Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS.

Caos. Essa é a melhor definição para o cenário que emergiu diante da greve dos caminhoneiros que assolou o Brasil de maneira avassaladora. Mais uma vez, o sistema logístico do país demonstrou a sua fragilidade e as escolhas políticas adotadas ao longo do tempo cobraram a fatura da dependência absurda e estranguladora do transporte rodoviário. No âmbito jornalístico acompanhamos abordagens que, predominantemente, preocupam-se em difundir amplamente as consequências da greve e pouco tratam de suas causas e motivações.

Em 30 de junho de 2017, quando a Petrobras anunciou a sua nova política de preços, ironicamente um dia de “Greve Geral”, as manchetes de portais e jornais tradicionais não apresentavam as possíveis consequências negativas da irresponsável medida governamental, como pode ser observado a seguir:

Portal G1:

1

Acesso em: https://g1.globo.com/politica/noticia/petrobras-podera-reajustar-precos-de-gasolina-e-diesel-diariamente.ghtml

 

Folha de S. Paulo:

2

Acesso em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1897332-petrobras-podera-reajustar-precos-de-gasolina-e-diesel-ate-diariamente.shtml

 

Portal UOL:

3

Acesso em: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2017/06/30/petrobras-podera-reajustar-precos-de-gasolina-e-diesel-ate-diariamente.htm

 

Valor Econômico:
4

Acesso em: http://www.valor.com.br/empresas/5022726/petrobras-nova-politica-de-precos-da-maior-liberdade-area-comercial

 

Agência Brasil:
5Acesso em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-06/reajustes-de-precos-da-gasolina-e-diesel-podem-ser-diarios-anuncia

 

O Globo:
 6Acesso em: https://oglobo.globo.com/economia/reajuste-de-combustivel-agora-pode-ser-ate-diario-diz-petrobras-21538488

 

Estadão: 7Acesso em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,petrobras-podera-ajustar-preco-de-combustivel-diariamente,70001871824

 

Nesse mesmo sentido, o Jornal do Comércio produziu uma entrevista de oito minutos com um economista que explicava as variáveis e a lógica mercadológica das medidas adotadas pela direção da petrolífera. Novamente o dólar e o mercado foram os aspectos principais da abordagem. Por mais que um dos entrevistadores tenha buscado tratar das possíveis implicações sociais da medida, o “especialista” continuava falando das vantagens e perspectivas positivas para o mercado (veja a entrevista aqui).

No mesmo dia, 30 de junho, os principais telejornais da TV aberta brasileira noticiaram a novidade de maneira passiva e acrítica. No Jornal Nacional a famigerada política de preços foi informada por meio de uma nota pelada de 20 segundos (veja aqui). No Jornal da Band a medida foi abordada em uma matéria de dois minutos e 17 segundos que enaltecia as “vantagens” para o consumidor e para a estatal (veja aqui). A mesma estratégia foi adotada no Jornal da Record em uma matéria de um minuto e 17 segundos (veja aqui).

O enquadramento meramente econômico de questões sociais e políticas muito mais amplas é típico do jornalismo brasileiro que regularmente trata o “mercado” como um agente protagonista de suas pautas. De maneira geral, as fontes especializadas que se manifestam nas abordagens jornalísticas estão alinhadas a uma visão tacanha e simplificadora de questões complexas que envolvem diversos âmbitos do cotidiano social. Ao apostar exclusivamente na visão de economistas neoliberais e especialistas ligados ao mercado financeiro, a forma de tratamento das informações dificulta entendimentos e as avaliações de possíveis consequências, que não são meramente econômicas, passam despercebidas ou são minimizadas. Nesse sentido, as informações produzidas pela grande parte dos jornalistas não apresentam elementos de esclarecimento e agem como um instrumento de desinformação.

A dinâmica perversa do jornalismo rarefeito

Enquanto para os economistas e para o mercado a política de preços adotada pelos diretores da Petrobras foi apresentada como algo com perspectivas positivas, na prática o resultado foi catastrófico para os consumidores. Menos de seis meses depois da implantação da nova política de preços a estatal modificou o valor da gasolina 116 vezes e o diesel passou por 120 alterações de preço (o valor da gasolina acumulou uma alta de 29,54% e o diesel registrou uma valorização de 25,42% no período). A volatilidade deu margem para formas de especulação e aproveitamento abusivo por meio de aumentos sucessivos e descontrolados dos combustíveis.

Em editorial divulgado em dezembro de 2017, a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) alertou de forma contundente sobre a nocividade da política de preços adotada pela petrolífera: “Ocorre que os erros do passado não podem justificar, ou legitimar, os graves erros que estão sendo cometidos atualmente, notadamente em relação a política de preços da Petrobras. A política de preços, como demonstrado, está viabilizando interesses privados e estrangeiros com aliados nacionais, em detrimento da Petrobras e da maioria dos brasileiros que consome, direta e indiretamente, os combustíveis com preços desproporcionalmente altos em relação ao mercado mundial”.

De acordo com a associação, os preços altos praticados pela estatal favorecem os seus concorrentes: “Ganham os refinadores norte-americanos, os “traders” internacionais, os importadores de capital privado e as distribuidoras privadas”. O editorial enaltece os prejuízos para os consumidores brasileiros e chama a política de preços de “America first” ou “Os Estados Unidos primeiro”.

A homogeneidade e obediência ao “mercado”, constatados nas abordagens jornalísticas de meios tradicionais, está na essência de uma das temáticas centrais que desencadeou o cenário catastrófico instalado pela paralização dos caminhoneiros. Essa postura denuncia a nocividade do trabalho rarefeito, pouco denso, quase nulo dos jornalistas. Mesmo após a celeuma desencadeada pela greve, os motoristas e a população em geral continuam sem um entendimento claro e parecem desconhecer plenamente o funcionamento da política de preços alardeada pelo presidente da Petrobras, Pedro Parente, e sua equipe especializados em marketing e “market share”.

A estupidez de “subversivos” que apoiam repressores  

Em 2013 como jornalista acompanhei de perto uma mobilização dos caminhoneiros. Na época os grevistas pretendiam discutir a implementação da “Lei do Caminhoneiro” e o preço dos pedágios. Naquela ocasião tive a oportunidade de entender com mais profundidade o universo de problemas enfrentados por motoristas explorados que enfrentam o perigo das estradas, os abusos de patrões e empresários, assim como jornadas de trabalho estafantes que em diversas ocasiões desencadeiam o uso de drogas e a deterioração da saúde mental e física dos profissionais. A simplificação e o tratamento pontual dessa problemática revela uma ação clara de manipulação e obscurece inúmeros interesses que atravessam esse segmento da economia que tem reflexos determinantes no campo político.

Exemplo disso são as manifestações que ocorreram no início de 2015, ocasião em que os caminhoneiros fecharam as rodovias e desencadearam um dos fortes elementos de desestabilização que corroborou com a formatação de um cenário alinhado ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em maio de 2018 acompanhamos essa relação paralela com o ambiente político se repetindo, entretanto dessa vez alguns integrantes das mobilizações se manifestam em favor da “intervenção militar”. De maneira inacreditável, ignorante e irresponsável “subversivos” apoiam repressores. Em um ato de greve, possibilitado pelo sistema democrático, parcela dos caminhoneiros se insurge contra a democracia e faz referência a um sistema repressivo e letal que é sustentado pela restrição de liberdades.

Em tempos sombrios quando os uniformes militares voltam a ser recorrentes no ambiente político e as políticas de governo estão cada vez mais atreladas aos interesses estadunidenses essa atitude se torna ainda mais inacreditável. Os indivíduos desinformados que querem militares no poder precisam reavivar suas memórias. Recentemente, a revelação de um memorando secreto da CIA demonstrou que o general Ernesto Geisel, presidente durante o regime militar (1974 a 1979), sabia e autorizou a execução de opositores “subversivos”. Era o regime que decidia quem eram os subversivos, de forma que no contexto atual os caminhoneiros se enquadrariam facilmente a esse perfil.

Já em 2013 a Agência Pública tratou da relações diplomáticas espúrias entre o Brasil e os Estados Unidos durante a ditadura militar na série de reportagens WikiLeaks PlusD. A série especial de 11 reportagens foi publicada entre os dias 07 e 14 de abril e aborda documentos emitidos entre 1973 e 1976. O arquivo completo expõe em detalhe as ações do diplomata estadunidense Henry Kissinger em relação à ditadura brasileira, em especial durante o governo do general Ernesto Geisel. “Até agora não se sabia a real dimensão deste arquivo. São mais de 8.500 documentos enviados pelo Departamento de Estado dos EUA para o Brasil e mais de 13.200 documentos enviados da embaixada americanas em Brasília e consulados a Washington – mais de 1.400 são confidenciais, e mais de 115 secretos” (VIANA, 2013, online). As entranhas do poder expostas pela série WikiLeaks PlusD da Agência Pública rementem à possibilidade de reinterpretação dos fatos e reflexão sobre qualquer forma de intervenção militar no campo político.

O caos também nos apresenta a oportunidade de refletir sobre diversas questões que tangenciam mais uma mobilização com potencial de resolver problemas pontuais da categoria, mas está muito distante de encaminhar qualquer solução para os problemas estruturais que permeiam a profissão desde sempre. O preço dos combustíveis é uma reivindicação constante e regular das paralizações, no entanto, esse álibi é só uma face de uma problemática muito mais ampla e difusa que envolve questões econômicas e políticas, exploração, oportunismo e hipocrisia. As perguntas que emergem desse cenário são: que debate o jornalismo está fomentando? Que debate o jornalismo poderia fomentar? As abordagens jornalísticas favorecem a democracia e o entendimento dos fatos?

 

Referências:

ASSOCIAÇÃO DOS ENGENHEIROS DA PETROBRAS – AEPET. Editorial: Política de preços de Temer e Parente é “America First!”. 12/12/2017. Disponível em:  http://www.aepet.org.br/w3/index.php/artigos/noticias-em-destaque/item/1125-editorial-politica-de-precos-de-temer-e-parente-e-america-first. Acesso em: 27 mai 2018.

FERREIRA, Afonso. Petrobras reajustou preço da gasolina 116 vezes em menos de 6 meses. 28/12/2017. Portal UOL. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2017/12/28/petrobras-reajustes-gasolina-diesel.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 27 mai 2018.

PORTAL G1. Em memorando, diretor da CIA diz que Geisel autorizou execução de opositores durante ditadura. 10/05/2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/em-memorando-diretor-da-cia-diz-que-geisel-autorizou-execucao-de-opositores-durante-ditadura.ghtml. Acesso em: 27 mai 2018.

TORRES, Ricardo. Jornalismo vigilante: indícios e interconexões históricas entre jornalismo e vigilância. Revista Comunicação Cultura e Sociedade. N.07, Vol. 7, ed.007 Dez. 2016/Dez.2017. Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/ccs/article/view/2594. Acesso em: 27 mai 2018.

VIANA, N. “Conheça o PlusD, a Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks. Agência Pública”, 07/04/2013. Disponível em: https://apublica.org/especial/wikileaks-plusd/. Acesso em: 27 mai 2018.

 

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