Siliana Dalla Costa
Mestranda em jornalismo no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

A imagem fotográfica que abre este texto marcou o jornalismo internacional neste fim de semana. A repercussão se deve pelo fato de que a fotografia é a que melhor reflete o clima de tensão entre os chefes dos sete países mais ricos do mundo, que estiveram reunidos neste sábado em Québec, no Canadá. A imagem original foi registrada por Jesco Denzel (fotografo oficial do governo alemão) e publicada na conta da chanceler alemã, Angela Merkel, no Twitter. A fotografia chegou a ser descrita pelo jornal Washington Post como estratégica, visando “uma grande jogada” da equipe de comunicação de Angela Merkel em busca dos famosos memes o que não demorou a acontecer. Entretanto, ao ser despachada pelas agências internacionais de notícias, é possível fazer uma leitura que tem menos a ver com senso de humor do que com a capacidade destes agentes midiáticos em provocar uma simetria global no noticiário.

Após ser amplamente divulgada, a imagem viralizou nas redes sociais e chegou a ser interpretada como uma pintura renascentista. Independente de sua plasticidade estética e da mensagem que denota, a fotografia deixa transparecer de forma muito clara uma simetria preocupante no jornalismo internacional, como se todos os veículos fossem pautados e editados por um mesmo editor: as agências internacionais. Fruto da dependência dos veículos nacionais por conteúdos despachados pelas agências noticiosas, a falta de originalidade é cada vez mais comum nas editorias de mundo.

Para se ter uma ideia, em uma pesquisa rápida, realizada entre a noite deste sábado e a manhã deste domingo, 28 portais de notícias, sites ou webjornais do Brasil e do mundo estampavam em suas respectivas capas essa mesma fotografia. Só para citar alguns, a imagem foi publicada pela Folha, G1, O Globo e R7, além dos endereços eletrônicos dos principais jornais do mundo como: New York Times, The Washington Post, El País, Le Monde, The Guardian, Le Figaro, Welt, Frankfurter Allgemeine Zeitung, China Daily entre outros.

Apesar dos veículos observados creditarem a imagem ao fotógrafo, a maioria também vincula a fotografia à alguma agência internacional, prospectada fundamentalmente pelo grupo de agências europeias ou norte-americanas tais como: Reuters, Associated Press (AP) ou Agence France-Presse (AFP). Ou seja, a imagem foi obtida via agência e demonstra não só a capacidade de atuação destes agentes hegemônicos, como também o domínio que têm do mercado mundial de notícias e sua histórica influência no próprio conceito de notícia (BOYD-BARRET, 2010).

Um texto para uma imagem

Diante da fotografia emblemática, é perceptível a dificuldade de alguns veículos em vincular a imagem ao texto. O Globo, por exemplo, passa mais da metade da reportagem descrevendo a linguagem corporal da fotografia para, só então, adentrar o assunto da reunião do G7. Já o G1 preferiu não entrar nas nuances da imagem e focar unicamente nos fatos. Outros veículos como Folha de S. Paulo  e New York Times, por sua vez, parecem ter encontrado uma boa saída. Ambos focaram na declaração que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu em sua conta no Twitter logo após deixar a reunião do G7. Ao afirmar que retirava o apoio ao documento final da reunião, os veículos conseguiram transformar em palavras o que a imagem diz.

Em contrapartida, essa prática, que é cada vez mais comum no trabalho das agências noticiosas, reflete outra preocupação não só do noticiário internacional, mas do jornalismo como um todo: as inúmeras publicações baseadas em declarações e anúncios feitos pelas redes sociais. De modo geral, esse tipo de informação resulta em publicações do gênero notícia, ou seja, textos que se esgotam em si mesmo e cuja compreensão bastam as informações do próprio fato. A falta de contextualização e aprofundamento dos fatos tem fragilizado o jornalismo internacional praticado pelos veículos nacionais e revelado dificuldades das próprias agências em lidar com esse tipo de informação. Ao “venderem” uma ideia de onipresença,  as agências dependem da disponibilidade de uma rede de fontes cada menos acessível fisicamente e mais presente nas redes sociais.

A importância do correspondente

Independente de ser uma foto recheada de líderes de países de primeiro mundo, discutir o trabalho das agências internacionais passa, necessariamente, pela importância do trabalho do correspondente ou do enviado especial. E este profissional está em extinção, especialmente quando se fala em conflito. Recentemente, o trabalho do jornalista brasileiro e especialista em cobertura de guerras, Yan Boechat, ficou conhecido no mundo pela atitude que teve diante de um conflito. Ao socorrer uma mulher na faixa de Gaza, o jornalista revela que a verdade sobre o jornalismo não é sedutora. Cada vez mais os relatos são feitos baseado em jornais locais, em entrevistas ou comunicados oficiais publicados em redes sociais. Poucos são os que se dispõem a ir aonde a notícia está, ou seja, apurar in loco. Só o fato de estar no ambiente do fato permite ao jornalista um relato melhor, mais completo ou, então, a descrição perfeita de uma fotografia emblemática como a veiculada neste fim de semana.

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