Beatriz Clasen e Manuella Mariani
estudantes de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

A greve dos caminhoneiros parou o Brasil nas últimas duas semanas. Telejornais, jornais impressos e portais de notícias comentavam e mudavam sua programação para cobrir o assunto. Enquanto as estradas eram ocupadas por máquinas e motoristas, os jornais do estado eram escritos com depoimentos apenas de fontes oficiosas. Aqueles que dormiam à bordo da boleia parados no acostamento, continuavam lá, pois suas vozes não eram ouvidas nas reportagens.

O jornal de maior circulação no estado, o Diário Catarinense (DC), durante a semana de 28 de maio a 1º de junho, produzia suas reportagens citando informações cedidas por fontes políticas, comerciantes ou pessoas não ligadas diretamente à greve. Além disso, quando trazia para o texto uma pessoa ligada a greve, as aspas apareciam apenas em um momento, não aprofundado na história do personagem. Enquanto isso, as fontes oficiais ganhavam espaço no jornal mesmo através de publicações em redes sociais, como o Twitter.

Acompanhando a cobertura durante essa semana foi difícil entender a greve. Não havia uma reportagem específica que identificasse os motivos: Quais as reivindicações dos caminhoneiros? Quais as condições enfrentadas pelos que estavam parados nas beiras das estradas? Por outro lado, as reuniões e decisões do governo eram esclarecidas, de pronto.

A segunda semana de greve dos caminhoneiros foi marcada pelo auge das matérias de prestação de serviços. Relatos das consequências causadas pela escassez de combustível nos postos era o que não faltava nas páginas do jornal da capital, sejam as alterações nos horários de ônibus, cancelamento das aulas e até a mudança na rotina da coleta de lixo.

Durante essa semana, o primeiro caminhoneiro citado no Diário Catarinense foi Felipe dos Santos, que participava das paralisações na rodovia BR-101, em Palhoça. Difícil entender a escolha desse caminhoneiro em especial, talvez tenha sida coincidência, talvez foi o único que tenha concedido entrevista para um jornal da “grande mídia” ou foi escolhido a dedo dentre todos os outros. Veja bem, Felipe acredita no movimento separatista chamado O Sul é o Meu País, que propõe a emancipação política e administrativa dos três estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Em entrevista ao DC, o caminhoneiro revela: “Há aquela história que o ‘Sul é meu País’ e eu acho que com essa greve a população tomou mais conta disso. Há uma questão de identidade muito forte”

“Sobrou para a maioria”

O jornal não explorou e quase não publicou o ponto de vista dos caminhoneiros. Enquanto esse lado faltou conteúdo, por outro sobrou assunto com reportagens enfatizando os problemas da greve. As manchetes diziam: “Santa Catarina vive dias atípicos”, “Prateleiras vazias são motivo de preocupação”, “Terceiro estado com mais bloqueios”, “População catarinense está desamparada” e até “Rede hoteleira registra queda nas reservas para o feriado”. A preocupação com a rede hoteleira em Florianópolis para o feriado de Corpus Christi era maior do que saber como ficariam os trabalhadores que faziam a paralisação.

Outro título que merece destaque é “General diz que não há risco de militares cometerem erros”. O secretário nacional de Segurança Pública, Carlos Alberto dos Santos Cruz declarava que as Forças Armadas estariam preparadas para atuar na desobstrução de rodovias e que não haveria “erros”. Contudo, a matéria esclarecia que a Força Nacional não atuaria diretamente com ações nas rodovias, o que tornava o título, de certa forma, assustador considerando o contexto atual, que inclui uma onda de pedidos de intervenção militar no país. Além disso, o General dizia que não importa “quem está certo e quem está errado”, apenas precisariam regularizar a situação, “para o bem-estar de todo mundo”.

Uma das matérias ressaltava o título “Santa Catarina vive dias atípicos”, contudo dias atípicos vive o jornalismo, com precariedade de fontes, releases, publicações com um único ponto de vista, gerando manipulação e perdendo a confiança dos leitores. Um acontecimento político tão importante quanto esse movimento dos caminhoneiros, num ano eleitoral não foi suficiente para gerar uma cobertura digna.

O descompromisso do jornal com os grevistas está cada vez claro. O DC oferece aos seus leitores nada além do mínimo a ser informado, isso vem sendo notado desde a cobertura da greve dos servidores municipais de Florianópolis, que durou um mês e teve pouquíssima visibilidade nas páginas impressas, como já abordado na crítica dos colegas e pode ser conferido aqui. Na sexta-feira, o editorial intitulado “Sobrou para a maioria” mostrava a frustração do veículo que sempre esteve contra o movimento dos caminhoneiros. Explicando as decisões do governo quanto aos cortes de verba principalmente nas áreas da saúde e educação. Frustração essa que não se fez presente durante a cobertura da greve dos servidores municipais, que reivindicavam melhores condições para a saúde e educação em Florianópolis.

É quase como se o compromisso do jornalismo do Diário Catarinense estivesse negando sua função social e não tentasse mais disfarçar para quem escreve e, certamente, não é para o povo.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise do jornal impresso Diário Catarinense, observado no período de 28 de maio a 1º de junho.

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