Amanda Farias
estudante de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

            Na semana seguinte após o término da greve dos caminhoneiros, os telejornais locais ainda se preocupavam em exibir os reflexos que os oito dias de paralisação e bloqueio das estradas causaram à população. No Jornal do Almoço (JA/NSC), pautas sobre o preço da gasolina e diesel, fiscalizações do Procon em postos de combustíveis, abastecimento em mercados, procura maior que a demanda de gás de cozinha, dominaram entre os dias 04 a 09 de junho. Bem, talvez, por causa desta cobertura, não tenha sobrado muito tempo para apurar pautas e realizar matérias mais aprofundadas ou fazer bem-feita as poucas em que se propuseram – hipótese em que prefiro acreditar. Os flashs e notas cobertas dominaram o J.A., matérias curtas, de no máximo três minutos, e resumidas às fontes oficiais – quando não se restringiam ao release.

            E por essa falta de apuração e tempo dedicado às pautas, o Jornal do Almoço errou. Um adolescente de 16 anos foi morto após ser baleado na madrugada do último sábado (02/06) na Rua Deputado Antônio Edu Vieira, nas imediações de bares que ficam no entorno da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O telejornal, que não tem edição aos domingos, noticiou na segunda-feira, apenas com uma fala do apresentador Mario Motta (40s), na qual ele apenas relatou os fatos e uma fala da Universidade alegando que a tragédia não tinha nenhuma relação com a instituição.

            Mas o J.A. não se resumiu a essa nota, na verdade, não se resumiu ao fato de um adolescente ter sido morto, não ter sido descobertas as motivações do crime, bem como a inexistência de suspeitos. Tal morte foi o estopim para que as Polícias Militar e Civil, a Guarda Municipal, a UFSC e o Ministério Público se reunissem a fim de discutir medidas para controlar o barulho e casos de violência na região. Desta reunião foi originada uma reportagem de 4:27 minutos totalmente tendenciosa, opinativa, pois veiculou diversas afirmações sem provas, ausência de fontes e elementos-chaves para um entendimento melhor do público sobre o assunto.

            Foram ouvidos na matéria dois idosos que moram no entorno dos bares. Essas pessoas dizem, após a ação da polícia, “ter uma noite de sono tranquila”; um outro reclamou das garrafas quebradas na calçada. A diretora do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da Bacia do Itacorubi, Ana Claudia Caldas, avaliou que as ações da UFSC de proibir festas no Campus, ter criado mais pontos de iluminação e realizado a poda de árvores, gerou resultado positivo, pois resultou na baixa do índice de criminalidade em 30%. O comandante da PM da capital, Marcelo Pontes, alegou que a região da universidade não é frequentada apenas por estudantes e detém informações de que há um pequeno fluxo de tráfico de drogas e por ser um lugar escuro, com muita gente e difícil acesso, dificulta a ação policial. Um dono de bar, Manoel Corrêa, relatou não poder controlar o que acontece do lado de fora do estabelecimento. E um promotor de Justiça, Daniel Paladino, que falou sobre as medidas a serem tomadas pelas autoridades.

            Já é possível observar uma pequena divergência na fala de dois entrevistados. Enquanto Ana Caldas diz que a universidade está mais iluminada, acessível e segura, o comandante Pontes garante que há tráfico de drogas e que não conseguem combatê-lo por ser um lugar escuro e difícil acesso.

            Caldas também fala sobre a proibição de festas dentro do campus da UFSC, que em sua maioria eram organizadas por estudantes e realizadas para além da interação, arrecadar dinheiro para eventos universitários, viagens e até reformas nos centros acadêmicos. Com o cancelamento, os mesmos ficaram sem opções de lazer acessíveis e sem meios de arrecadação. Obviamente, isso geraria uma migração desta demanda para outros lugares. Os bares são mais baratos e passaram a atrair um número muito maior de pessoas, fato que fugiria do controle em qualquer outra região.

            Em uma reportagem que trata principalmente do quesito universidade, entorno e a vida de universitários que moram majoritariamente nesta região, por que nenhum deles foi ouvido? Ou até mesmo frequentadores desses bares que não necessariamente são universitários. A matéria não poderia ter nenhum contraponto? Ninguém trazendo um outro ângulo de uma mesma história?

            A reportagem não trouxe demandas desses jovens e por isso não pôde procurar soluções para o problema, além da ação policial. Respostas a questões básicas, como porquê não tem área de lazer para estudantes na universidade que ocupa área superior a 1 milhão de metros quadrados; quais as opções para uma boa utilização do espaço público; existem projetos da prefeitura ou governo estadual para criação destes espaços e caso não existam o porquê de não ser pensado. A única possibilidade que o conteúdo noticioso nos traz é de proibição e fechamento de ainda mais lugares que são umas das poucas opções.

Assunto de interesse público

            O telejornal, que apesar de em uma semana apresentar apenas duas pautas aprofundadas, acertou ao trazê-las ao público. São de extrema relevância e por muitas vezes esquecidas pela mídia tradicional em geral. “Pesquisa aponta número maior de casos de mortes de negros em SC” e “Autoridades alertam para crimes relacionados à pornografia infantil”.

            Na primeira, um repórter negro ouviu fontes como um advogado e militante, a coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU), uma estudante da UFSC e outro da UDESC. Utilizou recursos de infografia, destacando dados que reafirmam a relevância da matéria, por exemplo, foram mortas 22,4 pessoas negras por 100 mil habitantes em 2016, enquanto a taxa de pessoas não negras é de 12,6. Trouxe um bom texto e bons relatos. Mas 4:47 minutos não são suficientes para trazer à tona todos os problemas e desafios enfrentados diariamente pela população negra, nem para combater o preconceito vivenciado pelos mesmos todos os dias. É um tema que precisa ser mais pautado, apurado e amplamente discutido.

            A reportagem “Autoridades alertam para crimes relacionados à pornografia infantil” também abordou pontos fortes e que precisam ser de conhecimento e discutidos pela população. O acesso à internet está cada vez mais fácil, contemplando todas as idades. Crimes através da rede, consequentemente ficam mais fáceis. Com relatos de um perito criminal, um membro da delegacia de repressão aos crimes de internet, dados trazidos pela jornalista, a reportagem cumpriu o que se propôs a passar ao público. Fechou a matéria com “chave de outro” apresentando o projeto Faça Parar, de Chapecó, onde é desenvolvido em escolas estaduais a cinco anos e visa ensinar os adolescentes a reconhecerem o perigo e incentivar a denúncia.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise do Jornal do Almoço (da NSC/TV), observado no período de 04 a 08 de junho de 2018.

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