Bruno Rosa e Rafael Moreira
estudantes de jornalismo da UFSC, especial para o objETHOS

Tudo estava tranquilo até aquela segunda-feira, dia 11 de junho de 2018. Acidente na BR-101, greve, assaltos com e sem mortes, algum caso de corrupção, uma pitada de viagens, lazer e estética, além, é claro, da Copa do Mundo de futebol. A disputa na cabeça dos catarinenses entre assuntos pessoais, corrupção e o fim do semestre não deram espaço para a euforia da copa.

A primeira manchete publicada nas redes sociais do DC até então era a chegada da seleção brasileira à Rússia. A reação do público foi muito diferente da última edição, quando Neymar publicava a frase “Deus é top” nas redes sociais e recebia milhares de curtidas e interações. As curtidas ainda continuam, mas a reação do público mudou um pouco, não em relação aos memes, nem ao namoro de Neymar com a Bruna Marquezine. No entanto, as pessoas não parecem tão animadas com a Copa 2018.

E, ao que indicam diferentes pesquisas, não é mera impressão. O instituto Datafolha (ligada ao jornal Folha de S. Paulo), apurou que “53% dos brasileiros afirmam não ter nenhum interesse pelo Mundial”. O instituto “ouviu 2.824 pessoas, em 174 municípios, nos dias 07 e 08 de junho, uma semana antes da Copa. Ainda segundo o Datafolha, “apenas 18% dos entrevistados dizem ter grande interesse pela competição; entre as mulheres é maior o índice de desinteresse – 61%”.

Em Florianópolis, particularmente, aquela semana do dia 11 de junho começou pacata, tentando ainda se organizar e retomar a rotina após a paralisação dos caminhoneiros. Ainda havia postos com falta de álcool e gasolina aditivada, e no Sul da Ilha ouvia-se boatos de que ainda faltava botijão de gás em algumas regiões. O comentário do leitor Julio Zanchett na página do Diário Catarinense ilustra a impressão que se teve após sair da banca e olhar pela janela do ônibus: “Nem parece que começa essa semana, não se vê nada na rua que lembre a Copa”.

Também pudera. Segundo o Datafolha a situação econômica do país piorou para 72% da população, 69% acha que a greve piorou a situação do país e 70% acha que o subsídio do petróleo é uma opção melhor que a política atual de preços da Petrobrás. Mas não é só a economia que preocupa o catarinense. Os presídios estão tão superlotados, desde março, três presos foram soltos por falta de vagas em SC.

Todos estavam tão ocupados que nem viram os funcionários da Eletrobras decretarem greve de 72 horas naquela segunda. Ou o desenrolar da denúncia de Caixa 2 contra o ex-governador Raimundo Colombo [ele mesmo, que largou o cargo no início do ano para concorrer às eleições de 2018 para senador pelo PSD]. Ou até mesmo o encontro de Kim Jong-un com Donald Trump, representantes políticos de dois países que, por acaso, não vão disputar a Copa.

Foi até um pouco difícil entender o que se passava no ND, que tratava constantemente dos assessores dos deputados da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) enquanto o onda da Copa aumentava. O Notícias do Dia martelou nesta tecla durante a semana toda. Ponto positivo em comparação ao DC, que na semana inteira apenas pincelou duas publicações sobre o assunto. Um release e um texto de colunista sem nenhum entrevistado. Ponto positivo, pois não apenas de “pão e circo” vive o ser humano.

É o mal do jornalismo de redação. Fenômeno que se manifesta pela precarização das redações, grande volume de trabalho diário e baixa remuneração. Sinto muito família Petrelli (RIC) e família Sanchez (NSC), mas se é para ter jornalismo de qualidade, precisa de dinheiro. Condições de trabalho dignas, mais profissionais, liberdade, um bom salário e organização não são coisas baratas – e dão muitos lucros aos seus proprietários, se bem geridas.

Pontos interessantes a se destacar da semana passada são as charges. O Dia dos Namorados não fugiu das críticas do chargista Zé Dassilva do Diário Catarinense. Kim Jong-un entregando um buquê de flor com mísseis ao Trump na segunda (11/06) e os dois vestidos de hippies com o título “Neo-Hippies” na terça (12/06). A propósito foi na terça que muitos ficaram sabendo da Copa. A charge de Dassilva na quarta demonstra bem este momento. Foi uma revirada nos temas que ganharam destaque naquela semana. O Notícias do Dia tomou como bandeira principal uma denúncia na Câmara legislativa. Resultado: vendeu menos jornais que o DC. Com tom provocativo a charge de Ricardo Manhães, do ND, satiriza com esta animação repentina pela copa.

No meio de tanta diversidade de informação, o morador de Florianópolis percebeu que não era errado torcer e acompanhar o campeonato mundial. Afinal, já que estamos vivos não anima ficar sabendo de todas estas notícias além de ser bombardeado de matérias sobre assassinatos e acidentes de trânsito. O futebol é divertido e tem seu papel social. Entretanto, quando deu por si, o leitor já estava apostando nos bolões do trabalho, da família e de outros três grupos do Whatsapp. Até uma bandeirinha modesta pendurou atrás da TV. O que não quer dizer que ele não continua preocupado com os rumos que o país está tomando. Temer decretou feriado para servidores públicos federais. Mas, os demais setores continuam trabalhando.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto foi elaborado por meio de análise dos portais de notícias da mídia catarinense no período de 11 a 15 de junho de 2018.

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