João Paulo Mallmann e Luiz Felipe Buzzi
estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

            A greve dos caminhoneiros segue para o 10º dia, nesta quarta-feira, 30, no mesmo cenário de incertezas por parte do governo e de polaridade em volta de todos os discursos em cima da política de preços da Petrobrás e das taxas sobre o combustível. Analisamos a cobertura online dos jornais locais desde domingo, dia 20, quando começou a paralisação, estendendo até quarta-feira, um dia antes da publicação deste comentário. A narrativa que observamos inicialmente está atrelada somente às consequências da crise e que políticas de preço é um debate meramente ideológico.

            No Diário Catarinense, os primeiros dias de cobertura se aproximaram mais do factual e fizeram um contexto mínimo, insuficiente para explicar a dimensão do movimento e as reivindicações. A política de preços da Petrobrás surgia nas narrativas por mera obrigação, como uma entidade onipresente que controla o preço dos combustíveis. Afinal, o que é e o que representa essa política de preços? O que ela tem a ver com a crise que levou ao bloqueio das estradas? Não sabemos, só sabemos que ela existe e está aí.

            A primeira notícia da paralisação veio no domingo (20) de noite no portal do DC. A primeira manchete já trazia a informação de que os caminhoneiros autônomos haviam paralisado nove trechos em Santa Catarina — o que iria aumentar significativamente ao longo da semana. A matéria no início se preocupa em informar os locais de manifestação e aponta as principais reivindicações dos caminhoneiros autônomos contra o aumento do diesel. No final da reportagem, em um único parágrafo, há um relato superficial sobre a mudança na política de preços da Petrobrás: “O aumento é resultado da nova política de preços da Petrobrás, que repassa para os combustíveis a variação da cotação do petróleo no mercado internacional, para cima ou para baixo. Nos últimos meses, porém, o petróleo tem apresentado forte alta – na semana passada, chegou a bater na casa dos US$ 80 o barril, valor que não registrava desde novembro de 2014.” (https://bit.ly/2skxuOu)

            Na segunda (21/05) e na terça feira (22/05), o jornal seguiu noticiando o vai-e-vem dos preços da gasolina e do diesel por conta, de novo, da onipresente “Política de Preços da Petrobrás”, enquanto subia o número de caminhoneiros aderindo à manifestação. Na segunda (21) às 17h36, passou de nove para 14 trechos paralisados; na terça (22) de manhã, já chegava em 29 trechos. A preocupação da população foi crescendo proporcionalmente com o crescimento da paralisação — na quinta já passavam de 80 trechos parados. Na terça de tarde a manchete é um alarme do presidente da Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina (Fetrancesc): “Poderá haver desabastecimento”. E na quarta (23/05) — três dias depois do início — o jornal passa a dar mais fôlego em cobrir a situação. Mas ainda assim, ninguém se preocupa em explicar com coerência o que é a política de preços da Petrobrás, a grande causa da crise.

            Desabastecimento no mercado, filas em postos de gasolina, caos total, vias paradas, e o governo que não sabe negociar, consequências e consequências ao longo da semana. Para não falar que não deram destaque nenhum para a causa da crise, uma notícia veiculada às 15h11 de quarta-feira (22) abre um parêntese non-sense: “Shell defende política de preços de combustíveis conduzida pela Petrobras”. Tal notícia não contextualiza o tema, não apresenta os personagens da trama, não diz a sinopse do filme ao público, mas “revela” que a Shell, um crítico estrangeiro, gosta do jeito que está. Prioridades.

Intervenção militar, Já!

            O portal ND Online, no início, parecia não levar tanta fé na paralisação dos caminhoneiros. A impressão que fica é a de que o movimento só ganhou importância após os efeitos serem mais diretamente notados pelo mercado, com a paralisação total na Aurora Alimentos, que depende do transporte de animais por via terrestre.

            Na quinta-feira (24/05) aparecem os primeiros sinais de uma possível falta total de combustíveis nos postos de gasolina. É quando a temática ganha prioridade. Após isso, e outras notícias pontuais, foi publicado um interessante “guia” sobre a greve e o porquê da massiva maioria dos caminhoneiros não aceitar os acordos propostos pelo presidente por acidente Michel Temer, mas o esclarecimento de um fato que muito chamou atenção de quem acompanha os protestos em todo Brasil passou batido: os pedidos de “Intervenção Militar Constitucional” (todas as aspas do mundo para esse eufemismo) por parte de alguns caminhoneiros, infiltrados e em manifestações de apoio aos motoristas.

            Os pedidos, que soam como uma viagem no tempo diretamente para a Guerra Fria, podem parecer (e são) maluquice, mas são mais comuns do que se imagina. Será que, além das colunas, não caberia ao jornalismo, principalmente virtual, ao menos uma tentativa de elucidar este tema? Ou pelo menos de conhecer melhor quem e por que pedem essa passagem na máquina do tempo? Certamente viriam as pancadas por parte desses grupos, mas a estratégia de ignorar para não deixar crescer, neste momento, é falha: as ideias já estão difundidas, principalmente por meio de redes sociais, e pouco houve na imprensa algo que fosse um contraponto de credibilidade favorável à democracia. Não adianta seguir posições oficiais e não enfrentar o incômodo, o jornalismo sempre deve ir além.

(*) Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos portais de notícias na internet do Diário Catarinense e Notícias do Dia, observados no período de 21 a 25 de maio de 2018.

 

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