicas para saúde e educação, servindo de personagem para ilustrar a tese da cobertura ou alguma pesquisa. A abordagem de personagem, pelo caráter utilitário, não busca aprofundar a história da fonte, nem tratá-la como ponto de partida, como acontece na matéria “Aumento no preço dos planos de saúde preocupa usuários”, na qual uma família afetada declara não considerar o SUS uma saída para a alta nos convênios. A técnica também é observada no jornal Notícias do Dia, que, apesar de dar mais espaço para civis reclamarem seus direitos, ainda o faz de forma a ratificar o que apareceu no release da manhã.

Esse é o caso da capa do ND da terça-feira, 15 de maio, “Bocaiúva humanizada”, que fala sobre como a revitalização de uma das principais ruas do Centro da capital vai melhorar a vida dos pedestres e moradores, isso sem dar atenção a esses agentes. Os dois civis citados — um comerciante e um morador da rua — dão as aspas e nunca mais voltam ao texto, deixando pouco claro como essa mudança de fato irá afetar suas vidas. Enquanto isso, cada fonte oficial tem pelo menos dois parágrafos para explanar os benefícios dessa ação.

A disposição de fontes do ND mostra um recorte invariavelmente favorável aos setores públicos. Vê-se isso na cobertura sobre a operação das forças policiais para retirar ambulantes não regularizados do Centro de Florianópolis. A notícia ocupa uma página na edição de quarta-feira, 17 de maio. Além de farto espaço para os esclarecimentos da secretária de Segurança Pública da cidade, a reportagem ouve a opinião de comerciantes regularizados simpáticos à força-tarefa — diferentes ângulos, exceto o dos ambulantes não regularizados. A mesma lógica guia a notícia sobre a força-tarefa do MPSC para eliminar cracolândias na divisa de Florianópolis e São José, na qual não foram ouvidos os dependentes químicos que dão nome ao lugar. Ou seja, uma lógica higienista que escamoteia o problema sem discuti-lo em sua complexidade e pluralidade de fontes.

Dos três periódicos, o que mostra mais afinco em traduzir o cotidiano da capital é justamente o Hora de SC, conhecido pelo perfil popular. Logo na segunda-feira (14), o jornal estampa o perfil de Dorival Gonçalves, um ex-catador de lixo que concluiu doutorado em linguística pela UFSC. A reportagem de Daiane Bazzo relata uma clássica história de superação sem, no entanto, alimentar o discurso da meritocracia, o qual é criticado pelo próprio protagonista. Outra reportagem de destaque é a “A bola já rola na nossa Rússia”, que comemora o aniversário de Biguaçu contando a história de um bairro da cidade que leva o nome do país. A reportagem é reciclada no Diário Catarinense, que a comprime em uma página. Mesmo que a maioria do jornal seja dedicado à novelas, horóscopo e futebol, o Hora procura ceder a capa para ao menos uma história humanizada por dia.

A saída para o sentimento de terra deserta vai além de escolher um personagem por pauta. As redações catarinenses precisam pensar processos diários de pauta emancipados dos releases e diários oficiais, contemplando as diferentes manifestações do cotidiano da cidade. Os grupos sem assessorias de imprensa estruturadas também precisam ser ouvidos, afinal eles compõem a maioria da demografia da Grande Florianópolis. Se a humanização se restringir às reportagens especiais (vide o caderno Nós e os trabalhos da repórter Ângela Bastos, do Diário), o leitor dificilmente se sentirá contemplado pelo noticiário diário, muito menos compelido a lê-lo. Assim, voltaremos ao mundo de antes da invenção dos penny papers — jornais baratos cujas matérias focam na experiência urbana —, à época em que jornalismo era feito sobre e para uma elite burocrática e industrial.

*

Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos jornais impressos Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina e Notícias do Dia, observados no período de 14 a 19 de maio de 2018.

Advertisements