Carolina Maingué e Fernanda dos Santos Felizari
Estudantes de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

            O jornalismo é uma atividade profissional com diversas atribuições, sendo uma delas a de prestar serviço aos cidadãos e cidadãs, oferecendo informações úteis para seu cotidiano, seu planejamento diário. Isto é, também, prestar um serviço de comunicação. Entretanto, ao observar os portais de notícias online do estado de Santa Catarina na última semana, entre os dias 28 de maio e 1º de junho, é possível notar que o jornalismo se limitou a este trabalho quase exclusivamente. O desenvolvimento de uma matéria crítica, analítica, contextualizada e com contrapontos foi deixado de lado nos veículos justamente em um momento de crise, e a apuração encontrada é majoritariamente oficialesca, resumindo-se a repetição de discursos de autoridades.

            A greve dos caminhoneiros foi o assunto principal em todos portais analisados. Apesar de termos procurado outros aspectos da cobertura que pudessem motivar este comentário que nos comprometemos a fazer, sobre a atuação da mídia local durante a última semana, os próprios veículos não nos deixaram muitas opções ao focar quase exclusivamente na greve/locaute dos caminhoneiros. Como uma mobilização nacional, é indiscutível que a greve interferiu diretamente em Santa Catarina e necessitava ser retratada. No entanto, é complicado para as redações locais possuírem repórteres em outros estados, o que pode ter sido um dos principais empecilhos para uma produção autônoma: nos temas que diziam respeito a todo o país, os conteúdos jornalísticos encontrados consistiam tão somente em reproduções integrais de outros veículos, como a Folhapress e o Estadão Conteúdo.

            Na quinta-feira, pelo menos 16 matérias do Diário Catarinense que discutiam os efeitos nacionais da greve eram replicações. Outras duas foram feitas por Matheus Schuch, correspondente em Brasília da Rádio Gaúcha e do portal Gaúcha/ZH. Uma outra, trazia o indicativo de que foi redigida pela Agência Brasil só ao final da página, fato que possivelmente iludiu alguns leitores – e iludiu a nós, autoras deste texto – sobre o DC ter sido responsável por pelo menos esta reportagem. Com isso, não queremos nem de longe afirmar que os e as repórteres não são qualificados para produzir análises profundas sobre temas nacionais ou locais, e sim tentar entender quais os interesses ou questões estruturais, por parte das empresas de comunicação, que suprimem a atuação de seus jornalistas.

            A falta de autonomia pode até ser explicada diante dos recursos escassos e das redações enxutas. Mas em uma realidade como essa, por que não voltar olhares, talvez, para os impactos políticos da greve em Santa Catarina? O que disseram caminhoneiros e líderes sindicais que se mobilizaram no estado? O DC e o Hora de Santa Catarina publicaram a mesma notícia sobre a posição do governador, Eduardo Pinho Moreira, em relação a diminuir o ICMS, imposto estadual sobre os combustíveis. Porém a matéria saiu com tom de assessoria, sem colocar para análise a afirmação do governante de que “Santa Catarina possui um dos menores índices do imposto, que é de 12%, e (…) não há margem para que o estado abra mão desta receita”.

            A questão chave da greve, que é composição dos preços dos combustíveis, não foi tratada com profundidade. Qual a porcentagem do valor que é determinada pelos impostos estaduais? E pelos federais? Quais eram os valores brutos do diesel antes da política de preços da Petrobrás ser alterada por Pedro Parente, que os atrelou ao valor cobrado pelas empresas estrangeiras, de acordo com a flutuação do dólar? Houve alguma mudança brusca, poucos dias antes da deflagração da greve, decorrente das flutuações do preço médio do combustível no mercado internacional? Essas informações podem ser facilmente encontradas no site da empresa e em um estudo consultivo, identificado sem muita dificuldade, realizado para a Câmara de Deputados em 2016. Os ganhos e perdas econômicos com a venda das refinarias da Petrobrás e como isso influenciou no atual quadro de combustíveis são outros pontos que poderiam ser abordados, por meio da consulta a especialistas, por exemplo.

            Com essas questões no ar, e deixando um vácuo sobre o reflexo político da greve no estado, os portais se centraram em notícias de serviços sobre a situação dos bloqueios, o funcionamento do transporte público e de serviços das áreas da saúde e da educação. Ou então em assessorias para o governo e as indústrias. Na terça-feira (29/05), tanto o G1/SC quanto o ND Online noticiaram a retomada das atividades da Aurora após paralisação em uma matéria exclusiva para este fato. Ainda no mesmo dia, reportaram os prejuízos para as indústrias, ouvindo apenas a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC).

            Outro ponto importante a ser analisado, que precisa ser tratado com mais rigor dentro da redação, são as falsas conexões encontradas nas narrativas criadas pelas manchetes. Em uma reportagem sobre a greve na terça-feira (29/05), o ND traz a seguinte chamada na página principal: “PM afirma que infiltrados entre caminhoneiros em SC são violentos e causaram confrontos”; já a linha fina interna diz:  “Governo do Estado afirma que não há mais bloqueios em rodovias catarinenses e que rotina será normalizada até o fim de semana”. No texto, a voz do comandante da PM coronel Araújo Gomes afirmando que o movimento que começara ordeiro parece ter sido infiltrado. Porém, a notícia só cita uma ocasião, na qual um veículo foi atingido por uma pedra e uma criança, que estava no banco traseiro, quase foi atingida. Não há informações suficientes que legitimem o uso desta manchete. E quando um portal esbarra nesses desencontros, ele contribui para o ecossistema da desinformação. E neste período em que as fake news têm tido tamanho impacto e compartilhamento, uma falta de ligação consistente entre os fatos contribui muito para a desinformação dos seus leitores.

               Além disso, qual a sustentação para se afirmar que pessoas envolvidas com os atos, mesmo as violentas, são infiltradas? Elas assumidamente “fingem” que são caminhoneiras ou apenas se somam aos protestos, trazendo suas próprias reivindicações que, de alguma forma, podem dialogar com as demandas do movimento? Aliás, por que elas são violentas? Seria simplesmente um desejo pela desordem ou há a possibilidade de ser uma forma de escoar o descontentamento diante da impotência política? As questões clamam para ser respondidas, e um bom jornalismo deveria ser o primeiro a começar este tipo de investigação. As pautas estão por toda parte, borbulhando, mas parece que os jornais locais não têm notado a água fervente prestes a derramar.

            A transparência e a visibilidade de informações públicas das autoridades com certeza são fundamentais para uma boa comunicação e para o fortalecimento da democracia, porém não se pode deixar cair na simples transmissão dos fatos, excluindo outras fontes igualmente relevantes. O jornalismo perpassa debates diversos e é muito importante que as noções venham também da participação social. O que se viu na última semana foram portais reféns da lógica da prestação de serviços, distantes do povo e em sintonia com os representantes do governo e das indústrias. Quem sai perdendo, além da profissão do jornalista, é o público, que recebeu explicações rasas para entender os motivos que impulsionaram essa greve, e saiu sem entender profundamente como e porquê ela teve fim.

(*) Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais (Floripa). O texto foi elaborado por meio de análise dos portais de notícias na internet do Diário Catarinense, ND online, G1 Santa Catarina e OCP News, observados no período de 28 de maio a 1° de junho de 2018.

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