[Este artigo foi produzido antes da eliminação do Brasil na Copa do Mundo]

João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

Um volume formidável de material jornalístico vem sendo produzido e publicado sobre e a partir da realização da Copa do Mundo de futebol na Rússia. Em meio a toda a essa produção, uma boa parcela, ou até pode-se dizer a maior parte dela, apresenta qualidade no mínimo duvidosa e questionável. Se fizermos uma pesquisa para verificar o espaço dedicado ao evento pela mídia impressa e na web, ou para averiguar o tempo dedicado pela mídia radiofônica e pela televisão, muito provavelmente teríamos números absurdos se comparados com assuntos, digamos, de maior interesse público e relevância social.

Nem seria preciso indicar a indigência dos conteúdos elaborados e difundidos, sobretudo em análises e comentários rasos, parciais, apaixonados, realizados todos os dias por profissionais do segmento do jornalismo esportivo nacional pela obviedade notória, mas nem sempre percebida em sua dimensão problemática pela audiência. Ao lado de jornalistas também aparecem ex-jogadores contribuindo na maioria das vezes para tornar ainda pior o paupérrimo trabalho jornalístico apresentado ao público.

A qualidade, que no geral já não é boa, cai vertiginosamente nos programas de televisão, seja nos canais abertos ou nas emissoras que operam com sinal fechado na TV paga. Nessas produções, o telespectador se depara com a apologia gratuita a um time que é admitido como a representação máxima do nosso pobre país, confunde-se patriotismo com parcialidade, avaliação de desempenho com elogios melosos, além da indisfarçada desqualificação de outras equipes e jogadores. Aliás, uma frase é repetida como que se a virtude fosse primazia do esquadrão da CBF, com relação a seleções de outros países: “jogou com muito esforço e determinação, venceu”, “mas falta técnica”. A técnica é avaliada tendo como referência aquilo que faz em campo o “melhor” time do mundo, o “maior” ganhador de copas de todos os tempos. Isto como se pudesse haver um modelo padrão que é o futebol brasileiro. Esses comentaristas não têm a menor disposição em pensar que a técnica pode ser diferente para equipes diferentes, apenas diferentes, nem melhores e nem piores.

Pobre jornalismo

Esse tipo de jornalismo esportivo tem ainda uma capacidade de deixar em segundo plano os defeitos da chamada seleção brasileira, a qual pode ser comparada muito mais a uma legião estrangeira do que uma equipe que realmente representa o país, dada a quantidade de jogadores que não estão mais atuando no Brasil há muito tempo. Os defeitos são escamoteados, as pretensas qualidades exaltadas ao limite máximo, o caráter ético dos protagonistas e suas atitudes quando questionados aparecem com críticas mínimas e como algo normal.

É o caso daquele atacante, tido e havido majoritariamente como a maior estrela brasileira da Copa e candidato a melhor jogador do torneio, que parece gostar mais de grama do que da bola, que prefere simular a maioria das faltas e que ao menor toque do adversário cai, grita e abre tanto a boca que parece estar tendo um membro fraturado. Cenas de um autêntico e mambembe teatro do absurdo. Além de se mostrar uma pessoa dissimulada em campo, esse jogador não abre mão, nas oportunidades que tem de tentar desmoralizar e humilhar o adversário, demonstrando total falta de respeito a outro ser humano que por circunstâncias está no lado oposto da disputa.

Esse cenário de um jornalismo patético e paupérrimo se consolida, apesar de algumas poucas exceções, as quais são tratadas com desdém por profissionais que deveriam primar pela ética em primeiro lugar. O mau exemplo foi dado pela emissora de canal fechado SporTV no último dia 2 de julho, quando antecedendo ao programa Seleção Copa foi colocado no ar um profissional fazendo uma tentativa de abordagem humorística com relação a matérias jornalísticas que se propõem a abordar a competição mundial de futebol por um viés mais sério e comprometido, analisando os países participantes com base em números como os do IDH e PIB.

Após escarnecer essas abordagens, com a argumentação que isso nada tem a ver com futebol, o apresentador passa o comando para dois outros jornalistas que concordam e pioram ainda mais o enfoque diferenciado para compreendermos o que ocorre na Copa da Rússia, abrindo o programa Seleção com essa falácia de que futebol é futebol e não tem relação com PIB e IDH como, segundo eles, comprova o desempenho de países adiantados nesses quesitos e que foram eliminados precocemente. Sem bons argumentos, apelaram para uma frase descontextualizada do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues que um dia disse que os brasileiros sofriam de um complexo de vira-latas.

O que importa?

Contraditória e sarcasticamente, a mesma emissora tratou o jogo entre as seleções da Suécia e da Suíça, vencido pela primeira, como o clássico do IDH. Apenas na denominação, pois nem se deu ao trabalho que explicar ao distinto público que IDH é a sigla adotada para índice de desenvolvimento humano formado por componentes como expectativa de vida, educação e renda per capita de cada país.

Apesar da recusa obtusa dos referidos profissionais, é muito interessante levar em conta esses índices quanto aos países que disputam essa competição, pois podem nos possibilitar a apuração de informações que esclareçam várias questões relevantes. Entre essas a relação entre o posicionamento mundial da nação, seu PIB e IDH, seus investimentos em educação, formação esportiva em geral e para o futebol, capacidade de atração de investimentos para a área futebolística, financiamentos voltados para a capacitação profissional de atletas e jogadores tanto de origem pública como privada por meio das confederações e ou federações que conseguem faturamento multimilionário com patrocínios e fontes diversas de arrecadação, mas repassam parcos recursos para formar, capacitar e educar futuros craques.

Não é possível desconsiderar, portanto, o fato de o Brasil se classificar em 24º lugar entre todos os países participantes da Copa do Mundo com um dos piores IDH, perdendo para nações como o México, Costa Rica, Panamá, Uruguai, Croácia e Argentina, entre outros melhores colocados que nós, em que pese tenhamos PIB mais elevado.

O tratamento dado pela imprensa em geral à cobertura da Copa do Mundo se restringe lamentavelmente a jogos, resultados, comemorações, alegrias e tristezas de torcedores, passagens pitorescas, exóticas ou grotescas, exaltação a determinados personagens, emissão de opiniões pessoais, elogios fáceis, ou criticas desonestas a adversários. Tudo isso sem se ater mais enfaticamente nas características eminentemente comerciais do evento, sem nenhuma reversão para o desenvolvimento social, ou mesmo para distribuição de renda que por ventura possa ser gerada a partir da Copa.

A arrecadação somente da CBF com a seleção brasileira ultrapassa a cifra dos R$ 500 milhões, e uma parte desse valor vai para premiar os convocados, comissão técnica e demais colaboradores da entidade. Só a premiação dos 23 jogadores será de U$ 1 milhão para cada um no caso de o time sair da competição como campeão, o que corresponde a mais ou menos R$ 90 milhões no total. E depois vêm afirmar em declarações que estão lá para defender o país?

Ainda no plano comercial e financeiro não é possível ignorar o faturamento da mídia com a copa. Fiquemos com apenas o maior conglomerado brasileiro de comunicação em seu segmento de TV aberta. Essa rede comercializou cobertura e transmissões com seis patrocinadores pela bagatela de R$ 180 milhões cobrados de cada um. O cálculo é simples multiplicando o valor individual pelo número de patrocinadores, o que resulta em nada menos do que R$ 1 bilhão e 80 milhões.

São dados informativos aos quais a grande maioria do público fica alheia, face à indisposição dos veículos jornalísticos e de profissionais em tratar do assunto pelo ângulo da movimentação financeira e para onde são canalizados esses valores. Pode-se indagar se ao menos uma parcela desses montantes extraordinários não deveria ser empregada em projetos com o objetivo de melhorar os índices do Brasil, se não em termos de IDH que depende mais de políticas públicas instituídas pelo poder governamental, mas em melhorias educacionais e esportivas a partir de iniciativas envolvendo com mais força a sociedade civil? A existência de recursos é tão clara quanto a regra do Arnaldo, mas a destinação parece muito nebulosa.

A considerar as atitudes de profissionais que insistem em olhar o trabalho jornalístico tão somente por seu ponto de vista reducionista, talvez seja oportuno propor estudos que definam a elaboração de um IDF (Índice de Desenvolvimento Futebolesco) para classificar cada país depois do encerramento desta Copa de 2018. Ou ainda a invenção de um IDJE (Índice de Desenvolvimento do Jornalismo Esportivo) para tentarmos enquadrar a produção feita pelos profissionais dessa área conforme sua qualidade técnica e ética.

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