Eduarda Hillebrandt e Matheus Vieira
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

O portal do jornal Notícias do Dia (Grupo RIC/Record) publicou ao longo da última semana duas reportagens sobre a expansão de moradias precárias em áreas irregulares em Florianópolis. A primeira foi veiculada na terça-feira (5) sob o título Prefeitura não consegue conter avanço de ocupação no Alto da Caieira, em Florianópolis. A segunda, publicada na sexta-feira (8), anuncia que Bolsões de pobreza se multiplicam em Florianópolis.

A primeira publicação trata da construção de residências em um terreno de 30 mil m2 no Alto da Caieira registrado como Área de Preservação Limitada (APL). O excerto inicial da primeira matéria mostra certa surpresa com a poluição visual do Morro da Cruz. “A multiplicação das casas, algumas em locais de risco, quase todas sem o mínimo de saneamento, salta aos olhos de quem cruza a Transcaireira, que liga o Morro da Cruz ao bairro Saco dos Limões”.

As casas de madeira que “saltam aos olhos” são parte do assentamento urbano informal em expansão há décadas no Complexo do Morro da Cruz, em processo similar ao já enfrentado por outras metrópoles brasileiras. São ocupações sintomáticas da profunda desigualdade social e de renda no país. A respeito disso, o trecho mostra certa empatia ao mencionar “centenas de famílias, a maioria em situação de vulnerabilidade, que sem condições de arcar com custos de aluguel acabam se arriscando para garantir um teto”.

Apesar dos respiros de humanização, o sentido geral da reportagem reflete a linha editorial do grupo, segundo o qual as famílias vulneráveis que “invadem” a cidade com anuência da Prefeitura são responsáveis pelo desmatamento e crescimento da violência. A audiência parece corroborar com o ideário. Um comentário de um leitor sugere ao poder público que “chute todo mundo ponte afora”. Tais posições que ignoram o ordenamento jurídico e direitos humanos poderiam ser repensadas considerando o ponto de intersecção entre o direito ambiental e de moradia.

O texto não saiu incólume da edição, que interferiu no campo de significação do conteúdo. O exemplo mais evidente é a legenda de uma imagem que dita: “Sem fiscalização, homem constrói mais um barraco na Transcaieira”.

A segunda reportagem mantém a tentativa de abordar o assunto de forma sensível, porém, sem sucesso. No primeiro parágrafo a pobreza das favelas é trazida como uma pedra no sapato do marketing falido da Ilha da Magia: “Capital do Estado, cidade com bons índices de desenvolvimento, cercada por belas praias, morros e matas, a antiga Desterro hoje virou lugar de disputas”. Essa frase logo é contrastada com a descrição do modus operandi das pessoas se arriscam para construir sua moradia. Isso compõe o tom ambíguo do texto, cuja visão sobre o problema segue opaca.

Não obstante, o texto não expõe o embasamento legal por trás das situações levantadas. Entre elas uma ação da Polícia Militar na servidão Três Marias, nos Ingleses, na qual moradores foram obrigados a destruir sua própria casa; grileiros urbanos (conceito pouco explorado nos jornais em geral) que se passam por agentes da Prefeitura; e o caso obtuso da ocupação Fabiano de Cristo, na qual o governo obteve a terra para criar conjuntos habitacionais que não saíram do papel. O terreno foi ocupado pelas famílias que seriam beneficiadas pela ação, sob a justificativa de que estavam ocupando o que era seu por direito. A saída ideal, agora, seria derrubar as moradias por um interesse social já suprido pela ocupação?

As inconsistências do material foram resultado da rotina acelerada das redações associada ao processo de edição. O repórter responsável pela matéria, Fábio Bispo, explica que lhe foi cedido apenas um dia para apurar o que seria o especial de final de semana, suprimindo qualquer possibilidade de aprofundamento no assunto — tanto no ponto de vista legal quanto social. Ele admite que a matéria tem pontos problemáticos e mal explorados, mas frisa que houve muito esforço para não estigmatizar os moradores das comunidades, evitando a abordagem que permeia as coberturas do tema pelo ND. Mesmo que quisesse ir mais a fundo no assunto, Bispo não teria como, pois, transita por quatro editorias, problema causado pela falta de equipe do jornal, sintoma da precarização das condições de trabalho.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos portais de notícias da mídia catarinense no período de 4 a 8 de junho de 2018.

 

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