Eduarda Hillebrandt e Matheus Vieira
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para o objETHOS

A RIC Record Santa Catarina anunciou que Henrique Zanotto irá substituir Hélio Costa no comando do Cidade Alerta SC a partir de segunda-feira (02), pois Hélio pretende concorrer às eleições. O programa é exibido de segunda à sexta-feira às 18h e, junto ao Giro Policial apresentado por Roberto Salum, na Record News às 19h, compõe o núcleo policialesco da emissora.

Nos últimos meses, o Cidade Alerta SC soava como uma versão mofada das coberturas policiais pirotécnicas da Record no início dos anos 2000. Hélio, por sua vez, é figura recorrente de polêmicas, tanto pela entrevista em que humilhou Andressa Urach, quanto por vocalizar o ímpeto de violência das classes conservadoras. Ao longo da última semana, acompanhamos o programa para entender, afinal, o que há de tão incômodo com o clássico Cidade Alerta.

  1. Assessoramento das forças policiais

 Os repórteres do programa — Fábio Nocetti e o próprio Hélio — têm tanto acesso às informações da polícia quanto uma assessoria de imprensa. Inclusive, comportam-se como uma. Todos os dias, o programa expõe o dia-a-dia básico de qualquer policial, dando tom grandioso a feitos triviais, como é o caso da reportagem do dia 25 de junho que mostra uma busca por armas escondidas no Morro da Perla em Florianópolis, usando até mesmo os vídeos da polícia. Não se vê o mesmo nível de supervalorização das atividades básicas de um agente público em outras áreas, como “Garis limpam as ruas” ou “Médicos realizam cirurgias”. A Record parece viver uma relação simbiótica na qual os jornalistas têm informações privilegiadas e permissão para expor prints do sistema da polícia — mostrando dados pessoais de criminosos — e em troca representam os policiais como seres heroicos, ainda que atender ocorrências em suas devidas jurisdições seja o dever básico das forças policiais.

  1. Valor-notícia confuso

Essa relação simbiótica é perigosa, pois gera a impressão de que encarcerar pessoas por tráfico de pequenas quantidades é algo necessariamente positivo. Tal entusiasmo desconsidera que vivemos em um Estado que, segundo a coordenadoria do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Prisional ao G1, conta com 20 mil presos ocupando 16 mil vagas. A situação precária da comunidade carcerária — denunciadas pelos próprios presos e seus representantes — está no cerne de episódios como os incêndios a ônibus e outros ataques urbanos. Nesse sentido, a reflexão sobre o que significa prender traficantes de pequeno porte é perdida no programa, que noticia a apreensão de 300 gramas e 98 quilos da mesma forma.

  1. Relação de confiança plena

As afirmações das forças policiais são processadas de forma acrítica. Isso ficou evidente na reportagem de 26 de junho, na qual Hélio Costa conta que um adolescente foi baleado na perna por um militar após supostamente tentar atirar neles. O garoto foi internado no Hospital Governador Celso Ramos, e todas as informações sobre o caso foram coletadas diretamente no 4º Batalhão. A reportagem não questiona se houve de fato uma tentativa de agredir os policiais, não procura por provas, nem pelo testemunho da vizinhança. Para piorar, Hélio informa que o garoto portava uma pistola .40 da Taurus com mira à laser, a mesma usada pelas polícias civil e militar, mas afirma que a arma provavelmente foi comprada no Paraguai. Oras, como o repórter/apresentador pode ter tanta certeza disso? Quem garante que a arma não foi vendida por um agente de segurança? Segundo Hélio, a própria polícia garantiu isso. O caso se aproxima muito dos “autos de resistência”, nos quais o policial mata um “suspeito” que teria resistido à prisão e posto a vida do policial, que costuma ser a única testemunha, em risco. Revelações sobre o modus operandi das forças policiais em outros estados, como a Rota em São Paulo e o caso Geovane na Bahia, fornecem elementos para, no mínimo, ceder à vítima do disparo o benefício da dúvida.

  1. Elucubrações de Hélio

 O apresentador costuma idealizar sobre os crimes, levantar hipóteses e criar cenários para justificar os crimes. Tal processo pode ser arriscado, como os comentários de Hélio sobre o assassinato de Jhonatan Machado Calixto (28) com um tiro na cabeça em Capoeiras na última segunda-feira (25). Trata-se do primeiro homicídio registrado em 17 dias na Capital. O apresentador articula a tese de que o “vício em drogas” e os “pequenos furtos na região” foram motivos para a execução do rapaz, que era morador de rua. Não há investigação suficiente para afirmar que Jonathan tinha vício em drogas e roubava transeuntes, tampouco para supor que foi executado por dever ao tráfico e causar incômodo para traficantes da região ao chamar atenção da PM. Desse modo, Jhonatan tem seu assassinato validado pelo noticiário. Hélio também desvia o público do fato de que o longo período de trégua em Florianópolis não dialoga com a narrativa de que a cidade vive tempos de caos e violência.

 Ferrete

 No Cidade Alerta, é de praxe enquadrar pessoas como criminosas apenas pelos flagrantes informados pela polícia. É como se, para Hélio Costa e sua equipe, não fosse necessário investigar e dar a chance de defesa a alguém que possa ter cometido um crime. Não à toa os infelizes expostos na tela não apenas a foto do rosto, mas também dados pessoais, como é o caso de uma reportagem de 27 de junho sobre um homem preso no Morro do Quilombo, que teve parte de sua ficha criminal exibida na matéria, incluindo data de nascimento, alcunha, nome e RG. Essas pessoas provavelmente entrarão para a estatística que informa que 40% dos 726 mil presos do Brasil ainda não passaram por um julgamento, e, depois de passar pelo programa, upado no Youtube diariamente, perderão o direito ao esquecimento e ao perdão, mesmo que não tenham cometido os crimes dos quais são acusadas.

  1. Enfim, o olhar casuístico

 As notícias no Cidade Alerta são peças que não se encaixam. Não há um esforço em considerar balanços e análises sistemáticas da segurança pública da Grande Florianópolis. O noticiário policial acompanha os esforços contínuos e intermináveis em coibir o tráfico, que em algum nível são os espasmos da guerra ao narcotráfico. Não há menção a grupos de crime organizado, incursões no sistema carcerário do estado, acompanhamento de audiências de custódia e eventuais desdobramentos jurídicos dos casos. Evidentemente, a equipe reduzida se traduz em um material precário em termos de apuração. A renovação no comando pode ser uma oportunidade para repensar os parâmetros éticos e editoriais do programa.

Resposta da produção

A produção do Cidade Alerta foi procurada para comentar alguns pontos levantados ao longo do artigo. O editor-chefe do programa, Leo Pereira, afirma que a linha editorial busca a imparcialidade e que, portanto, apenas o relato da polícia não garante uma matéria consistente. “A missão do repórter é ouvir o máximo de pessoas e testemunhas numa matéria. Os dois lados precisam ter destaque, é a nossa obrigação chegar mais perto da verdade”, esclarece. O editor-chefe reconhece que a equipe é pequena, levando a produção a priorizar os assuntos de relevância para a audiência. Pontua que, em essência, a pauta do Cidade contempla toda a área da Segurança Pública, especialmente sistema carcerário. Quanto à exposição de fotos e dados, a redação do Cidade protege a identidade de menores apreendidos, mesmo diante de morte, por conta da Lei nº8.069/1990.

“O Hélio Costa é uma figura emblemática na área do jornalismo policial, são mais de 40 anos de profissão, a metade dedicada à produção e apresentação de matérias policiais”, ressalta Pereira. O editor complementa que, em 15 anos de trabalho junto a Hélio, não observou influência da mudança de apresentador nos índices de audiência, embora a mudança crie expectativas por parte da produção e dos telespectadores.

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Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais. O texto traz uma análise do programa Cidade Alerta SC na RIC/Record, observados no período de 25 a 29 de junho de 2018.

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