Luiz Felipe Buzzi e João Paulo Mallmann
estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

Algum tempo atrás, a NSC anunciou, orgulhosamente, que três profissionais do seu quadro desembarcariam em solo russo para a cobertura da Copa do Mundo. Quando embarcaram para a ex-república soviética, o Jornal do Almoço anunciou que eles iriam “vivenciar a Copa com um olhar local, focados nos interesses e nas expectativas de quem vibra pelo Brasil aqui em território catarinense”.

Justiça seja feita, o trabalho do fotógrafo Diórgenes Pandini é bom. Publica boas fotos do que vê na Rússia no jornal Diário Catarinense e nos portais do grupo, além de captar as imagens do conteúdo televisivo produzido pelos dois dos mais experientes e reconhecidos colunistas da empresa de comunicação: Cacau Menezes e Roberto Alves.

A Copa do Mundo é um evento que mexe com as pessoas e ganha prioridade quase absoluta em grades de programação, uma prova disso é o Jornal do Almoço começar uma hora antes, adequando-se à grade horária do torneio. O interesse poderia ser uma grande oportunidade de se trazer conteúdo realmente relevante e diferenciado para o público catarinense, como foi proposto. Não é bem o que foi visto, pelo menos até este momento.

A cobertura é rasa. A adaptação do quadro Fala Bob, com Roberto Alves — no qual o comentarista responde descontraidamente perguntas de populares sobre futebol — para Fala Bobóvski ainda é carismática, mas parece ficar sem ponto central. O experiente comunicador de 77 anos saiu às ruas na Rússia mostrando um pouco do país, sendo auxiliado por uma estudante brasileira habitante russa que atua como intérprete.

Também mostrou alguns comportamentos questionáveis. Ao chegar em um local com uma mulher e dois rapazes, perguntou qual deles namorava a moça, como se fosse algo estranho pessoas de sexos diferentes se divertirem juntos sem ter um relacionamento. Ao ser informado que nenhum deles namorava a moça, disse que “os caras aqui não são de nada pelo jeito, né”. Ultrapassado. Pouco fugia das perguntas como “vai torcer para o Brasil nessa copa?” e das perguntas sobre pretendentes para as mulheres.

O colunismo social da NSC vai pra Rússia

A cada quatro anos a Copa do Mundo exige do jornalismo esportivo dedicação praticamente integral em informar e comunicar além do resultado do jogo — história, geopolítica e contextos sociais do país anfitrião e das nações convidadas são sempre de interesse público. O desafio é alimentar diariamente o veículo com informações que possam situar o leitor, ouvinte ou telespectador dentro do megaevento (cinco mil jornalistas de todo mundo, com estimativa de audiência na casa dos três bilhões de pessoas). Além de recursos para investir em correspondentes, isso exige criatividade e apuração jornalística.

A NSC TV, ao contrário, optou em exportar o seu tradicional colunismo social que recheia o impresso e dá luz ao Jornal do Almoço. Enquanto outros repórteres racham a cabeça pensando em pautas criativas em relação ao futebol — ou gastando ‘sola de sapato’ para informar temas críticos em relação ao conservadorismo russo — numa cobertura exigente, cansativa, Cacau Menezes sorri e se diverte falando de como as mulheres russas são “belas, educadas, simpáticas” e os homens são “tímidos, envergonhados, discretos”. Um trabalho de correspondência internacional em tom claro de deboche.

No quadro “Cacau na Rússia”, publicado na edição de sexta-feira (15) do Jornal do Almoço, a pauta era Rostov — cidade do primeiro jogo da seleção brasileira contra a Suíça. Depois de dar o perfil, generalizado e desnecessário, das mulheres e dos homens da cidade, os dois correspondentes — Cacau e Bob — apresentam uma guia turística brasileira, que mora na Rússia há dois anos, para jogar no ar curiosidades aleatórias sobre o rio. O interesse dela em apresentar a cultura local logo é ignorado para uma conversa cínica e debochada entre os dois sobre o próximo jogo da seleção. A guia só vai voltar na matéria para responder sobre o que interessa no colunismo social: festa!

O problema é que essa omissão beira à desinformação. Indo no Google e pesquisando Rostov eu sairia mais bem informado e contextualizado. Se a proposta do quadro é mais entreter do que informar, que pelo menos não seja sarcástico e desrespeitoso. No entanto, se a NSC se comprometesse em levar correspondentes qualificados em apurar informações e elaborar pautas de interesse público, a qualidade informativa dos seus veículos seria significativamente melhor. Da forma que foi apresentado, o público mais uma vez é subestimado.

Enquanto os alunos de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina suam todos os dias dentro dos estúdios da Rádio Ponto, sonhando em algum dia ter a oportunidade de cobrir uma Copa do Mundo no país sede, a reação em ver, na prática, a cobertura superficial, quase em tom de deboche, do jornalismo do NSC é, no mínimo, frustrante.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise do Jornal do Almoço (da NSC/TV), observado no período de 11 a 15 de junho de 2018.

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